Ficha do Proponente
Proponente
- Kamilla Medeiros do Nascimento (UFRJ)
Minicurrículo
- Doutoranda e mestre pela ECO PÓS – UFRJ, defendeu a dissertação “O Fim e o Princípio: o reencontro de Eduardo Coutinho com o Nordeste”. Organiza livros e publica artigos sobre o cinema brasileiro, atua como cineclubista, curadora de mostras e festivais e produtora cultural. Eleita para Conselho Deliberativo da SOCINE (gestões 2021/2023 e 2023/2025).
Ficha do Trabalho
Título
- “O homem do caderninho”: Eduardo Coutinho escritor
Resumo
- Esta comunicação trata-se de um relato geral de experiência das visitas ao acervo de Eduardo Coutinho, sob a guarda do Instituto Moreira Salles – IMS. Em 2025, pude ter uma noção panorâmica e privilegiada do que há no acervo. Entre os arquivos, cerca de 50 itens são brochuras, folhas soltas e, em especial e nosso foco, os caderninhos. Será uma pequena viagem ao mundo da palavra escrita coutiniana, companheira de processo criativo da palavra falada e filmada que tanto lhe renderam histórias.
Resumo expandido
- Esta comunicação trata-se de um relato geral de experiência das visitas ao acervo de Eduardo Coutinho, sob a guarda do Instituto Moreira Salles – IMS, desde 2019, no Rio de Janeiro. Anos depois, durante alguns meses de 2025, pude ter uma noção panorâmica e privilegiada do que há no acervo, entre fotografias, documentos de cunho pessoal e profissional, anotações das mais variadas épocas, dentre as quais destacam-se os ditos “apontamentos”, termo pelo qual o IMS designa estes arquivos escritos. São cerca de 50 itens na lista, entre brochuras, folhas soltas e muitos, muitos cadernos espirais do material mais simples possível. Eis um trecho da descrição oficial do acervo: “São cadernos com anotações, decupagens de filmes, roteiros de projetos que nunca saíram do papel, objetos”.
Aqui entramos no foco deste trabalho: os caderninhos, os famosos caderninhos que Coutinho empunhava desde os seus verdes anos como recém chegado ao Brasil, pós IDHEC, até o fim de sua trajetória florescente nesta vida. Digo famosos não à toa, aliás, para tanto, faz-se necessária referência à sua aparição profética proposta pela intuição delirante de Glauber Rocha em “Câncer” (1968), segundo com Fernão Pessoa Ramos (2020). No filme, o personagem de Coutinho é acusado de panfletar das coisas subversivas e comunistas ao regime da época e ao ser interrogado, se auto define em primeira pessoa: “Eu sou teórico e tenho um caderninho, só isso que eu tenho”. Uma ironia interessante se pegarmos entrevistas onde o nosso “homem do caderninho” deixa claro sua aflição ao escrever, mesmo que inicialmente tenha trabalhado por anos como redator, roteirista e crítico de cinema. Ele diria numa carta a Paulo Antônio Paranaguá: “Colocado diante do compromisso de escrever quatro a cinco laudas sobre a questão do olhar no documentário cinematográfico e na televisão, sinto-me angustiado além da medida” (Mattos, 2019).
O teórico que tinha o seu caderninho debaixo do braço, passa boa parte de sua vida e obra a se interessar pela palavra falada no ato, ao gestual, ao carisma encarnado e também encenado, a ter uma “fé na lucidez”, como diria Cláudia Mesquita (1999) ou na “arte do presente” como observa Consuelo Lins (2002). Recentemente, voltei aos arquivos do IMS para conferir o material que antes estava em trânsito entre Rio, São Paulo e Minas Gerais para a exposição “Ocupação Eduardo Coutinho”. Não foi surpresa que das três caixas viajantes, uma delas estivesse cheia dos caderninhos. Coutinho, mesmo se quisesse, não teria conseguido viver sem a escrita a tiracolo. É possível notar ao folheá-los e, ao mesmo tempo, decifrá-los – uma vez que sua letra é um desafio à parte para qualquer pesquisador – o enigma que se apresenta para os iniciantes na arte dos caderninhos. Em suma, será um vislumbre do que podemos encontrar nos seus arquivos, uma pequena viagem ao mundo espiralar da palavra escrita coutiniana, companheira de processo criativo da palavra falada e filmada que tanto lhe renderam histórias.
Bibliografia
- Lins, C. Eduardo Coutinho: Uma Arte Do Presente. In: Anais Do 11° Encontro Anual Da Compós, 2002, Rio De Janeiro. Campinas: Galoá, 2002.
Mattos, C. A. Sete faces de Eduardo Coutinho. São Paulo: Boitempo: Itaú Cultural : Instituto Moreira Salles, 2019.
Medeiros, K. O fim e o princípio: o reencontro de Eduardo Coutinho com o Nordeste. 2023. 187 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola da Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Rio de Janeiro, 2023.
Mesquita, C. Fé na Lucidez. Sinopse (São Paulo), 1(3), 20-29, 1999.
Ramos, F. P. (2020). Glauber e o cinema escrito de Eduardo Coutinho. GALÁXIA. Revista Interdisciplinar De Comunicação E Cultura, (45).