Ficha do Proponente
Proponente
- Isabella Regina Ludiwg (UFMG)
Minicurrículo
- Isabella Ludwig é graduanda em Jornalismo na UFMG. Apresentou trabalho sobre caminhos para participação feminina na ciência no I Simpósio Nacional de Mulheres na Nanociência. Produziu podcast para o projeto Horizontes do Samba, responsável pela transformação do samba de BH em Patrimônio Cultural. Faz parte da Iniciação Científica de Práticas Moradoras, sob orientação de Érico Oliveira.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema Pedreiro: Interpolações do arquivo no cinema laboral de Lincoln Péricles
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Essa proposta investiga o cinema de Lincoln Péricles a partir de seus entrecruzamentos de arquivo, trabalho e luta social, destacando a resultante construção de uma linguagem cinematográfica com ritmo e estilo próprios. Sobre sua obra, sugere-se a noção do “Cinema Pedreiro” como prática estética e social, pensando na constituição de um contra-arquivo periférico, que simultaneamente mobiliza e ressignifica elementos de memória e cultura.
Resumo expandido
- “Falta ao cinema brasileiro um cinema pedreiro” (PÉRICLES, 2023). A formulação de Lincoln Péricles serve como ponto de partida para esta comunicação, que propõe pensar seu trabalho como uma prática audiovisual situada entre o diálogo com arquivo e o movimento político. O realizador, original de Capão Redondo (periferia de São Paulo), constrói uma relação íntima do cinema com o território, e as profundas contradições que atravessam a vida dos seus moradores.
Partimos da hipótese de que o cinema de Lincoln Péricles elabora um contra-arquivo periférico. Ao filmar o cotidiano da quebrada, com seus trabalhadores, fluxos e transformações, seus filmes operam como “contraprova” frente aos dispositivos históricos de registro do Estado, da mídia e do cinema hegemônico (PÉRICLES, 2022). Trata-se de um gesto político que desloca o papel do arquivo de registro neutro do passado para uma prática ativa de disputa de memória e produção de novos presentes.
Essa dimensão se intensifica através do próprio processo de produção do cineasta, marcado pelo uso recorrente de sampleamento e da apropriação de imagens e sons preexistentes. Em Aluguel: O Filme (2015), Mutirão: o Filme (2022) e Ruim é Ter que Trabalhar (2015), por exemplo, a montagem mescla arquivos diversos – desde televisivos a musicais – e imagens captadas no território, construindo uma nova linguagem que transita entre particular e compartilhado. Essa operação, próxima às práticas do rap (SILVINO, 2021), produz um regime estético que desestabiliza noções de autoria, originalidade e propriedade, ao mesmo tempo em que reinscreve tais materiais em uma lógica de partilha e reapropriação coletiva (HONORATO, [s.d.]).
É nesse sentido que a linguagem cinematográfica de Péricles pode ser compreendida como uma política de montagem, ou montagem da política, na qual diferentes temporalidades e materialidades utilizadas no processo de montagem se cruzam em uma reflexão sobre os imaginários de opressão que ainda mobilizam o passado para se tornarem presente. A proposta aqui é de um trabalho de cinema distintamente periférico, e, portanto, que existe na fragilidade da dissidência. O trabalho, aliás, aparece como eixo estruturante da obra do cineasta: seja na tematização da exploração laboral, seja na forma de produção coletiva e autônoma dos filmes. O cinema, então, surge não como representação do trabalho, mas como um trabalho em si – um fazer que enreda corpos e estruturas que os circulam.
A noção de “cinema pedreiro” permite, então, articular as diferentes dimensões da obra de Péricles. Trata-se de um cinema que constrói e reconstrói cenários periféricos sob uma lente de resistência, que é ativa no território. Não por acaso há uma aproximação com práticas de organização política e educação popular, partes da trajetória pessoal do cineasta.
Com obras que desafiam as barreiras entre ficção, documentário e experimentações variadas, o aspecto “pedreiro” também se faz presente em um certo elemento rústico, menos polido (GOMES, 2025). Enquanto a ideia da produção tradicional recusa a humanidade das falhas, a produção de Péricles reconhece e dialoga com as instabilidades. É nesse movimento que há uma recusa também da dominação que busca apagar qualquer traço da diferença.
Por fim, cabe salientar a forma como o arquivo potencializa o que é chamado de “cinema pedreiro”, valendo-se de um trabalho distinto de recuperação e ressignificação das imagens que constrói o contra-arquivo de Péricles. Interessa investigar de que modo sua prática audiovisual, enraizada nas condições materiais da periferia, produz simultaneamente uma reflexão sobre o trabalho enquanto meio de exploração, e uma política do arquivo — por meio da produção de contraprovas, memória e disputa histórica.
Bibliografia
- GOMES, Juliano; PÉRICLES, Lincoln. Trabalho. Revista Zum. 2025.
GOMES, Thiago Henrique Fernandes Leão. O decolonial no cinema periférico brasileiro. In: Anais Ecomig. 2019. Mariana.
HONORATO, Lucas. Sample é abordagem. Revista Descompasso.
LEROUX, Liliane. Heterotopias, desestruturações estéticas e (auto) criação nas produções audiovisuais do tipo ‘faça você mesmo’das periferias. In: CIANTEC’12 – Congresso Internacional em Artes, Novas Tecnologias e Comunicação, 2012, Instituto Inhotim – Brumadinho. As imbricações da cultura contemporânea à popular, 2012. p. 360-366.
PÉRICLES, Lincoln. Por um cinema pedreiro. Revista Descompasso. 2023.
SEFARTY, Juliana. Periferias em movimento: notas sobre as margens no cinema contemporâneo. Dissertação (Mestrado em Cinema). Instituto de Arte e Comunicação Social. Universidade Federal Fluminense. Niterói. 2019.
SILVINO, Ana Júlia. O cine-sample de Lincoln Péricles. Revista Cinética. 2021.