Ficha do Proponente
Proponente
- Luiz Fernando Roos Todeschini (UFF)
Minicurrículo
- Luiz Todeschini é realizador e pesquisador audiovisual, Bacharel (UNILA – Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e Mestre (UFF – Universidade Federal Fluminense) em Cinema e Audiovisual. Atua profissionalmente como diretor, editor e assistente de direção, com ampla experiência em produções publicitárias e cinematográficas. No campo acadêmico, desenvolve pesquisas sobre os cinemas latino-americanos e suas relações com a alteridade no audiovisual contemporâneo.
Ficha do Trabalho
Título
- Até onde a câmera pode ir? Alteridade e direito à opacidade no cinema latino-americano contemporâno
Resumo
- Este trabalho questiona o alcance e os limites do olhar no cinema latino-americano contemporâneo, propondo a opacidade como princípio ético e estético na representação da alteridade. A partir do conceito de “direito à opacidade”, de Édouard Glissant, analisam-se filmes cujos gestos cinematográficos recusam capturar integralmente o outro filmado. Conclui-se que a não-visibilidade pode constituir uma forma crítica de relação, tensionando regimes tradicionais de representação.
Resumo expandido
- Este trabalho analisa os limites do olhar cinematográfico na representação da alteridade no cinema latino-americano contemporâneo, compreendendo o ato de filmar o outro como um problema não apenas estético, mas também ético e político. Inserido em uma investigação mais ampla sobre as manifestações visuais da alteridade entre os anos 1990 e 2020, o recorte aqui apresentado parte da crítica à tradição moderno-ocidental que historicamente atribuiu ao olhar um lugar privilegiado de conhecimento, controle e tradução do outro.
Em contraposição a essa lógica, mobiliza-se o conceito de “direito à opacidade”, formulado por Édouard Glissant (2021), que propõe a legitimidade de uma diferença intraduzível, não redutível a sistemas totalizantes de compreensão. A opacidade, nesse sentido, não representa um fechamento, mas uma condição relacional que preserva a singularidade do outro sem submetê-lo à transparência absoluta. Dialogando com essa perspectiva, o trabalho também se aproxima das críticas à hiper-visibilidade contemporânea, entendida como forma de violência que submete tudo à exposição e à legibilidade.
A partir desse arcabouço teórico, identificam-se dois gestos recorrentes na linguagem cinematográfica: a “câmera que fica” e “o olhar que interpela a câmera”. Tratam-se de operações em que o dispositivo fílmico interrompe seu movimento de acompanhamento, recusando seguir os personagens até o desfecho de suas trajetórias, ou suspende o registro da transparência pela devolução do olhar como revelação visual do dispositivo fílmico. Dessa forma, entende-se imagens de alteridade como representações visuais da diferença, inscritas em espaços, corpos e estruturas sociais ou como a própria impossibilidade de representar plenamente o outro.
A análise fílmica se concentra em alguns filmes latino-americanos que evidenciam esses procedimentos: La Nana (Sebastián Silva, 2009, Argentina); La Llorona (Jayro Bustamante, 2019, Guatemala); Yvy Maraey: Tierra Sin Mal (Juan Carlos Valdivia, 2013, Bolívia); Leonera (Pablo Trapero, 2008, Argentina); e Medea (Alexandra Latishev, 2017, Costa Rica). A presença se destaca nos planos finais que suspendem a narrativa, seja ao deixar personagens saírem de quadro, seja ao impedir a câmera de avançar em determinados espaços, e o olhar para a câmera como destruição performática do gesto cinematográfico. Nesses casos, a opacidade se constrói como linguagem: não como ausência de sentido, mas como estratégia que desloca o espectador de uma posição de domínio para uma experiência de incerteza, incompletude e reflexão.
Articulando esse gesto com o conjunto da dissertação, argumenta-se que as imagens de alteridade podem ser compreendidas em duas dimensões complementares. Por um lado, como formas visuais que materializam diferenças sociais, espaciais e históricas; por outro, como manifestações da própria impossibilidade de apreender plenamente o outro. Nesse sentido, o cinema latino-americano contemporâneo se configura como um campo privilegiado para tensionar os regimes de visibilidade herdados da modernidade, propondo modos alternativos de relação com a alteridade.
Conclui-se que a ética do olhar no cinema não se esgota naquilo que é mostrado, mas se revela também nos limites que o próprio dispositivo impõe a si mesmo. Respeitar o outro implica aceitar sua intraduzibilidade – o rosto como um espaço que abriga a impenetrabilidade, a alteridade radical e a relação sujeito-outro não-totalizante. Queremos encontrar o lugar da dúvida no olhar ao colocá-lo sob suspeita. Isto é, se deparar com os pontos cegos entre quem filma e quem é filmado. Assim, a recusa em ver tudo — ou em mostrar tudo — pode constituir uma forma potente de resistência a olhares hegemônicos, abrindo espaço para uma relação mais complexa, aberta e responsável com o outro.
Bibliografia
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