Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Frans Weiser (UGA)

Minicurrículo

    Dr. Weiser é professor no Departamento de Literatura Comparada e no Instituto de Estudos Latino-americanos e caribenhos da Universidade da Geórgia nos EUA, onde se especializa em estudos de intermidialidade, adaptação transnacional, estudos urbanos, e ficção/filme policial. Atualmente, está terminando seu segundo livro, o primeiro estudo em inglês sobre o papel fundacional da adaptação de ficção policial para o crescimento da indústria cinematográfica brasileira durante a Retomada.

Ficha do Trabalho

Título

    Cidades de Deus: Não/Ficção, violência urbana e o surgimento da adaptação neoliberal brasileira

Resumo

    Minha proposta apresenta um estudo de caso sobre o livro e filme Cidade de Deus como uma maneira de explorar o papel fundacional da adaptação de ficção policial para o crescimento da indústria cinematográfica brasileira, não somente durante a Retomada senão também para o mercado neoliberal que desenvolveu desde então.

Resumo expandido

    Na sua premiada coleção Towards an Intermedial History of Brazilian Cinema (2022), Lúcia Nagib (2022) afirma que seu projeto é o primeiro a aplicar o paradigma da intermidialidade como um método historiográfico para o cinema. No meu próprio livro, eu reviso a história reconhecida sobre um momento específico: a Retomada. Enquanto esse período é geralmente divido em duas “ondas” (1994-1998, 1998-2002) e que fecha com o sucesso na bilheteria do filme Cidade de Deus, Fernão Ramos mantém que uma terceira onda composta por filmes policiais se estende até 2007, quando a igualmente polêmica produção Tropa de elite apareceu. Embora esses dois sucessos sejam adaptações de livros etnográficos que pretenderam um certo grau de autenticidade, o papel desses dois livros de crime—e vários outros que serviram como inspiração para filmes discutidos durante a revitalização da indústria—no crescimento do neorealismo no novo cinema brasileiro nunca foi analisado através do paradigma da adaptação. Essa disciplina cresceu desde 2000 na Europa e nos Estados Unidos, mas tinha poucas ligações à produção cultural no Brasil até agora. Minha proposta apresenta um estudo de caso sobre o livro e filme Cidade de Deus como uma maneira de explorar o papel fundacional da adaptação de ficção policial para o crescimento da indústria cinematográfica brasileira, não somente durante a Retomada senão também para o mercado neoliberal que desenvolveu desde então.
    Pesquisas recentes mantém que o filme brasileiro Cidade de Deus (2003) é o segundo filme de língua não inglesa mais assistido em todo o mundo. A historiografia cinematográfica da ascensão do narcotráfico no Rio de Janeiro, que foi indicado a quatro Oscars, é considerada um marco na revitalização do cinema brasileiro, embora a abordagem da violência feita pelo diretor Fernando Merielles e influenciada por Hollywood tenha gerado um intenso debate nacional sobre a estereotipação de comunidades de cor marginalizadas, particularmente dentro da própria Cidade de Deus. Um árbitro menos conhecido, mas fundamental, nas discussões subsequentes foi o best-seller parajornalístico de Paulo Lins, Cidade de Deus (1997), produto de dez anos de entrevistas com residentes financiadas por subsídios governamentais.
    Embora tanto o livro quanto o filme tenham sido interpretados como empreendimentos políticos, o status de Lins como autor negro e morador da Cidade de Deus — um “insider” atuando como guia da favela para os leitores de classe média do Brasil — protegeu-o de escrutínio, embora sua participação na controvérsia tenha revelado contradições na crítica orientada por classe. Apesar das tentativas declaradas de Meirelles de trazer maior conscientização sobre as comunidades marginalizadas do Brasil para o grande público, seu status como diretor branco de classe média levou seu trabalho a ser visto isoladamente como uma forma de autorismo. De fato, embora seja de conhecimento comum que o livro de Lins serviu de inspiração para a franquia Cidade de Deus que se desenvolveu nos últimos vinte anos, pouquíssimas pessoas leram o romance, e ainda menos críticos consideraram o livro em suas avaliações. Esta apresentação, portanto, demonstra como a fluência nas estratégias literárias de Lins — que foram alteradas na reescrita ou adaptação de 2002 realizada por Lins em antecipação ao filme — é vital para reavaliar o legado complexo do filme. Ao examinar a participação de Lins na pré-produção e no marketing do filme, juntamente com o financiamento e a recepção conturbados do projeto, utilizo a noção de adaptação material de Simone Murray para desconstruir abordagens ideológicas ao conjunto adaptativo que rotularam as políticas de marketing da violência no cinema brasileiro no século XXI.

Bibliografia

    Donoghue, Courtney Brannon. “Globo Filmes, Sony, and Franchise Film-Making: Transnational Industry in the Brazilian Pós-Retomada.” New Trends in Argentine and Brazilian Cinema. Eds. Cacilda Rêgo and Carolina Rocha. Intellect Publishing, 2011, pp 51-66.
    Marsh, Leslie L. Branding Brazil: Transforming Citizenship on Screen. Rutgers UP, 2021.
    Meikle, Kyle. Adaptations in the Franchise Era: 2001-16. Bloomsbury, 2019.
    Lula da Silva, Luiz Ignácio. “Screening City of God.” City of God in Several Voices: Brazilian Social Cinema as Action. Ed. Else P. Vieira. Critical, Cultural, and Communications Press, 2005, pp. 115-116.
    Nagib, Lúcia, et al., Editors. Towards an Intermedial History of Brazilian Cinema. Edinburgh UP, 2022
    Robb Larkins, Erika. The Spectacular Favela: Violence in Modern Brazil. U. of California P, 2015.
    Zaluar, Alba Maria and Luiz Alberto Pinheiro de Freitas. Cidade de Deus: a história de Ailton Batata, o sobrevivente. FGV Editora, 2017.