Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ariel Paulo Rangel (UFRJ)

Minicurrículo

    Mestrando no PPGMC/UFRJ com pesquisa sobre plataformas VOD (video on demand) e curadoria cinematográfica, sob orientação da Profa. Dra. Alessandra Meleiro. Atua também no mercado audiovisual há mais de 15 anos, com experiência em montagem, distribuição de longa-metragens e séries, e lançamento de canais VOD no Brasil e na América Latina.

Ficha do Trabalho

Título

    CINEMA, DADOS E PLATAFORMAS: A INVENÇÃO DE FUTUROS

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    O trabalho situa o ecossistema cinematográfico a partir da consolidação das tecnologias digitais. Como consequência desse processo, as plataformas VOD (video on demand ou vídeo sob demanda, em português) assumiram o protagonismo desta rede. A proposta aponta ameaças num contexto dominado por big techs, como também defende potenciais oportunidades, por meio do uso criativo de tecnologias, que promovam a inovação em processos curatoriais, fomento de audiências e estratégias de distribuição.

Resumo expandido

    A proposta organiza-se a partir da análise de três processos articulados: a plataformização, a dataficação e a neocolonização do cinema, integrados num ecossistema em rede. Recorre também ao modelo de análise de redes proposto por Barabási (2009), segundo o qual empresas, governos e demais agentes econômicos constituem nós, sendo as interações entre esses nós quantificadas por links. A partir desse modelo, as plataformas são identificadas como hubs, nós altamente conectados no ecossistema cinematográfico.
    São analisados três exemplos de situação-problema que representam momentos decisórios para espectadores-usuários e plataformas: a organização algorítmica do menu de filmes; o comportamento de navegação e escolha do espectador-usuário diante do catálogo; e o tratamento coletivo dos dados de comportamento organizados em clusters, os quais orientam processos de aquisição, produção e curadoria. Esses casos são analisados a partir dos três pilares da dataficação descritos por Lemos (2021): a conversão de ações em dados operacionalizáveis; o estímulo à produção, captura e fornecimento desses dados para estruturas de hardware e software; e o agenciamento algorítmico para analisar ambientes atuais e projetar cenários futuros. O proposta incorpora também a análise de dados do relatório da ANCINE-OCA (2025), que contemplou 106 plataformas VOD que atuam no Brasil, bem como a análise de tendências mapeadas pelo Nostradamus Report 2025.
    A plataformização é definida como a penetração de infraestruturas, processos econômicos e estruturas governamentais de plataformas em diferentes setores econômicos e esferas da vida, sendo também concebida como a reorganização de práticas e imaginações culturais em torno de plataformas (POELL et al., 2020). No âmbito da dataficação, as plataformas constituem uma nova datastructure, cujo modelo de negócios oferece serviços baseados na captação, análise e inteligência de dados (LEMOS, 2021). Os algoritmos definem e reificam os indivíduos em posições pré configuradas em função de modelos baseados em clusters, com base na coleta de dados que informam comportamentos passados e projetam preferências presentes e futuras. Quanto à neocolonização, o trabalho fundamenta-se na perspectiva de que a tecnologia não é neutra, sendo o domínio do ecossistema pelas Big Techs (ou Big MediaTechs), vinculado ao design de suas arquiteturas, um mecanismo de desigualdade estrutural.
    O trabalho defende que a plataformização e a dataficação do cinema, a partir de tecnologias e ferramentas como big data, machine/deep learning, cloud services e large language models, podem possibilitar resultados promissores para o desenvolvimento de indústrias locais e a construção de públicos engajados, a depender de como serão estruturadas e geridas. No caso brasileiro, faz-se necessária garantia de um ambiente de desenvolvimento para soluções locais e regionais que combinem cinema e tecnologia, operado com autonomia e soberania por todos os agentes do ecossistema. Este processo depende de sólidas garantias de governança, regulação, fomento e incentivo à inovação, apontando para o caminho da soberania, pluralidade e criatividade, numa condição persistente que aponte rumo a uma urgente descolonização do cinema.

Bibliografia

    ANCINE-OCA. (2025). Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda no Brasil – 2025. Rio de Janeiro, Secretaria de Regulação.
    BARABÁSI, Albert-László. (2009). Linked – A Nova Ciência dos Networks. Tradução de Santos, J. P. Brasil: Leopardo.
    GÖTEBORG FILM FESTIVAL. (2025). Nostradamus Report: Reality/Resistance. Gotemburgo, Suécia.
    HARAWAY, Donna. (2000). Ciborgues: Um Mito de Identidade Política. In: TADEU, Tomaz (Org.). Antropologia Do Ciboprgue: As Vertigens Do Pós-Humano. Tradução de Tadeu, T. Belo Horizonte: Autêntica.
    KWET, Michael. (2019). Digital Colonialism: US Empire and the New Imperialism in the Global South. Race & Class, vol. 60, nº 4.
    LEMOS, André. (2021). Dataficação da Vida. Civitas – Revista de Ciências Sociais, vol. 21, nº 2, pp. 193-202.
    POELL, Thomaz; NIEBORG, David; DIJCK, José Van. (2020). Plataformização. Fronteiras – Estudos Midiáticos, vol. 22, nº 1, pp. 2-10.