Ficha do Proponente
Proponente
- Guilherme dos Santos de Souza (UFF)
Minicurrículo
- Bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFF e em Relações Internacionais pela UFRJ. Diretor de Fotografia do curta-metragem Dublê (2022) – vencedor do prêmio de Melhor Fotografia no Festival Internacional de Cinema de Maranhão 2024. Diretor do curta-metragem de ficção de terror Rodinhas (2025), selecionado no 18o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul (2025), e co-diretor do curta-metragem de ficção de horror social Outros Santos (2026), premiado com Menção Honrosa no Festival Curta Cinema (2026).
Ficha do Trabalho
Título
- Pensando a relação entre a forma do terror e o discurso na obra de Jordan Peele
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Este trabalho parte de nossa pesquisa de mestrado para estudar a relação entre a forma cinematográfica e o discurso nos filmes de Jordan Peele, buscando entender quais são as estratégias de Peele para articular suas temáticas críticas dos Estados Unidos – pelo racismo, pela desigualdade, pela exacerbação da sociedade do espetáculo – com as convenções dos cinemas de gênero de horror e terror, visando assim contribuir com os debates sobre horror social e thriller social.
Resumo expandido
- Rodrigo Carreiro e Laura Cánepa (2025, p. 313) afirmam que o subgênero cinematográfico de horror social é potencializado pelo momento histórico do início do século XXI de aprofundamento da percepção de que o mundo já está ou se encaminha para um horizonte distópico, produzindo um deslocamento do foco do extraordinário para os horrores do cotidiano e das estruturas sociais, “dos sistemas sociais e econômicos que perpetuam o sofrimento” (2025, p. 313-314). Para Carreiro e Cánepa, esta percepção distópica pode ser sintetizada pela afirmação do filósofo Mark Fisher (2009): “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.”. Ao comentar sobre thriller social – que Carreiro e Cánepa consideram um termo-irmão ao horror social -, Jordan Peele afirma que a sociedade é o vilão desse subgênero de filme (Phillips, 2017), ao qual ele inclui seu primeiro longa-metragem, Corra! (2017). Surge uma pergunta: como seria possível esmiuçar o termo sociedade para algo mais tangível nos filmes? Carreiro e Cánepa afirmam: Dinâmicas de poder, exclusão e desigualdade (2025, p. 313). Segundo Carreiro e Cánepa: “Mesmo muito diferentes entre si, filmes trazem em comum o uso de tropos e monstros do horror – fantasmas, vampiros, lobisomens, serial killers, entidades sobrenaturais, figuras mitológicas – para gerar atmosferas atemorizantes que revelam, de forma bastante direta, problemas sociais dos países ou contextos nacionais que foram feitos.” (2025, p. 319).
Buscaremos em nossa apresentação tratar da obra cinematográfica de Jordan Peele como diretor a partir de seus três longa-metragens – Corra! (2017); Nós (2019); Não! Não Olhe! (2022) -, tendo como foco estudar a relação entre a construção do terror a partir de elementos da forma cinematográfica e a construção do discurso fílmico, buscando assim contribuir com estudos sobre horror social/thriller social por meio das estratégias cinematográficas usadas por Peele para entrelaçar o discurso dos filmes nas convenções de terror e thriller. Os três longa-metragens de Peele são lançados do ponto de vista do contexto político em um processo de intensificação de crise da democracia liberal, ao mesmo tempo uma condição de possibilidade política para o surgimento de Donald Trump – já que não há sentido em afirmar que a ascensão de Trump surge de um vácuo -, e intensificada pelo mesmo em uma velocidade impressionante. Entre traumas individuais e coletivos dos personagens de Peele e dos Estados Unidos, paralelos entre passado e presente estadunidense nas narrativas de seus filmes – e demonstrações de como o passado opera no presente – e abordagens de grandes temas de seu tempo, Peele costura por meio de filmes centrados no gênero de terror, protagonizados por personagens negros, uma proposta de leitura não só do presente, mas de como os Estados Unidos chegou até sua situação atual. A abordagem do racismo (pauta minoritária), da desigualdade (pauta econômica), da exacerbação da sociedade do espetáculo (pauta comunicacional) demonstra um guarda chuva de temas que muito possivelmente serão temas centrais de estudo deste momento da história por um longo período de tempo. Apostamos que seu sucesso comercial e crítico está na capacidade de introduzir o discurso na forma, o que nos interessa no sentido de que acreditamos que há na ideia de horror social uma articulação particular entre as formas externas (BUSCOMBE in ROMÃO, 1995) do horror e a construção de discurso do filme, uma relação específica em relação ao resto dos gêneros de horror e terror. Abordaremos essa relação por uma questão de intensidade na forma específica de se relacionar forma e discurso nesses filmes, o que buscaremos expor em nossa apresentação.
Bibliografia
- BUSCOMBE, Edward. A ideia de gênero no cinema americano. In: RAMOS, Fernão (Org.). Teoria contemporânea do cinema vol. II: documentário e narratividade ficcional. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2005, pp. 303-318.
CARROLL, Noel. A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração. Campinas: Editora Papirus, 1999.
COLEMAN, Robin R. Means. Horror noire: a representação negra no cinema de terror. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2019.
SIPOS, Thomas M. Horror Film Aesthetics: Creating the Visual Language of Fear. North Carolina: McFarland & Company, 2010.
KEETLEY, Dawn (org.). Jordan Peele’s Get Out: Political Horror. Columbus: Ohio State University Press, 2020. ISBN 0814255809.
TRENTO, Paola. Contemporary Black Horror Films: Reinventing Representations of Blackness to Question Post-Racial America. 130 f. Final’s Thesis (Master’s Degree) – Curso de European, American And Postcolonial Languages And Literatures, Ca’ Foscari University Of Venice, Veneza, 2022.