Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Victória Ester Tavares da Costa (UFPA)

Minicurrículo

    Doutora (PPGSA) e mestra (PPGA) em Antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Especialização em Amazônia, História, Espaço e Cultura pela FIBRA e em Cidades em Disputa – Pesquisa, história e processos sociais pela Escola da Cidade. Bacharel em Comunicação Social- Publicidade e Propaganda, pela Universidade da Amazônia (UNAMA) e em Cinema e Audiovisual pela UFPA. Vinculada ao Grupo Naverrâncias (PPGSA/UFPA) e ao Banco de Imagens e Efeitos Visuais (BIEV/UFRGS).

Ficha do Trabalho

Título

    Por um audiovisual amazônico-afro-caboclo: observações estéticas e contextuais

Seminário

    Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos

Resumo

    O texto apresenta as primeiras reflexões sobre o que proponho chamar de audiovisual amazônico-afro-caboclo. O reconhecimento racial na Amazônia possui implicações históricas decorrentes da exploração europeia de povos indígenas e negros desterritorializados. A partir desse contexto, examino obras e artistas cujas estéticas audiovisuais evidenciam uma relação singular com o território pan-amazônico e seus imaginários.

Resumo expandido

    Superar a percepção simplificada de que o Brasil é um país harmônico em sua miscigenação implica enfrentar construções ideológicas profundamente enraizadas, como o “mito da democracia racial”, consolidado pela obra de Gilberto Freyre. Tal narrativa, ao celebrar a mestiçagem como fundamento da identidade nacional, operou historicamente como mecanismo de apagamento das violências estruturais sofridas por populações negras e indígenas. No contexto amazônico, esse apagamento assume contornos particulares: conforme aponta a professora e militante do movimento negro Zélia Amador de Deus, “durante muito tempo se acreditou que, devido à grande miscigenação com o índio, praticamente não existissem negros na Amazônia” (2020, p. 30).
    Se já é difícil mapear com precisão a presença e a história da negritude no Brasil, na região Amazônica os dados tornam-se ainda mais lacunares. A escassa historiografia sobre o processo de escravização de negros na região contribuiu para que negros e indígenas fossem mantidos sob a mesma condição de mão de obra explorada, tendo suas especificidades culturais e identitárias diminuídas e/ou silenciadas. A terminologia “caboclo”, forjada nesse contexto, sintetiza esse mecanismo de invisibilização: sem atributos positivos das categorias que a constituíram, tal identidade figura como o reverso da identidade nacional, como dito por Rodrigues:

    “aquele que não conseguiu se integrar à sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que procurou apagar os traços dessa (não)identidade. Daí sua propalada invisibilidade, sua falta de memória, sua história silenciada e sua ausência nas instâncias políticas e sociais mais amplas” (RODRIGUES, 2006b, p. 123-124).

    É a partir desse campo de silenciamentos e resistências que este trabalho propõe um primeiro esboço de mapeamento de artistas visuais que trabalham com vídeo na pan-Amazônia, investigando semelhanças estéticas decorrentes de sua relação com o território e com as experiências amazônicas. Embora pouco mais de 60% do bioma esteja em território brasileiro, a abordagem aqui adotada estende-se aos demais países que compartilham a região (Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa), cujos contextos geográficos e sociopolíticos convergem com as produções artísticas brasileiras.
    A vasta extensão de cerca de 7 milhões de km² abriga, simultaneamente, diferenças e ressonâncias. Nesse sentido, torna-se relevante examinar os mecanismos de circulação dessas obras e os filtros que determinam sua visibilidade para além das fronteiras nacionais. A Bienal das Amazônias, cuja primeira edição ocorreu em 2023, constitui um exemplo significativo de iniciativa curatorial voltada à valorização e à difusão dessas produções.
    Para refletir sobre o que une e o que diferencia essas estéticas, o trabalho mobiliza os conceitos de imaginário e de simbolismo de Gastón Bachelard e Gilbert Durand, articulados à etnografia da duração proposta por Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert. Tais ferramentas teóricas permitem compreender como imaginários amazônicos são perpetuados e (re)inventados na produção audiovisual contemporânea da região. Busca-se, assim, investigar de que modo esses artistas se reconhecem (tanto em seu fazer artístico quanto em seu cotidiano) enquanto sujeitos e cidadãos de um território que, apesar de sua centralidade geopolítica e simbólica, permanece historicamente nas fronteiras dos circuitos institucionais da arte e da memória.

Bibliografia

    BHABHA, H. O local da cultura. Tradução de M. Ávila, E. L. L. Reis e G. R. Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
    CARDOSO DE OLIVEIRA, R.; BAINES, S. G. (orgs.) Nacionalidade e etnicidade em fronteiras. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2005.
    COSTA, V. M. T. ‘À sombra da floresta’: os sujeitos amazônicos entre estereótipo, invisibilidade e colonialidade no telejornalismo da Rede Globo. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2011.
    DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
    DEUS, Z. A. Caminhos trilhados na luta antirracista. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
    OLIVEIRA, R. C. Éguas & Caboclos: as representações de uma paraensidade a partir de anúncios publicitários e vídeos compartilhados em mídias sociais. Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2020.
    RODRIGUES, C. I.. Caboclos na Amazônia: a identidade na diferença, Novos Cadernos NAEA, Belém, vol. 9(1): 119-130, jun, 2006.