Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bruno Reis Lima (Unifor)

Minicurrículo

    Bruno Reis/Juru é artista-pesquisadore multidisciplinar com foco em performance, dança e cinema. Sua atuação integra a prática artística à investigação acadêmica, sendo doutore em Artes (UERJ) e mestre em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF).

Ficha do Trabalho

Título

    Prazer visual e homonormatividade em “Heated Rivarly”

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    Este trabalho busca produzir uma análise a respeito da série canadense “Heated Rivalry” (2024) a partir do conceito de homonormatividade (DUGGAN) e de prazer visual (MULVEY). A proposta é investigar a construção do erotismo na obra, especialmente nas cenas entre os protagonistas Rozanov e Hollander, pensando a questão da posicionalidade de quem olha e quem é olhado e de que maneira a produção reencena normatividades relacionadas ao binarismo de gênero e os estereótipos raciais.

Resumo expandido

    Em um momento de recrudescimento na representação de sujeitos queer na grande mídia, chama atenção o caso do sucesso estrondoso da série Heated Rivarly (2025).

    Produzida pelo streaming canadense Crave e lançada em novembro do último ano, a série rapidamente ganhou ampla repercussão online e teve seus direitos de distribuição internacional adquiridos pela HBO. Saturada de cenas de sexo e romance, a trama retrata o romance secreto de dois jogadores profissionais de hóquei que jogam em times rivais: Shane Hollander, um jovem de ascendência asiática tímido e focado, e Ilya Rozanov, um homem bissexual russo que também esconde sua orientação.

    Protagonizada por dois homens jovens, musculosos e no armário, a série parece articular prazer visual e homonormatividade de modo a abrir possibilidades de espectorialidades não muito óbvias: seu fandom é majoritariamente composto por mulheres heterossexuais. Tal aspecto não seria em si um problema, se não articulasse, acreditamos, uma espécie de gestão homonormativa do desejo, reforçando papéis binários de gênero e produzindo uma espécie de extrativismo do erotismo queer, aqui reapropriado para fortalecer uma certa ordem heterossexual do desejo.

    Como afirma Ward, a heterossexualidade não é uma erotização de um binário de gênero preexistente, mas justamente a criação deste mesmo binário e a construção da erotização da diferença sexual que o sustenta. Se podemos pensar na homonormatividade, a partir de Duggan, como uma política que não contesta as instituições heteronormativas, mas as mimetiza, nos parece que Heated Rivarly aposta nessa reencenação da diferença em que os protagonistas reforçam uma certa binaridade de gênero.

    Na série, Hollander é ao mesmo tempo asiático, passivo e carente, desejando sempre a atenção de Rozanov, que é russo, bruto, voraz, ativo e evasivo, reproduzindo dinâmicas que repetem clichês heteronormativos e racialmente estereotipados. Mesmo seja verossímil que existam casais que funcionem dentro deste binarismo, a obra articula outros tropos, que, em conjunto, higienizam a experiência queer que supostamente retratam: a centralidade do dispositivo do armário, a vida sexual e afetiva restrita à privacidade, a ausência de qualquer senso ou convivência em comunidade.

    Esta articulação aparentemente paradoxal entre sexo tórrido e higienização social remete ao conceito de Potentia Gaudendi, proposto pelo acadêmico espanhol Paul B. Preciado. Segundo Preciado, a potentia gaudendi é a potência de excitação total de um corpo, uma capacidade indeterminada que não conhece gênero ou fronteiras entre heterossexualidade e homossexualidade. No caso de Heated Rivalry, a série opera uma extração desse potencial erótico em que o corpo e o desejo são estetizados e transformados em uma mercadoria palatável através de representações normativas.

    Em última análise, a obra funciona como um laboratório de extrativismo erótico: retira-se o potencial subversivo do desejo dissidente para convertê-lo em um produto de consumo que não ameaça a ordem vigente. É um banquete de representatividade servido sob as regras do armário, onde o prazer visual não serve para abrir janelas para a alteridade, mas para oferecer ao público majoritário um espelho de suas próprias normas.

Bibliografia

    AHMED, Sara. Fenomenología queer: orientaciones, objetos, otros. Tradução de Javier Sáez e Didac P. Lagarriga. Barcelona: Bellaterra, 2019.
    DRUKMAN, Steven. The gay gaze, or why I want my MTV. In: AMY-CHINN, Dee (ed.). The sex music visual reader. [S. l.]: Routledge, 1995.
    DUGGAN, Lisa. The twilight of equality?: neoliberalism, cultural politics, and the attack on democracy. Boston: Beacon Press, 2003.
    DYER, Richard. The matter of images: essays on representations. London: Routledge, 1993.
    FUNG, Richard. Looking for My Penis: The Eroticized Asian in Gay Video Porn. In: BADGETT, M. V. Lee; LEONG, Russell (ed.). Asian American Sexualities: Gay, Lesbian, and Bisexual Perspectives. New York: Routledge, 1996. p. 181-198.
    PRECIADO, Paul B. Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições, 2018.
    WARD, Jane. The tragedy of heterosexuality. New York: New York University Press, 2020.