Ficha do Proponente
Proponente
- Frans Weiser (UGA)
Minicurrículo
- Dr. Weiser é professor no Departamento de Literatura Comparada e no Instituto de Estudos Latino-americanos e caribenhos da Universidade da Geórgia nos EUA, onde se especializa em estudos de intermidialidade, adaptação transnacional, estudos urbanos, e ficção/filme policial. Atualmente, está terminando seu segundo livro, o primeiro estudo em inglês sobre o papel fundacional da adaptação de ficção policial para o crescimento da indústria cinematográfica brasileira durante a Retomada.
Ficha do Trabalho
Título
- Cidades de Deus: Não/Ficção, violência urbana e o surgimento da adaptação neoliberal brasileira
Resumo
- Minha proposta apresenta um estudo de caso sobre o livro e filme Cidade de Deus como uma maneira de explorar o papel fundacional da adaptação de ficção policial para o crescimento da indústria cinematográfica brasileira, não somente durante a Retomada senão também para o mercado neoliberal que desenvolveu desde então.
Resumo expandido
- Na sua premiada coleção Towards an Intermedial History of Brazilian Cinema (2022), Lúcia Nagib (2022) afirma que seu projeto é o primeiro a aplicar o paradigma da intermidialidade como um método historiográfico para o cinema. No meu próprio livro, eu reviso a história reconhecida sobre um momento específico: a Retomada. Enquanto esse período é geralmente divido em duas “ondas” (1994-1998, 1998-2002) e que fecha com o sucesso na bilheteria do filme Cidade de Deus, Fernão Ramos mantém que uma terceira onda composta por filmes policiais se estende até 2007, quando a igualmente polêmica produção Tropa de elite apareceu. Embora esses dois sucessos sejam adaptações de livros etnográficos que pretenderam um certo grau de autenticidade, o papel desses dois livros de crime—e vários outros que serviram como inspiração para filmes discutidos durante a revitalização da indústria—no crescimento do neorealismo no novo cinema brasileiro nunca foi analisado através do paradigma da adaptação. Essa disciplina cresceu desde 2000 na Europa e nos Estados Unidos, mas tinha poucas ligações à produção cultural no Brasil até agora. Minha proposta apresenta um estudo de caso sobre o livro e filme Cidade de Deus como uma maneira de explorar o papel fundacional da adaptação de ficção policial para o crescimento da indústria cinematográfica brasileira, não somente durante a Retomada senão também para o mercado neoliberal que desenvolveu desde então.
Pesquisas recentes mantém que o filme brasileiro Cidade de Deus (2003) é o segundo filme de língua não inglesa mais assistido em todo o mundo. A historiografia cinematográfica da ascensão do narcotráfico no Rio de Janeiro, que foi indicado a quatro Oscars, é considerada um marco na revitalização do cinema brasileiro, embora a abordagem da violência feita pelo diretor Fernando Merielles e influenciada por Hollywood tenha gerado um intenso debate nacional sobre a estereotipação de comunidades de cor marginalizadas, particularmente dentro da própria Cidade de Deus. Um árbitro menos conhecido, mas fundamental, nas discussões subsequentes foi o best-seller parajornalístico de Paulo Lins, Cidade de Deus (1997), produto de dez anos de entrevistas com residentes financiadas por subsídios governamentais.
Embora tanto o livro quanto o filme tenham sido interpretados como empreendimentos políticos, o status de Lins como autor negro e morador da Cidade de Deus — um “insider” atuando como guia da favela para os leitores de classe média do Brasil — protegeu-o de escrutínio, embora sua participação na controvérsia tenha revelado contradições na crítica orientada por classe. Apesar das tentativas declaradas de Meirelles de trazer maior conscientização sobre as comunidades marginalizadas do Brasil para o grande público, seu status como diretor branco de classe média levou seu trabalho a ser visto isoladamente como uma forma de autorismo. De fato, embora seja de conhecimento comum que o livro de Lins serviu de inspiração para a franquia Cidade de Deus que se desenvolveu nos últimos vinte anos, pouquíssimas pessoas leram o romance, e ainda menos críticos consideraram o livro em suas avaliações. Esta apresentação, portanto, demonstra como a fluência nas estratégias literárias de Lins — que foram alteradas na reescrita ou adaptação de 2002 realizada por Lins em antecipação ao filme — é vital para reavaliar o legado complexo do filme. Ao examinar a participação de Lins na pré-produção e no marketing do filme, juntamente com o financiamento e a recepção conturbados do projeto, utilizo a noção de adaptação material de Simone Murray para desconstruir abordagens ideológicas ao conjunto adaptativo que rotularam as políticas de marketing da violência no cinema brasileiro no século XXI.
Bibliografia
- Donoghue, Courtney Brannon. “Globo Filmes, Sony, and Franchise Film-Making: Transnational Industry in the Brazilian Pós-Retomada.” New Trends in Argentine and Brazilian Cinema. Eds. Cacilda Rêgo and Carolina Rocha. Intellect Publishing, 2011, pp 51-66.
Marsh, Leslie L. Branding Brazil: Transforming Citizenship on Screen. Rutgers UP, 2021.
Meikle, Kyle. Adaptations in the Franchise Era: 2001-16. Bloomsbury, 2019.
Lula da Silva, Luiz Ignácio. “Screening City of God.” City of God in Several Voices: Brazilian Social Cinema as Action. Ed. Else P. Vieira. Critical, Cultural, and Communications Press, 2005, pp. 115-116.
Nagib, Lúcia, et al., Editors. Towards an Intermedial History of Brazilian Cinema. Edinburgh UP, 2022
Robb Larkins, Erika. The Spectacular Favela: Violence in Modern Brazil. U. of California P, 2015.
Zaluar, Alba Maria and Luiz Alberto Pinheiro de Freitas. Cidade de Deus: a história de Ailton Batata, o sobrevivente. FGV Editora, 2017.