Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    LUÍS FELIPE DUARTE FLORES (UFMG)

Minicurrículo

    Doutor em Comunicação Social no PPGCOM-UFMG, com tese sobre Harun Farocki. Mestre em Cinema na EBA-UFMG, com dissertação sobre Max Ophuls. Ensaísta, crítico e pesquisador de cinema, colaborou para diversas revistas e catálogos de mostras. Co-organizou as retrospectivas de Rithy Panh e Trinh T. Minh-ha no Brasil. Curador do CineCipó. Foi curador da Lona (2020), do Festcurtas BH (2015, 2016 e 2017) e do forumdoc.bh (2015). Atua também como professor e tradutor.

Ficha do Trabalho

Título

    Os mil olhos da cidade: Imagens do espaço urbano em Michael Klier, Harun Farocki e Thom Andersen

Seminário

    Estudos Comparados de Cinema

Resumo

    Este trabalho analisa a figuração do espaço urbano em um conjunto de filmes experimentais produzidos entre 1983 e 2010 por Michael Klier, Harun Farocki e Thom Andersen. Pela via comparativa, destacamos as formas de apreender e enfrentar os fluxos do capitalismo tardio por meio do cinema. Em Der Riese, Contra-música, Los Angeles por ela mesma e Saia do carro, cada um ao seu modo, a montagem propicia leituras críticas da cidade contemporânea, articulando formas de ressignificação e resistência.

Resumo expandido

    Este trabalho traz uma análise comparativa entre diferentes formas de figuração da cidade no cinema, com ênfase nas maneiras encontradas pelos cineastas para apreender e enfrentar os fluxos e as mutações do capitalismo tardio (Crary, 2014). Se, nas sinfonias urbanas clássicas de Viértov, Ruttman e outros, na década de 1920, a cidade era apreendida como espaço de circulação de corpos, gestos e desejos, obras mais recentes passam a lidar com outros regimes de articulação material e simbólica, que deslocam o ponto de vista humano e desafiam as tentativas de síntese (Flores, Guimarães, 2020). Propomos investigar os filmes experimentais O gigante (Der Riese, Michael Klier, 1983), Contra-música (Gegen-Musik, Harun Farocki, 2004), Los Angeles por ela mesma (Los Angeles plays itself, Thom Andersen, 2004) e Saia do carro (Get out of the car, Thom Andersen, 2010), observando como eles elaboram, cada um a seu modo, maneiras específicas de conferir legibilidade crítica ao espaço urbano.

    Em O gigante, de Klier, a utilização de imagens de câmeras de vigilância produz uma colagem de difícil categorização, marcada por pontos de vista distanciados, durações prolongadas e dinâmicas repetitivas. A montagem, ao articular essas imagens com trilhas musicais dramáticas, instaura um desvio em relação à lógica puramente indicial da vigilância, introduzindo uma flutuação narrativa paradoxal entre a temporalidade das máquinas e a expectativa de ação própria do cinema.

    Já em Contra-música, Farocki problematiza a proliferação das chamadas imagens operativas, produzidas por sistemas automatizados de controle e monitoramento (Flores, 2021; Flores, Guimarães, 2020). Nesse contexto, as câmeras deixam de simplesmente representar o mundo, para participar diretamente de sua regulação, constituindo um campo de visibilidade no qual o olhar humano é progressivamente suplantado. Tais imagens, esvaziadas de sentido simbólico e reduzidas a esquemas técnicos ou operativos, exigem um gesto de montagem capaz de restituir-lhes uma dimensão crítica de legibilidade.

    Por sua vez, os filmes de Andersen operam uma leitura reflexiva da cidade por meio de signos visuais e arquivos cinematográficos (Cutler, Shellard, 2016). Em Los Angeles por ela mesma e Saia do carro, a montagem associa imagens heterogêneas para revelar as camadas históricas, ideológicas e imaginárias que estruturam a experiência urbana, convocando o olhar do espectador para uma posição crítica em relação às formas de representação dominantes do cinema.

    A partir do cotejo desses trabalhos, queremos compreender as formas que o cinema experimental encontrou, ao longo da história, para enfrentar o espaço urbano, em especial no que diz respeito às distribuições arquitetônicas e cibernéticas que se associam ao capitalismo tardio. Cabe observar, nesse sentido, que o período de abrangência dos objetos escolhidos vai de 1983, alguns anos antes da dissolução da URSS, a 2010, momento em que o neoliberalismo se encontra muito mais avançado no seu projeto de colonizar o mundo em sua totalidade.

    Os filmes de Klier, Farocki e Andersen, com seus diferentes regimes de imagem, propiciam reflexões importantes sobre as relações entre ver, ser visto e produzir sentido no espaço urbano da atualidade. A comparação evidencia, assim, não apenas os modos distintos de figurar a cidade no presente, mas também as formas de resistência e de reapropriação do cinema no universo das imagens, em um contexto marcado pelo acúmulo dos signos icônicos e pela expansão das tecnologias de visão.

Bibliografia

    CRARY, Jonathan. 24/7: Capitalismo tardio e os fins do sono. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
    CUTLER, Aaron; SHELLARD, Mariana. Hollywood e Além: O cinema investigativo de Thom Andersen (Catálogo de mostra). Centro Cultural São Paulo: São Paulo, 2016.
    FLORES, Luís F. D. O cinema como contra-Verbund: Harun Farocki e o trabalho com as imagens do mundo. (Tese de Doutorado). Belo Horizonte: PPGCOM/UFMG, 2021.
    FLORES, Luís; GUIMARÃES, César. “Uma sinfonia silenciosa: A cidade contemporânea segundo Harun Farocki”. In: Rebeca, vol. 9, n. 1, Jan-Jun 2020, p. 18-37.
    MENNEL, Barbara. Cities and Cinema. Routledge, New York, 2008.
    PANTENBURG, Volker. Einfachheit ohne Vereinfachung. Zur Praxis Harun Farockis. Zürich: Diaphanes, 2024.