Ficha do Proponente
Proponente
- LUISA OSORIO RIZZATTI (UFRGS)
Minicurrículo
- Doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a tese “De Kafka ao kafkiano: ruptura narrativa na literatura e no cinema contemporâneo”. Pela mesma instituição, é mestra em Teoria Literária e graduada em Jornalismo. É autora do prefácio de A Metamorfose, na edição lançada em março de 2024 pela editora Vitrola. Além de realizar pesquisas sobre Kafka, estuda temáticas relacionadas ao cinema e à literatura e atua nas áreas editorial e audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- Rupturas narrativas na literatura e no cinema a partir de Franz Kafka
Resumo
- O trabalho propõe um diálogo entre literatura e cinema a partir da obra de Franz Kafka, investigando como a noção de ruptura narrativa, presente em sua escrita, pode iluminar as reflexões críticas e analíticas no audiovisual. A partir de categorias kafkianas e da análise dos filmes Memória (2021) e Beau tem medo (2023), examina-se como repetição e ruptura operam por meio de recursos formais, articulando o “kafkiano” às crises contemporâneas e à reinvenção de mundos possíveis.
Resumo expandido
- O presente trabalho é uma breve síntese da minha tese de doutorado, que propõe um diálogo entre literatura e cinema a partir da obra de Franz Kafka. Um dos grandes objetivos foi investigar como a noção de ruptura narrativa, previamente identificada em sua escrita, pode iluminar a análise do audiovisual. Partindo dos resultados obtidos na minha dissertação de mestrado (RIZZATTI, 2021), que demonstrou como gestos e sons operam como elementos capazes de romper a aparente circularidade e repetição dos textos de Kafka, a pesquisa buscou aprofundar e sistematizar essa noção de ruptura narrativa kafkiana.
Em um primeiro momento, o trabalho dedicou-se a consolidar categorias de análise e reflexão acerca de ruptura narrativa em Kafka, articulando discussões teóricas a partir de Walter Benjamin e da fortuna crítica do escritor tcheco. A segunda etapa buscou expandir tais conceitos e reflexões kafkianas para o cinema, partindo do sagaz pensamento desenvolvido por Jorge Luis Borges em Kafka e seus precursores. Examinando algumas obras que antecederam Kafka, o autor argentino observou que mesmo se tratando de textos diferentes entre si e sendo de épocas e lugares distintos, todos tinham em comum o fato de que se pareciam com Kafka. Em quatro páginas, Borges consegue brilhantemente nos provar que um bom escritor, tal como Kafka, é capaz não só de modificar a concepção literária do passado, como também seguirá modificando a do futuro. Podemos ir mais longe e pensar que esse legado não se restringe às letras. Se Kafka trouxe contribuições importantes sobre criação narrativa para a literatura, a nossa hipótese é de que o cinema, sendo outra mídia que trabalha essencialmente com narrativa, também poderá ser beneficiado pela leitura kafkiana.
Com isso, o segundo grande objetivo da tese foi investigar e compreender como o audiovisual com características kafkianas trabalha narrativamente com repetição e ruptura, tendo como corpus dois filmes: Memória (2021) e Beau tem medo (2023). Assim, também conseguimos entender a próxima questão fundamental: por que, em que e como esses filmes são narrativamente kafkianos? Ademais, os estudos sobre narrativa em Kafka vão iluminar algumas questões, mas é fundamental que também busquemos respostas nos estudos sobre cinema, isto é: como a linguagem cinematográfica faz essas rupturas? Quais recursos próprios o audiovisual utiliza para tal?
Entre os principais recursos observados, destacam-se a centralidade do espaço como elemento estruturante da narrativa (substituindo a progressão temporal clássica), o uso de montagens abruptas e cortes secos que deslocam o espectador entre diferentes realidades e o foco no olhar do personagem em consonância com o jogo de câmera e enquadramento. Soma-se a isso o trabalho com sons dissonantes, ruídos acusmáticos e silêncios prolongados, que instauram tensão e funcionam como gatilhos narrativos, além da exploração de enquadramentos que ocultam ou descentralizam a ação, gerando ambiguidade e o chamado “elemento turvo”. A tese também evidencia o uso de dispositivos metalinguísticos que conspiram para produzir estranhamento, traço fundamental da experiência kafkiana.
Nesse sentido, pensar Kafka à luz da temática “Fins do mundo, mundos sem fim” implica reconhecer que sua obra já encena uma experiência de colapso contínuo: não um fim espetacular e definitivo, mas uma dissolução persistente das estruturas que organizam o sentido, a causalidade e a estabilidade do mundo. Ao observar como o cinema contemporâneo mobiliza estratégias de repetição, ruptura e deslocamento, é possível compreender que o “kafkiano” não apenas traduz a sensação atual de desorientação diante das crises do presente, mas também oferece formas narrativas que tensionam a imaginação apocalíptica. Em vez de reiterar o fim como conclusão, essas obras operam fissuras que permitem entrever outras configurações possíveis do mundo, fazendo da ruptura não apenas um sintoma de esgotamento, mas um gesto de reinvenção.
Bibliografia
- BENJAMIN, Walter. Franz Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Organização e tradução Sérgio Paulo Rouanet – São Paulo: Brasiliense, 2012a – (Obras escolhidas v. 1), p. 147-178.
BORGES, Jorge Luis. Kafka e seus precursores. In: BORGE, Jorge Luis. Outras inquisições. Tradução: Davi Arrigucci Junior. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 127-130.
RIZZATTI, Luísa Osório. Mito, repetição e ruptura na obra de Franz Kafka: uma reflexão sobre os gestos e os sons, 2021. 170f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Literatura). Orientação: Claudia Luiza Caimi. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021.
VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Tradução de Marina Appenzeller – Campinas, SP: Papirus, 2008.
ZISCHLER, Hanns. Kafka vai ao cinema. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.