Ficha do Proponente
Proponente
- Aline Bittencourt Portugal (sem vínculo)
Minicurrículo
- Aline Portugal é doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (CNPq) com estágio doutoral na New York University (Fulbright). Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense (Capes). Seus estudos se concentram no cinema brasileiro contemporâneo, nas intercessões entre cinema, estética e política. Atua também como roteirista e realizadora audiovisual há 15 anos, e é integrante da Mirada Filmes (www.miradafilmes.com.br).
Ficha do Trabalho
Título
- Modos de tramar contra a trama em Mato seco em chamas
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- O artigo analisa Mato seco em chamas a partir da noção de “tramar contra a trama”, que parte de uma formulação de Fred Moten mas vai além, investigando como o filme desvia códigos ficcionais, documentais e de gênero para tensionar petróleo, território, encarceramento, especulação e insurgência. Ao articular processo de realização, estética e política, o texto propõe pensar o filme como uma poética impura, marcada por fuga, combustão, contradição e formas de co-ficcionar.
Resumo expandido
- Esta comunicação propõe pensar Mato seco em chamas a partir da noção de “tramar contra a trama”, formulada por Fred Moten: uma subtrama contrapontística, subterrânea, fugitiva, que se faz por roubo, desvio e dissidência. Tomo essa formulação não apenas como chave temática, mas como modo de aproximação do próprio filme, cuja força parece estar justamente em produzir tramas contra diferentes tramas já dadas: a trama nacionalista do petróleo, a trama ficcional pré-formada, a trama do encarceramento, a trama temporal da bomba do tempo e a trama moral que tenta circunscrever certos corpos, desejos e formas de vida.
A fala se organiza em cinco movimentos. No primeiro, “especular contra a especulação petroleira”, parto da passagem entre a ideia inicial do projeto — um grupo de mulheres que encontraria petróleo na Ceilândia — e o filme realizado, no qual as Gasolineiras da Kebrada desviam petróleo de um oleoduto que passa sob o Sol Nascente. Esse deslocamento permite pensar “o petróleo é de nóis” como torção gramatical e política de “o petróleo é nosso”. A apropriação clandestina do petróleo trama contra a narrativa nacional-desenvolvimentista, mas também contra as formas abstratas de especulação que mantêm o poder no poder.
No segundo movimento, “perfurar a roupagem ficcional”, interessa observar como a chamada etnografia da ficção cria um universo ficcional para, ao longo do processo, rasgar, alargar e gastar essa própria roupa. A refinaria cenográfica, instalada durante anos no território, deixa de funcionar apenas como cenário e passa a compor um cotidiano. As atrizes, por sua vez, não ocupam personagens como formas fechadas: perfuram os arquétipos com seus corpos, memórias, modos de falar e de narrar. Tramar contra a trama, aqui, é fazer da ficção um processo de co-ficcionar, no qual o real não aparece como origem pura nem como limite documental, mas como aquilo que interrompe, deforma e redistribui a matéria ficcional.
O terceiro movimento se volta ao “sentimento do cárcere”. A prisão de Léa não surge como acontecimento isolado, mas como parte de uma experiência que atravessa o território, embaralhando dentro e fora, liberdade e captura, passado e presente. A campanha do Partido do Povo Preso, as memórias das atrizes, a carta enviada da prisão e a presença distante de Brasília compõem uma trama na qual a política institucional aparece como luz no horizonte, enquanto o sistema penal ronda de perto. O filme trama contra a redução dessas vidas ao estatuto de ficha criminal, restituindo contradição, desejo, humor, memória e fabulação onde a linguagem policial tende a produzir achatamento.
No quarto movimento, proponho pensar como Mato seco em chamas disfuncionaliza a bomba do tempo. Se a economia do petróleo costuma armar uma temporalidade fundada na promessa de crescimento e na ameaça do esgotamento, no filme a ameaça se desloca para a captura, a prisão e o desmonte da refinaria clandestina. Ainda assim, essa iminência não se organiza como progressão dramática funcional. O filme aposta em um tempo empoçado, cíclico, atravessado por retornos, relatos, cartas, suspensões e sequências que parecem valer por si. Tramar contra a trama, nesse caso, é adiar o fim esperado, suspender a engrenagem de causa e efeito e abrir, no presente, uma espessura feita de memória, risco e duração.
Por fim, em “mulheres em combustão iminente”, a conversa entre Léa e Chitara na refinaria condensa muitos desses fios. Músicas, lembranças de amor, prisão, fuga, maternidade, violência e desejo se remixam diante da possibilidade de tudo explodir. O fogo, presente desde a abertura do filme, torna-se ameaça contínua, matéria inflamável, modo de defesa e horizonte de autoimolação. Entre tonéis de gasolina, cigarros, e promessas de atear fogo em tudo, o filme mantém suas personagens no fio da combustão — não para purificá-las, redimi-las ou condená-las, mas para acompanhar suas formas impuras de permanecer, ficcionar e escapar.
Bibliografia
- APPEL, Hannah. The licit life of capitalism: US oil in Equatorial Guinea. Durham: Duke University Press, 2019.
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