Ficha do Proponente
Proponente
- ARTHUR FELIPE DE OLIVEIRA FIEL (UFES)
Minicurrículo
- Professor Permanente Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades (PÓSCOM) e do Departamento de Comunicação Social, da Universidade Federal do Espírito Santo. Coordenador do Observatório do Cinema e Audiovisual Capixaba (OCAC) e Líder do Observatório Brasileiro do Audiovisual Infantil (OBA!), grupos de extensão e pesquisa. É Doutor em Comunicação (PPGCom), Mestre e Bacharel em Cinema e Audiovisual (PPGCine) pela Universidade Federal Fluminense. E-mail: arthur.fiel@ufes.br
Ficha do Trabalho
Título
- Por uma outra ideia de (des)envolvimento para o cinema brasileiro
Mesa
- Soberania e (des)envolvimento do Audiovisual em disputa: ideias, ações e políticas públicas
Resumo
- Esta comunicação critica o modelo hegemônico de desenvolvimento do audiovisual brasileiro, orientado por lógica economicista que privilegia indicadores de mercado em detrimento das dimensões socioculturais e políticas do cinema. A partir de Autran (2013), Bahia (2012), Simis (2008) e Ikeda (2025), argumenta-se que tal modelo aprofunda desigualdades estruturais, tornando urgente uma guinada teórico-crítica nas políticas públicas comprometida com a democratização do acesso e a soberania cultural.
Resumo expandido
- O debate sobre o desenvolvimento do audiovisual brasileiro tem sido historicamente orientado por uma racionalidade economicista e neoliberal que tende a reduzir a complexidade do setor a indicadores de desempenho de mercado, em especial: volume de produção, receitas de bilheteria e inserção em circuitos internacionais de distribuição e consumo. Embora tais parâmetros ofereçam uma dimensão relevante para a compreensão do setor, sua adoção como critério privilegiado de avaliação na relação entre o público brasileiro e o cinema nacional implica num estreitamento analítico que obscurece as funções socioculturais e políticas que o cinema e o audiovisual exercem numa sociedade democrática. Nesse cenário, presente trabalho busca lançar um olhar crítico ao modelo hegemônico de desenvolvimento, argumentando que ele não apenas é insuficiente para dar conta da realidade do audiovisual brasileiro, como também contribui para a reprodução das desigualdades estruturais que marcam o setor.
Para tanto, partimos da compreensão que a orientação industrialista das políticas públicas para o audiovisual brasileiro tem raízes profundas, identificáveis ao longo de diferentes ciclos históricos de intervenção estatal. Como demonstra Arthur Autran (2013), o chamado “pensamento industrial cinematográfico” consolidou-se como um paradigma que associou o desenvolvimento do cinema nacional à construção de uma indústria capaz de competir no mercado internacional, deixando em segundo plano questões relativas à diversidade de vozes, ao acesso e à função cultural das obras. De forma complementar, Lia Bahia (2012) aponta que os processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro resultaram em configurações que privilegiam determinados agentes e lógicas produtivas, em detrimento de uma concepção mais ampla e plural do audiovisual como bem público.
A compreensão dessa herança ganha maior profundidade quando se recupera a análise histórica proposta por Simis (2008), que rastreia a relação entre o Estado brasileiro e o cinema desde as primeiras décadas do século XX. A autora demonstra como a intervenção estatal, ao longo de diferentes regimes políticos, foi sistematicamente moldada pela tensão entre reconhecer o cinema como expressão cultural e tratá-lo como setor produtivo a ser fomentado segundo critérios econômicos. Essa ambivalência constitutiva criou as condições para que a lógica industrialista, identificada por Autran (2013) e Bahia (2012), se firmasse como paradigma dominante. Ao analisar um dos critérios mais relevantes aplicado nas chamadas principais públicas do setor audiovisual, Macelo Ikeda (2025) demonstra como o modelo da Classificação de Nível adotado pela Ancine, longe de corrigir as distorções estruturais, aprofunda ainda mais a concentração de recursos em poucas empresas. É justamente essa dinâmica produtivista e economicista, adotada ao longo de décadas na condução das políticas dedicadas ao audiovisual brasileiro, que torna urgente uma revisão crítica dos fundamentos e princípios que sustentam esse modelo.
Diante desse quadro, defende-se que o reposicionamento do audiovisual brasileiro exige a construção de novos indicadores capazes de capturar suas dimensões socioculturais e políticas. Dessa forma, busca-se de contribuir para um debate que reafirme o papel estratégico do audiovisual na produção de sentidos e no fortalecimento da democracia, para além das fronteiras da rentabilidade econômica. Em especial, esta comunicação aponta para a necessidade de uma guinada na teórico-crítica na formulação das políticas públicas direcionadas ao cinema e audiovisual brasileiro, uma guinada que busque ampliar o acesso para garantir o pleno envolvimento da população com as imagens, sons e narrativas que compõem a potência estético-político-criativa do cinema nacional.
Bibliografia
- AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec Editora, 2013.
BAHIA, Lia. Discursos, políticas e ações: processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro. São Paulo: Itaú Cultural e Iluminuras, 2012.
IKEDA, Marcelo Gil. O paradoxo da descentralização: como a Classificação de Nível concentra recursos no audiovisual brasileiro. Rebeca – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, São Paulo, v. 14, n. 2, pp. 1-20, jul./dez. 2025.
SIMIS, Anita. Estado e cinema no Brasil. 2 ed. São Paulo: Annablume, 2008.