Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Sérgio Murilo Fontes de Oliveira Filho (USP)

Minicurrículo

    Doutorando (bolsista CAPES) no programa de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Graduado em licenciatura plena em Letras Português e Inglês também pela UFS. Atualmente, desenvolve pesquisa de doutorado sobre a ficção científica dos anos 1960 a partir da obra de Philip K. Dick.

Ficha do Trabalho

Título

    DO PROTAGONISTA PARANOICO AO HERÓI DE AÇÃO: UMA ANÁLISE IDEOLÓGICA DE PHILIP K. DICK NOS CINEMAS

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    As adaptações de Philip K. Dick transformam protagonistas paranoicos e impotentes em heróis de ação autônomos, promovendo tanto a despolitização, por meio da eliminação de críticas sociais e filosóficas, quanto a exaltação da ação heroica. Exemplos como Blade Runner (1982), Total Recall (1990) e Minority Report (2002) substituem dilemas sobre livre-arbítrio e empatia coletiva por espetáculo e individualismo resolutivo, refletindo contextos históricos que domesticam a obra original.

Resumo expandido

    A obra de Philip K. Dick (1928-1982) está entre as mais adaptadas da ficção científica para o cinema, mas essa abundância fílmica impõe um paradoxo: seus protagonistas, tipicamente paranoicos, impotentes e inseridos em narrativas sobre as quais não têm controle algum, são transformados pelas adaptações em heróis de ação autônomos, agentes de mudança com capacidades para restaurar ou alterar a ordem. Esta comunicação propõe uma análise histórica comparativa entre três obras de Dick e suas respectivas adaptações, a saber: Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968) / Blade Runner (1982, R. Scott), “We Can Remember It for You Wholesale” (1966) / Total Recall (1990, P. Verhoeven; 2012, L. Wiseman) e “The Minority Report” (1956) / Minority Report (2002, S. Spielberg). O foco da nossa análise será em dois processos complementares: a despolitização do conteúdo e a exaltação da ação heroica.
    A despolitização acontece em vários aspectos. No conto original de “The Minority Report”, o sistema de prevenção de crimes é criticado por sua lógica interna, e quando o protagonista se vê confrontado com a impossibilidade de um sistema judicial infalível, ele se mostra cooptado pelo sistema, ainda que não celebrado por ele. Dessa forma, o conto discute as consequências de uma sociedade determinista e a perda do livre-arbítrio em nome de uma suposta segurança. Já no filme, Spielberg transforma a crítica em espetáculo, já que a falha descoberta não invalida o sistema, mas motiva a perseguição ao protagonista, e o desfecho substitui o dilema filosófico por um gesto de clemência individualista. Para tanto, a idade e a vida amorosa do protagonista são alteradas. Algo semelhante ocorre em Blade Runner: o romance de Dick é estruturado em torno de dicotomias como autêntico/imitação e humano/androide para refletir sobre a necessidade de um código moral compartilhado, plasmado no Mercerismo, uma religião forjada na empatia coletiva por uma figura messiânica. O filme elimina quase inteiramente a dimensão social e religiosa e mesmo as dicotomias que constituem a linha de força da narrativa são reduzidas com a decisão de transformar o teste Voight-Kampff, que no livro é um aparato ambíguo, torna-se mero índice técnico. A crise do protagonista, assim, despolitiza-se, pois já não se trata sobre o que significa ser humano em um sistema que simula a empatia, mas sobre a dúvida individual e afetiva sobre sua própria identidade.
    A exaltação do herói dickiano é a outra face desse processo. O protagonista típico de Dick – o Deckard de Do Androids…, o Anderton de “Minority Report” ou o Quail de “We Can Remember” – é um sujeito frágil, frequentemente vencido pelas circunstâncias, que não restaura a ordem, mas apenas sobrevive a ela. O próprio Dick argumentava que seu projeto literário era jogar pessoas comuns contra grandes distopias (Sutin, 2005, p. 54) para elaborar as consequências. Jameson (2021, p. 576) vai além e identifica esse confronto de um indivíduo contra “um mundo humano coletivo, distintamente norte-americano” como uma distinção positiva da obra de Dick, em contraste com um subjetivismo modernista. As adaptações, em contraste, constroem heróis ativos. Total Recall (1990) é exemplar: o conto termina com o protagonista indiferente à possibilidade de viver uma simulação completa, enquanto o filme oferece a triunfante resolução da colonização de Marte pelos oprimidos. Deckard, Anderton, Quail – Quaid, na adaptação fílmica – são protagonistas presos em um “pesadelo burocrático insidioso” (Vest, 2007, p. 118). No lugar disso, os filmes propõem figuras mais carismáticas com quem o público possa simpatizar. Nesse sentido, a escolha de atores é sintomática: Harrison Ford, Tom Cruise e Arnold Schwarzenegger.
    Uma das explicações possíveis reside no contexto histórico das adaptações fílmicas, quando o individualismo resolutivo e a despolitização das tramas funcionam como estratégias de domesticação.

Bibliografia

    BLADE Runner. Direção: Ridley Scott. Produção: Michael Deeley. Roteiro: Hampton Fancher e David Peoples. Estados Unidos: Warner Bros., 1982.
    Dick, Philip K.. Androides sonham com ovelhas elétricas?. Trad. Ronaldo Bressane. São Paulo: Aleph, 2014.
    Dick, Philip K.. Realidades adaptadas. Trad. Ludimila Hashimoto. São Paulo: Aleph, 2020.
    JAMESON, Fredric. Arqueologias do futuro. Trad. Carlos Pissardo. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
    MINORITY Report. Direção: Steven Spielberg. Produção: Gerald R. Molenet e outros. Roteiro: Scott Frank e Jon Cohen. Estados Unidos: 20th Century Fox; DreamWorks Pictures, 2002.
    SUTIN, Lawrence. Divine invasions: A life of Philip K. Dick. New York: Carroll & Graf, 2005.
    TOTAL Recall. Direção: Paul Verhoeven. Produção: Buzz Feitshans e Ronald Shusett. Roteiro: Ronald Shusett, Dan O’Bannon e Gary Goldman. Estados Unidos: Carolco Pictures, 1990.
    VEST, Jason. Future imperfect: Philip K. Dick at the movies. Connecticut : Praeger Publishers, 2007.