Ficha do Proponente
Proponente
- Philipi Emmanuel Lustosa Bandeira (UFPE)
Minicurrículo
- Realizador audiovisual (documentarista, diretor de fotografia, montador) e antropoólogo indigenista. Doutorando e mestre em Comunicação (UFPE), bacharel em Ciências Sociais (UFC), cursa atualmente especialização em Direção Cinematográfica (ABC/UNIFACHA). Dirigiu “Espelho Nativo” (2009) e “Yaguara da Encantada”, entre outros documentários e filmes etnográficos, além da participação em curtas e médias documentais. Foi professor de diversos cursos e projetos, como UFC, Uninta, VNA e Vila das Artes.
Ficha do Trabalho
Título
- Wahu Assu – A Guerra dos Bárbaros: working in progress
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- “Wahu Assu – A Guerra dos Bárbaros” é um filme híbrido desenvolvido em parceria com o povo indígena Pitaguary. Os Pitaguary lidam cotidianamente com o racismo ambiental e sua degradação, com a exploração do trabalho, com o território dominado por facções criminosas, vivendo em um fim do mundo em constante transformação há mais de 400 anos. O longa foi aprovado por edital em 2025 e a comunicação propõe partilhar um working in progress do processo de criação, do roteiro e das gravações.
Resumo expandido
- Do alto da serra da Aratanha, a Ita’Ara – a encantada da pedra da torre – observa a aldeia da Monguba e as transformações as quais passaram o povo Pitaguary nos últimos tempos. O pajé Barbosa parecia premonitório em seus últimos meses de vida, mencionando com frequencia a encantada, que já não aparecia ao seu povo indígena desde que a energia elétrica foi instalada na Monguba. Ita’Ara foi uma importante guia para a ocupação local desde que o povo Pitaguary passou a habitar os sopés das serras ainda na virada do século XVIII para o XIX, migrando do litoral, quando então ainda eram conhecidos por pertencer à grande nação Potiguara. A encantada surgia como uma bola de fogo nos céus, condensando-se em luz na loca de pedra no alto da serra, então descendo na forma de mulher gigante para orientar os anciãos como seria a estação chuvosa daquele ano e, assim, de como deveriam os Pitaguary proceder com as plantações.
O roteiro do filme “Wahu Assu – A Guerra dos Bárbaros” parte de um documentário sobre os saberes de Pajé Barbosa e Benício Pituaguary – grande artista visual, mestre dos grafismos e da pintura corporal com jenipapo – falecidos em 2022. Ao se depararem com imagens de entrevistas e rituais, além de depoimentos sobre Barbosa e Benício, o coletivo da Juventude Indígena Pitaguary (JIPY) também aciona os sonhos de Aimara, uma jovem liderança, que luta contra um câncer. Aimara passa então a visionar o passado remoto, o início do fim do mundo, quando os portugueses chegaram na Barra do Siará e fundaram o Forte de San’Tiago, após massacrar os antepassados Potiguara na Parahyba. Respeitosa às mensagens dos encantados, a cultura Pitaguary recebe o recado e a comunidade da aldeia passa a se questionar sobre a quimera colonizadora, no passado, no presente e no futuro – pois sua cosmologia não separa estes tempos de forma linear e sedimentada, como o faz o senso comum judáico-cristão.
As filmagens de arquivo e os ensinamentos deixados pelo visionário Benício parecem também motivar Aimara a receber imagens oníricas do futuro, onde o Povo Pitaguary voltaria a habitar as matas da serra para proteger-se das investidas dos neocolonos, em uma época em que a extrema-direita cristã tomaria o poder e formaria milícias armadas que caçavam indígenas em seus territórios tradicionais. Para defenderem-se, os Pitaguary então forjariam, em laboratórios escondidos nas matas, armas óticas à partir de areia fundida, como uma espécie de canhão lazer que convergia a luz do sol através de conjuntos de objetivas em formatos de lupas, conseguindo assim afastar os veículos invasores (carros e drones) sem utilizar pólvora, sem fazer som e, portanto, com o máximo de discrição. Também os indígenas de vários grupos se organizariam em redes cibernéticas alternativas, que trocavam informações, tecnologias e combatentes para resistir ao regime neo-fascista dos extremistas brancos. Orientados pelos encantados e conduzidos pelos pajés, o tecno-xamanismo era uma forma de cura contra a comida e a água envenenadas, as balas dos neo-bandeirantes, as frequências cancerígenas lançadas por torres transmissoras, recebendo também brancos e negros dissidentes do regime dominante, que tornam-se, assim, aliados na resistência.
O roteiro de “Wahu Assu – A Guerra dos Bárbaros” é inspirado nos diálogos diretos com pajé Barbosa e Benício pouco antes de suas passagens, visionários estes avançados na tecnologia do desdobramento espiritual e da arte da leitura de realidades paralelas. É um filme híbrido que incorpora a dimensão épica do início da colonização, recuperando em parte o contexto da Guerra dos Bárbaros – maior conflito entre originários da “américa” e europeus colonizadores, ocorrido no Nordeste brasileiro, que forçou inclusive a coroa portuguesa a assinar um armistício com os “Tapuias”, evento único em toda história do continente. Também assume o futurismo ancestral como devir possível da perspectiva indígena, entremeando épico e ficção científica ao documentário social.
Bibliografia
- BRASIL, André. Mirada do invisível: limiares dos cinemas indígenas. Belo Horizonte: UFMG, 2025.
______. & MESQUITA. Claudia. Cinemas da Terra Belo Horizonte: UFMG, 2024.
BANDEIRA, Philipi. Metamorfoses do Cinema Ameríndio: o cinema indígena no Nordeste, nos Pitaguary e Jenipapo-Kanindé. Tese em Comunicação. Recife: PPGCOM/ UFPE, 2026 (no prelo).
DANOWSKI, Deborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir?: Ensaios sobre os medos e os fins. Florianópolis: Desterro, Cultura e Barbárie e Instituto Socioambiental, 2017.
KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2022.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2019.
PITAGUARY, Benício. Grafismo indígena: pinturas corporais como prática de ensino de Geografia na Escola Indígena Itá-Ara, Pacatuba/CE. Monografia em Geografia. Fortaleza: UFC, 2019.