Ficha do Proponente
Proponente
- Isabela Coura (UFSJ)
Minicurrículo
- Pedagoga e Mestra em Educação pela Universidade Federal de São João del Rei. Atua no campo de cinema e educação,
sendo uma das coordenadoras do Programa de Extensão Educação e Cinema com os territórios, vinculado a mesma Universidade
Ficha do Trabalho
Título
- Narrativas enquadradas: o cinema com mulheres em privação de liberdade
Resumo
- O trabalho apresenta uma experiência em andamento de cinema e criação cinematográfica com mulheres privadas de liberdade, em regime fechado, na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) de São João del-Rei (MG). A iniciativa integra as ações do Programa de Extensão Cinema de Fuxico, vinculado à Universidade Federal de São João del-Rei.
Resumo expandido
- O trabalho compartilha experiências desenvolvidas no Programa de Extensão Cinema de Fuxico, vinculado à UFSJ. A iniciativa promove encontros com mulheres em diferentes territórios, tendo o cinema como dispositivo disparador para ver, conversar e (re)configurar narrativas individuais e coletivas. Até o momento, foram realizadas ações no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC). Neste relato, focamos olhar para as atividades em andamento no regime fechado da APAC feminina. Desde o início, somos interpeladas pelas trajetórias dessas mulheres, que, em muitos casos, têm sua prisão associada a situações em que reagiram à violência doméstica sofrida. Como tantas outras, carregam violências inscritas na experiência de gênero, mas também tecem gestos de resistência e sustentam esperanças.
O cinema se agencia a esse território como um dispositivo de construção de um comum, abrindo um espaço de partilha, escuta e criação. Nele, experimentamos questões como: de que maneira as imagens podem devolver a essas mulheres o direito de imaginar outras vidas possíveis dentro e para além do confinamento? Como o cinema pode colaborar para enquadrar histórias e pontos de vista de mulheres privadas de liberdade — especialmente as que enfrentaram a violência doméstica — nutrindo forças e forjando alianças de resistência feminina?
Inspiradas nos escritos de Despret (2021) sobre o fazer pesquisa com a diferença, buscamos delinear caminhos para essa inquietação, exercitando modos de estar com o outro ancorados na troca e na proximidade, atentas às afetações engendradas nos encontros. Isso nos leva a interrogar continuamente as imagens que mobilizamos: evitamos aquelas que possam reiterar o sofrimento e nos aproximamos de imagens que afirmam a potência da vida.
Partindo de uma curadoria criadora (Rolnik, 2017), selecionamos filmes realizados por mulheres que, segundo Pinheiro (2020), operam como imagens em confronto com outras imagens — hegemônicas, colonizadoras, patriarcais. Nesse sentido, na sessão inaugural, exibimos dois filmes-cartas — Mensagem, de Lidiane Macêdo, e um trecho de Conversas nº 2, do projeto Nhemongueta Kunhã Mbaraete. Algumas recuperandas manifestaram o desejo de narrar suas rotinas no regime fechado em formato de carta, em ressonância tanto com a experiência de isolamento vivida pelo coletivo indígena durante a pandemia, retratada no segundo filme, quanto com o sentimento que atravessa Mensagem, cuja frase inicial anuncia: “O que eu sinto… uma vontade de ir embora, de partir”. Elas também querem partir — como uma garrafa lançada ao mar —, ir embora e não voltar.
Envolvidas pela proposta, dedicamos a segunda etapa à criação de alterretratos, modos de dizer de si a partir dos outros que as constituem. Nesse processo, emergem imagens da “sabedoria” inscrita nos corpos como tatuagem; corpos sem rosto, presenças de quem está ausente. Entre os enquadramentos, as grades atravessam as imagens, ora são ocultadas, ora fazem questão de aparecer: O que decidem mostrar e esconder do lugar que habitam?
Neste momento, seguimos implicadas na proposta, “curando” imagens e elaborando exercícios que alimentem a criação dos filmes-cartas. Para isso, apostamos no cinema como um dispositivo para reinventar narrativas de si e tensionar violências de gênero, entendendo que essas vivências coletivas, mediadas pelas imagens, permitem o surgimento de outras possibilidades de vida – vidas que se pretendem afrontosas em sua existência e nutridas pela esperança.
Bibliografia
- DESPRET, Vinciane. O que diriam os animais? Tradução de Cícero Oliveira. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
PINHEIRO, Sophia Ferreiro. Fazer filmes e fazer-se no cinema indígena de mulheres indígenas com Patrícia Ferreira Pará Yxapy. Teoria e Cultura, Juiz de Fora, v. 15, n. 3, p. 1-16, jul./set. 2020. Disponível em: Portal de Periódicos UFJF. Acesso em: 14 abr. 2025.
ROLNIK, Suely. O saber-do-corpo nas práticas curatoriais: driblando o inconsciente colonial capitalístico. Texto apresentado oralmente no seminário Curadoria em artes visuais: um panorama histórico e prospectivo, promovido pelo Santander Cultural. Porto Alegre, maio de 2017.