Ficha do Proponente
Proponente
- Matheus Gonçalves Ferreira (Sem instituição)
Minicurrículo
- Matheus Zenom é mestre em Cinema e Audiovisual pelo PPGACL da Universidade Federal de Juiz de Fora (2025) e bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (2019). Edita a Revista Limite, publicação de ensaios e crítica de arte, desde 2020.
Ficha do Trabalho
Título
- O cinematógrafo de Jean Cocteau no contexto da “nova vanguarda”
Resumo
- A produção cinematográfica de Jean Cocteau está intimamente relacionada aos textos críticos em que reflete a propósito das possibilidades de realização e reavaliação da produção cinematográfica no pós-segunda guerra na França. Acompanhando o surgimento de uma nova geração de críticos e cineastas, Cocteau toma para si o conceito de “cinematógrafo” como modo de distinguir um fazer artístico baseado estritamente na invenção daqueles que seriam os compromissos da produção corrente.
Resumo expandido
- Após a realização de Le Sang d’un Poète (O Sangue de um Poeta, 1930), filme devedor do contexto das vanguardas da década de 1920 e produzido graças ao mecenato do conde Charles de Noailles, que no mesmo período garante também a realização de L’Âge d’Or (A idade do Ouro, 1930) de Luis Buñuel, com roteiro de Salvador Dalí, e Les Mystères du château du Dé (Os Mistérios do Castelo de Dados, 1929), de Man Ray, Jean Cocteau mantém um afastamento em relação à produção cinematográfica, retomada apenas no início da década de 1940, com seus roteiros para Le Baron Fantôme (1942) de Serge de Poligny e L’Éternel Retour (Além da Vida, 1943) de Jean Dellanoy. Após dezesseis anos, volta à realização com um primeiro longa-metragem, La Belle et la Bête (A Bela e a Fera, 1946).
O período de dezesseis anos de intervalo entre os dois primeiros filmes de Cocteau tem também uma reaproximação marcada pela sua frequente presença em publicações cinematográficas, em textos que manifestam preocupações com seus próprios filmes, mas, sobretudo, em relação às possibilidades de produção que se encontram disponíveis para os novos cineastas.
Em texto publicado em L’Appel, em 25 de novembro de 1943, Cocteau observa o cenário da produção cinematográfica francesa: “Na atualidade, o cinema não está unicamente nas mãos de especialistas. Os poetas começaram a meter a mão e nunca será o bastante. Além do mais, os diretores jovens querem trabalhar com esses poetas e lhes dar o maior lugar possível” (COCTEAU, 2015, p.25).
Para ele, “especialistas” e “poetas” constituem figuras distintas, a primeira designando o diretor habitual de cinema e a segunda os homens de literatura que passam a se envolver mais ativamente com o cinema a partir deste período – como, então, é ainda o seu caso. Um destes “diretores jovens” seria Robert Bresson, que em 1943 dirige o seu primeiro longa-metragem, Les Anges du péché (Os Anjos do Pecado), em colaboração com Jean Giraudeux, seguindo a fórmula descrita pelo texto de Cocteau.
Em seu filme seguinte, Les Dames du Bois de Boulogne (As Damas do Bois de Boulogne, 1945), Bresson colaborará diretamente com Cocteau, que assina os diálogos da adaptação do romance “Jacques, O Fatalista” de Denis Diderot. Os dois também estarão juntos na organização do cineclube Objectif 49, junto de Roger Leenhardt, e participarão da criação e do júri do Festival do Filme Maldito, realizado na cidade de Biarritz, em 1949, manifestações voltadas a uma produção vanguardista.
No período, a ideia de uma “nova vanguarda” constitui um conceito-chave para uma nova geração da crítica de cinema. Ele está expresso no Prefácio da primeira edição da segunda fase de La Revue du Cinéma (1946-1948), texto editorial assinado por Jean Georges Auriol e Denise Tual, em outubro de 1946. Ao menos três outros textos do mesmo período, escritos por críticos ligados a mesma publicação, abordam diretamente o problema, procurando sucessivamente distinguir os termos da sua existência: “Nascimento de uma nova vanguarda: a câmera stylo” de Alexandre Astruc (L’écran français n° 144, 30 de março de 1948), “A nova vanguarda” de André Bazin (Cahiers du Cinéma, n° 10, março de 1952) e “Da vanguarda” de Jacques Doniol-Valcroze (in. “Sept ans de cinéma français”, 1953). Todos estes, igualmente, participantes ativos do Festival do Filme Maldito, junto de outros cineastas como Roger Leenhardt e Jean Grémillon, pelo fundador e diretor da Cinemateca Francesa Henri Langlois, entre outros.
Dentro deste contexto, buscando separar a sua própria atividade e de alguns outros poucos cineastas à margem da produção corrente, a reivindicação do termo “cinematógrafo”, associado nas décadas seguintes à poética de Bresson, é, a princípio, uma constante nos textos críticos publicados por Cocteau, em oposição a um “cinema” caracterizado pelos compromissos impostos por técnicos e produtores, de cujos velhos hábitos buscam se afastar.
Bibliografia
- ASTRUC, Alexandre. Naissance d’une nouvelle avant-garde : la caméra-stylo. L’écran français n° 144, 30 de março de 1948. Traduzido por Matheus Cartaxo. Disponível em: https://www.focorevistadecinema.com.br/FOCO4/stylo.htm
BAZIN, André. L’Avant-Garde Nouvelle. Cahiers du Cinéma, n° 10, março de 1952.
BRESSON, Robert. Notas sobre o Cinematógrafo. Traduzido por Pedro Mexia. Porto: Porto Editora, 2000.
COCTEAU, Jean. Poética del Cine. Buenos Aires: Cuenco de Plata, 2015.
DONIOL-VALCROZE, Jacques. De l’avant-garde in. “Sept ans de cinéma français”. Paris: Éditions du Cerf, 1953.