Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Enzo Baleeiro David Ferreira (UFBA)

Minicurrículo

    Formado pela Ufba em Bacharealdo Interdisciplinar em Humanidades pela UFBA, graduando em psicologia pela UFBA, e atualmente menbro do NUCLEARTE (Núcleo de estudos em Sociologia da Arte).

Ficha do Trabalho

Título

    MELANCOLIA DE ESQUERDA: IMAGENS DE UM PASSADO FUTURO NO SOCIALISMO

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O texto analisa, a partir do cinema, a transformação da experiência histórica, contrapondo a imagem teleológica do passado à contemporaneidade sem horizonte. Filmes como o de Theo Angelopoulos evidenciam a melancolia diante do colapso das utopias, enquanto, com Sigmund Freud e Georges Didi-Huberman, o trabalho sustenta que elaborar o passado implica transformar essa melancolia em luto, reabrindo a experiência histórica.

Resumo expandido

    Em 1959, Adorno formula a questão “o que significa elaborar o passado?”, investigando os entraves entre psicanálise e sociologia na compreensão da memória. Seu ponto central é que certas formas de rememoração, como no caso do fascismo, não indicam elaboração, mas sim a permanência de algo não trabalhado psiquicamente, revelando uma ferida aberta na memória coletiva.
    Koselleck, em Futuro Passado, analisa “A Batalha de Alexandre”, de Altdorfer, evidenciando uma experiência histórica sem separação entre tempos. O evento de 333 a.C. aparece como parte de uma narrativa teleológica cristã, onde passado e futuro coincidem: a batalha não é apenas um fato, mas um momento decisivo da história universal. O campo de experiência se funde ao horizonte de expectativas, fazendo do passado um anúncio do futuro. Temos aqui um exemplo de experiência da história que é radicalmente diferente da nossa.
    Se em Altdorfer o passado ainda se articulava a um futuro predefinido, a contemporaneidade se caracteriza justamente pelo colapso dessa projeção. O documentário Um lugar chamado Chiapas (1998), de Nettie Wild, ao acompanhar o Exército Zapatista de Libertação Nacional, evidencia esse deslocamento ao apresentar uma insurreição armada que não visa a tomada do poder, mas o reconhecimento e a possibilidade de interlocução. Trata-se de um paradoxo característico do presente: a ação revolucionária se realiza sob o signo da negociação, e não da ruptura. Como sintetiza Paulo Arantes (2014), o levante zapatista de 1994 inaugura um novo período histórico em que o poder deixa de constituir uma via efetiva de transformação do mundo.
    Por fim, pode-se dizer que o comunismo figurava como horizonte utópico de emancipação, como em O Quarto Estado, de Giuseppe Pellizza da Volpedo (1901), onde a classe operária avança como sujeito histórico, ecoando uma temporalidade orientada ao futuro. Contudo, essa imagem se eclipsa, dando lugar a uma experiência de perda, cuja expressão simbólica aparece em Um Olhar a Cada Dia, de Theo Angelopoulos, na cena do transporte da estátua fragmentada de Lênin pelo Danúbio. Como observa Enzo Traverso, trata-se de uma “melodia triste” que acompanha o funeral de uma promessa histórica (2021, p. 147), indicando o colapso do horizonte socialista. Nesse contexto, a distinção proposta por Sigmund Freud em Luto e Melancolia (1915) torna-se decisiva: enquanto o luto implica a elaboração da perda e a possibilidade de deslocamento libidinal, a melancolia fixa o sujeito ao objeto perdido, sustentando uma identificação que impede sua superação.
    É então ao apontarmos a morte como algo em potencial de modificar e remodelar as nossas relações, descolando o sujeito do lugar de objeto morto, só assim é possível sair de uma posição melancólica para posição de luto. Posição essa onde a perda é condição de possibilidade para um novo horizonte. Na obra ‘’Diante do tempo’’, Didi-Huberman (2015) defende que toda a história é a partir de uma história com memória é aceitar a sua ancoragem no inconsciente, em outras palavras, é dar espaço para ouvir a negatividade que implode o que está fixado numa nova constelação de imagens.
    Diante disso, retorna-se à questão formulada por Theodor Adorno acerca do sentido de elaborar o passado, o que não pode ser reduzido a uma perspectiva iluminista que o fixa e neutraliza sua negatividade. Em contraposição, Georges Didi-Huberman (2015) propõe compreender a história como um trabalho com sintomas, isto é, como irrupções que interrompem o sentido estabilizado e resistem à leitura imediata. Elaborar o passado implica, assim, escutar esses sintomas e reconhecer sua dimensão de verdade, o que, em termos psicanalíticos, equivale à elaboração do luto e à superação da fixação melancólica. Trata-se, por fim, de reconstruir a experiência histórica como um campo aberto, tal como sugere Walter Benjamin (2022) ao pensar o cinema como prática que desmonta e reorganiza os regimes de visão e os tempos pré-formados.

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W. O que significa elaborar o passado? In: _____. Educação e emancipação. Tradução de Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. (Original de 1959)
    ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
    BENJAMIN, Walter. Paris, capital do século XIX. In: _____. Passagens. Tradução de Irene Aron. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2022.
    DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Tradução de Vera Casa Nova. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.
    FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: _____. Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 12. (Original de 1915)
    KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução de Wilma Patrícia Maas. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
    TRAVERSO, Enzo. Melancolia de esquerda: marxismo, história e memória. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Autonomia L