Ficha do Proponente
Proponente
- Lucas dos Reis Tiago Pereira (UFF)
Minicurrículo
- Lucas dos Reis Tiago Pereira é doutorando e mestre pelo PPGCINE/UFF. É graduado em Cinema e Audiovisual – Licenciatura também pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente é coordenador pedagógico do Coletivo Aeroplano de Cinema e Educação e curador da Conferência Goiás de Preservação Audiovisual. É editor da Revista Aurora dedicada exclusivamente ao cinema brasileiro.
Ficha do Trabalho
Título
- A justiça cristã e a construção do medo
Resumo
- A presente pesquisa visa discutir os filmes À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) do realizador José Mojica Marins, a partir da perspectiva de formação da justiça fundada no cristianismo como propõe o teólogo político Paolo Prodi. A proposta irá debater como o medo e a violência nos filmes de Mojica fazem parte de um reconhecimento da justiça da Igreja como fator essencial para a sociedade brasileira.
Resumo expandido
- O cinema brasileiro na década de 1960 destacou o poder do cristianismo na sociedade brasileira em diversas obras. Dentre esses filmes, alguns trabalharam com a relação de violência e medo que a Igreja Católica impunha no período analisado. Em O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte, 1962), o padre católico se coloca como uma figura conservadora que não aceita uma promessa feita em um terreiro de Candomblé.
Deus e o Diabo na terra do sol expunha uma população pobre do nordeste brasileiro que se deixava acreditar em um líder messiânico. Como o Estado brasileiro não se aproximava daquela população, a aproximação com lideranças religiosas era um escapismo de uma vida miserável. A violência também é um fator comum em outras obras como Tocaia no asfalto (Roberto Pires, 1962), ou A hora e a vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1965).
Cabe destacar que a ascensão de um político de esquerda como João Goulart à presidência do país e o posterior golpe civil-militar criaram o ambiente para mudanças sociais profundas, inclusive na Igreja Católica. Os filmes levantados na pesquisa traduziram uma percepção da sociedade sobre o cristianismo no período. “A Igreja Católica passava por momentos delicados por conta de mudanças sociais no país que refletiam na relação dos fiéis com a igreja.” (Alves, 1979, p.50). A divisão entre a Teologia da Libertação e a Tradição, Família e Propriedade (TFP) nos parece fundamental para identificar o conflito interno da igreja católica e, ao mesmo tempo, no cerne da disputa social.
Para o presente trabalho, iremos analisar os filmes À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) de José Mojica Marins – criador do personagem Zé do Caixão – que é considerado muito específico no cinema brasileiro da época, inclusive precursor de uma espécie de filme de horror brasileiro (Serrador, 2008). Em seus filmes, a violência está ligada a um medo gerado pela possibilidade das almas irem para o inferno. Não por acaso, o personagem de Zé do Caixão é um coveiro. Entendemos que os filmes de Mojica se aproximam de outros filmes brasileiros do período ao lidar com o cristianismo como fator essencial da sociedade brasileira, e ao mesmo tempo, se difere por fazer do horror o centro da narrativa.
O simbolismo cristão é um fator de horror permeia as duas obras. A comunicação visa analisar um recorte da filmografia de Mojica da década de 1960, a partir de filmes que passaram a tratar o cristianismo como um fator de violência social em seu universo diegético. Utilizaremos como ferramenta teórica o trabalho do teólogo político Paolo Prodi sobre a construção do mundo ocidental e, especialmente, as noções modernas de justiça, a partir do catolicismo.
A justiça não é apenas a representação de uma ordem objetiva, correspondente ao direito natural: é também a principal das virtudes humanas ou “cardeais”. Sendo assim, o pecado representa não apenas a rejeição da graça divina, mas também uma tríplice violação da ordem universal contra a razão, a lei humana e a divina. (PRODI, 2005, p.157)
É nítido que o horror provocado por À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) acontecem por conta de uma tradição católica no Brasil e que o pecado seria o maior horror da sociedade porque desobedeceria as regras da Igreja, principal instituição de poder do período.
Ao fim de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver Zé do Caixão afunda em um lago e a parca iluminação do espaço forma a imagem de uma cruz como se fosse a presença sagrada que afogasse o personagem. O castigo divino após a morte é o grande temor dos fiéis católicos e base para o direito moderno, como lembra Paolo Prodi. Dessa maneira, a comunicação destacará como a sociedade brasileira teria como grande temor o castigo de Deus porque a Igreja Católica regeria as leis dos homens e como José Mojica Marins construiu o horror de seus filmes, a partir desta condição social.
Bibliografia
- ALVES, Márcio. A Igreja e a política no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1979.
CANEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? – Uma História do Horror nos Filmes Brasileiros. Campinas: Instituto de Artes da Universidade de Estadual de Campinas, 2008. Tese de Doutorado em Multimeios, 499 pp.
PRODI, Paolo. Uma história da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 549 p.
ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
238 p.
SERRADOR, Daniela Pinto. Das primeiras experiências ao fenômeno Zé do Caixão: um estudo sobre o modo de produção e a recepção dos filmes de José Mojica Marins entre 1953 e 1967. 330 f. Dissertação (Mestrado) – Ciências da Comunicação, USP, São Paulo, 2008.
VIEIRA, J. L. . A construção do medo no cinema. In: Adauto Novaes. (Org.). Ensaios sobre o medo. São Paulo: SENAC, 2007, v. , p. 225-252.