Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    LUISA OSORIO RIZZATTI (UFRGS)

Minicurrículo

    Doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a tese “De Kafka ao kafkiano: ruptura narrativa na literatura e no cinema contemporâneo”. Pela mesma instituição, é mestra em Teoria Literária e graduada em Jornalismo. É autora do prefácio de A Metamorfose, na edição lançada em março de 2024 pela editora Vitrola. Além de realizar pesquisas sobre Kafka, estuda temáticas relacionadas ao cinema e à literatura e atua nas áreas editorial e audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Rupturas narrativas na literatura e no cinema a partir de Franz Kafka

Resumo

    O trabalho propõe um diálogo entre literatura e cinema a partir da obra de Franz Kafka, investigando como a noção de ruptura narrativa, presente em sua escrita, pode iluminar as reflexões críticas e analíticas no audiovisual. A partir de categorias kafkianas e da análise dos filmes Memória (2021) e Beau tem medo (2023), examina-se como repetição e ruptura operam por meio de recursos formais, articulando o “kafkiano” às crises contemporâneas e à reinvenção de mundos possíveis.

Resumo expandido

    O presente trabalho é uma breve síntese da minha tese de doutorado, que propõe um diálogo entre literatura e cinema a partir da obra de Franz Kafka. Um dos grandes objetivos foi investigar como a noção de ruptura narrativa, previamente identificada em sua escrita, pode iluminar a análise do audiovisual. Partindo dos resultados obtidos na minha dissertação de mestrado (RIZZATTI, 2021), que demonstrou como gestos e sons operam como elementos capazes de romper a aparente circularidade e repetição dos textos de Kafka, a pesquisa buscou aprofundar e sistematizar essa noção de ruptura narrativa kafkiana.

    Em um primeiro momento, o trabalho dedicou-se a consolidar categorias de análise e reflexão acerca de ruptura narrativa em Kafka, articulando discussões teóricas a partir de Walter Benjamin e da fortuna crítica do escritor tcheco. A segunda etapa buscou expandir tais conceitos e reflexões kafkianas para o cinema, partindo do sagaz pensamento desenvolvido por Jorge Luis Borges em Kafka e seus precursores. Examinando algumas obras que antecederam Kafka, o autor argentino observou que mesmo se tratando de textos diferentes entre si e sendo de épocas e lugares distintos, todos tinham em comum o fato de que se pareciam com Kafka. Em quatro páginas, Borges consegue brilhantemente nos provar que um bom escritor, tal como Kafka, é capaz não só de modificar a concepção literária do passado, como também seguirá modificando a do futuro. Podemos ir mais longe e pensar que esse legado não se restringe às letras. Se Kafka trouxe contribuições importantes sobre criação narrativa para a literatura, a nossa hipótese é de que o cinema, sendo outra mídia que trabalha essencialmente com narrativa, também poderá ser beneficiado pela leitura kafkiana.
    Com isso, o segundo grande objetivo da tese foi investigar e compreender como o audiovisual com características kafkianas trabalha narrativamente com repetição e ruptura, tendo como corpus dois filmes: Memória (2021) e Beau tem medo (2023). Assim, também conseguimos entender a próxima questão fundamental: por que, em que e como esses filmes são narrativamente kafkianos? Ademais, os estudos sobre narrativa em Kafka vão iluminar algumas questões, mas é fundamental que também busquemos respostas nos estudos sobre cinema, isto é: como a linguagem cinematográfica faz essas rupturas? Quais recursos próprios o audiovisual utiliza para tal?

    Entre os principais recursos observados, destacam-se a centralidade do espaço como elemento estruturante da narrativa (substituindo a progressão temporal clássica), o uso de montagens abruptas e cortes secos que deslocam o espectador entre diferentes realidades e o foco no olhar do personagem em consonância com o jogo de câmera e enquadramento. Soma-se a isso o trabalho com sons dissonantes, ruídos acusmáticos e silêncios prolongados, que instauram tensão e funcionam como gatilhos narrativos, além da exploração de enquadramentos que ocultam ou descentralizam a ação, gerando ambiguidade e o chamado “elemento turvo”. A tese também evidencia o uso de dispositivos metalinguísticos que conspiram para produzir estranhamento, traço fundamental da experiência kafkiana.

    Nesse sentido, pensar Kafka à luz da temática “Fins do mundo, mundos sem fim” implica reconhecer que sua obra já encena uma experiência de colapso contínuo: não um fim espetacular e definitivo, mas uma dissolução persistente das estruturas que organizam o sentido, a causalidade e a estabilidade do mundo. Ao observar como o cinema contemporâneo mobiliza estratégias de repetição, ruptura e deslocamento, é possível compreender que o “kafkiano” não apenas traduz a sensação atual de desorientação diante das crises do presente, mas também oferece formas narrativas que tensionam a imaginação apocalíptica. Em vez de reiterar o fim como conclusão, essas obras operam fissuras que permitem entrever outras configurações possíveis do mundo, fazendo da ruptura não apenas um sintoma de esgotamento, mas um gesto de reinvenção.

Bibliografia

    BENJAMIN, Walter. Franz Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Organização e tradução Sérgio Paulo Rouanet – São Paulo: Brasiliense, 2012a – (Obras escolhidas v. 1), p. 147-178.

    BORGES, Jorge Luis. Kafka e seus precursores. In: BORGE, Jorge Luis. Outras inquisições. Tradução: Davi Arrigucci Junior. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 127-130.

    RIZZATTI, Luísa Osório. Mito, repetição e ruptura na obra de Franz Kafka: uma reflexão sobre os gestos e os sons, 2021. 170f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Literatura). Orientação: Claudia Luiza Caimi. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021.

    VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Tradução de Marina Appenzeller – Campinas, SP: Papirus, 2008.

    ZISCHLER, Hanns. Kafka vai ao cinema. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.