Ficha do Proponente
Proponente
- Leon Orlanno Lôbo Sampaio (UFMS)
Minicurrículo
- Leon Sampaio é professor do curso de Audiovisual da UFMS. Doutor em Comunicação pela UFPE, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA e graduado em Cinema e Audiovisual pela UFRB, sua pesquisa teve como foco as relações de colonialidade no cinema brasileiro contemporâneo, sobretudo, as figurações da branquitude. Além de professor, trabalha também como curador e realizador audiovisual. Dirigiu os longas-metragens “Eu, empresa” e “Gente Bonita”.
Ficha do Trabalho
Título
- BORDAS DO MUNDO: perspectivas humanas e não humanas no cinema de Eduardo Williams
Resumo
- A comunicação debruça-se sobre os filmes O auge do humano e O auge do humano 3, do cineasta argentino Eduardo Williams, com o objetivo de analisar as fronteiras do humano e do não humano nas obras. Para dar conta da complexa visualidade nos longas, repleta de paisagens multiformes e perspectivas raras, mobilizo o conceito de borda, operando tanto em uma dimensão estética quanto ontológica.
Resumo expandido
- A presente proposta de comunicação debruça-se sobre os filmes O auge do humano e O auge do humano 3, do cineasta argentino Eduardo Williams, para investigar como sua cinematografia articula fronteiras humanas e não humanas, desde figuras e espacialidades até perspectivas outras. Inseridas no contexto do Sul Global, as personagens das obras percorrem paisagens multiformes (algumas devastadas por fenômenos climáticos) e são atravessadas pela lógica do capitalismo tardio. Para dar conta dessa complexa visualidade, a análise articula o conceito de realismo capitalista (Fisher, 2020) na compreensão da precarização material e tecnológica; a noção de Capitaloceno (Haraway, 2023) para repensar o estatuto das ecologias e do não humano; e, como eixo analítico central, o conceito de borda, operando tanto em uma dimensão estética quanto ontológica.
No cinema de Williams, o real se perfaz, sobretudo, pelas bordas. Essa dinâmica manifesta-se desde a escolha de filmar personagens das periferias urbanas — jovens trabalhadores precarizados submetidos a uma temporalidade de sobrevivência — até a própria gramática visual da obra. Em seu primeiro longa, observa-se uma relação de dependência com aparelhos tecnológicos, alguns dos personagens vendem performances sexuais pela internet em troca de dólares. Essa ambiência é capturada com precisão pela ideia de realismo capitalista de Fisher, um horizonte onde as relações estão financeirizadas e mediadas pela tela. Contudo, é a falha tecnológica que ganha relevo. Quando a internet cai ou o aparelho quebra, a deambulação forçada abre espaço para o lúdico e o brincante. Em cenas como o banho de rio, na terceira parte do longa, nota-se que as bordas do sistema — os momentos de desconexão — permitem o surgimento de relações mais substanciais, fora da captura estrita do capital.
No que tange à dimensão estética, a ideia de borda pode ser constatada através da descentralização radical da imagem. A câmera de Williams recusa o enquadramento antropocêntrico clássico; as personagens percorrem as espacialidades muitas vezes pelas extremidades do quadro, entrando e saindo de campo numa composição rara que não busca emular o “bom gosto” do cinema realista tradicional. Isso é observado, principalmente, no Auge do humano 3, em que o cineasta se permite mais à experimentação, angulando a câmera de uma maneira incomum. Há uma passagem fluida de espacialidades cognoscíveis, como praças e supermercados, para geografias estranhas, labirínticas e devastadas. O aparelho cinematográfico atua como um observador distraído, caminhando em ritmo próprio e permitindo que a vida transborde para fora das molduras convencionais.
Essa fuga do olhar estritamente humano encontra ancoragem crítica na ideia de Capitaloceno de Haraway, que exige repensar as teias de interdependência multiespécie. Williams promove essa reflexão por meio da diluição das hierarquias do visível, inserindo o não humano (bichos, folhas, matéria orgânica diversa) no mesmo patamar de importância do humano. No primeiro longa, a emblemática sequência em que a câmera se move da urina do personagem moçambicano para as profundezas da terra materializa essa transição: assume-se uma perspectiva microscópica, incidindo ainda em formigas no subterrâneo, que, segundo Urrutia e Guzman (2022), podem alegorizar os trabalhadores precarizados do filme.
É nítido também como o cinema de Eduardo Williams institui perspectivas raras, em que a câmera frequentemente assimila corporalidades outras (mimetiza movimentos de animais em alguns dos seus curtas). Ao explorar e habitar as bordas do mundo, o diretor tensiona nosso repertório perceptual. Suas imagens fissuram a totalidade do capitalismo e do Antropoceno, propondo uma ecologia visual onde o humano é apenas mais uma das texturas a compor a paisagem do mundo.
Bibliografia
- FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. São Paulo: n-1 edições, 2023.
URRUTIA, C. e GUZMÁN, C. (2022). Juventudes urbanas: ciudad, cuerpo, virtualidad en el cine latinoamericano (Chile, Argentina y México). Fotocinema. Revista Científica De Cine Y Fotografía, 24, 85-105.