Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Pedro Henrique Villela de Souza Ferreira (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Professor no Departamento de Comunicação da PUC-Rio. Doutor pela Universidade Federal Fluminense. Mestre pela UFJF. Sócio-Fundador da Dilúvio Filmes. Diretor, roteirista e produtora das séries televisivas “/Lost+Found” e “Seis Propostas para um Mundo Possível”. Curador de mostras e retrospectivas em diversas instituições culturais. Crítico na Revista Cinética (2011-2022). Atualmente, pesquisa relações e afinidades entre cinema e teoria dos mundos possíveis, e dedica-se à análise fílmica.

Ficha do Trabalho

Título

    O tableaux e a arte de multiplicar os corpos de mulheres em Gryozy (1915) a Você e Os Seus (2016)

Seminário

    Estudos Comparados de Cinema

Resumo

    A pesquisa faz uma analise comparativa entre os filmes Gryozy (1915), de Evgenii Bauer e Você e os Seus (2016), de Hong Sang-Soo. Ambos tematizam a relação ‘original-cópia’ na imagem ao mostrar a obsessão pigmaleônica masculina. A análise observa o uso do tableaux vivant para multiplicar a imagem de corpos femininos, e, apoiando-se numa discussão que mistura ontologia técnica e mundos possíveis, sustenta a hipótese de que esta diferença ressoa o estatuto da imagem em dois séculos diferentes.

Resumo expandido

    Em 1915, o cineasta Evgenii Bauer adaptou o romance Bruges-la-morte, de Georges Rodenbach. A ação daquele que é considerado o conto quintessencial do simbolismo do fin de siecle foi deslocada da cidade belga para a Moscou do início do século XX pelo mais célebre realizador da Rússia Imperial. Este gesto ressoava o hábito que tinha a indústria do período pré-revolucionário de recorrer às estórias de amores fáusticos e personagens de alma necrofílica oriundas da era de prata da literatura russa e de romances decadentistas. Evgenii Bauer transpôs as externas da cidade de Bruges para internas em escritórios de decoração gótica. Na tônica dos grandes meteurs-en-scène europeus dos anos 1910s, o cineasta recorreu substancialmente ao uso do plano tableaux-vivant, à longa duração do quadro respeitando e enaltecendo a performance do ator, aos jogos de misé-en-place, aos efeitos de luzes, mobílias, etc., todos abrasados por uma alma profundamente decorativista.

    A trama de Gryozy (1915) é impregnada de fantasmagorias: após a morte da esposa, Nedelín vive recluso e atormentado até que conhece Tina, uma atriz que é a imagem e semelhança da falecida. Aos poucos, o homem a veste com as roupas e jóias da ex-mulher e tenta moldá-la às características físicas dela. Mas a atriz não se interessa por disputar o lugar com a memória idealizada, e começa a reagir com insolência. As núpcias desandam, e o desfecho é trágico. O retrato desta obsessão melancólica advinda do romance de Rodenbach é uma estratégia de Bauer para versar sobre o significado da imagem e seu efeito de ‘réplica’ do corpo humano, auto-referenciando a própria ontologia esfíngica do cinema, e sendo o “registro narratológico das condições técnicas do meio” (KITTLER, 2017, p. 200). Diferentemente de outros filmes que retomam o ‘problema fotográfico’ de Rodenbach (como Um Corpo que Cai), Bauer utiliza duas atrizes diferentes para os papéis e recorre a uma série de métodos aproximativos para fazer-nos crer e descrer na semelhança estética dos seus corpos.

    Um século depois, o sul-coreano Hong Sang-soo retoma o problema da duplicação dos corpos em Você e Os Seus (2016), atualizando-o à luz de uma época onde a técnica de produção de imagens majoritariamente tornou-se digital. A trama acompanha um homem que é abandonado por sua namorada, somente para encontrar outra visualmente igual a ela. O filme utiliza-se da mesma atriz, mas potencializa os más-entendidos: a segunda mulher é também confundida por outro homem com uma terceira, e assim por diante, num procedimento algébrico exponencial, de forma a lhes multiplicar cada vez mais. Todas sempre desmentem os homens que pensam saber dizer quem são. Nós, espectadores, também temos dificuldade em distinguir as personagens encarnadas pela mesma atriz, e o embaralhamento só faz algum sentido quando percebemos quais roupas estão usando. Os tableaux de Sang-soo nos lança uma indagação sobre os processos de significação no cinema através dos corpos, e sobre como, no intervalo entre dois registros, podemos reconhecer uma continuidade de personagens, objetos e situações que mantêm coesa uma narrativa em nossa memória.

    A pesquisa faz uma analise comparativa entre os dois filmes associando-os às formas e técnicas de produção de imagem de suas respectivas épocas. Para realizar este segundo propósito, recorremos, no primeiro caso, à descrição que Friedrich Kittler empreende das tecnologias de reprodução mecânica do século XIX, e no segundo, às ferramentas semânticas da teoria dos mundos possíveis, que advoga “a tese da pluralidade de mundos” onde “o nosso é apenas um dentre muitos outros” (LEWIS, 2001, p.2). O ato comparativo evidencia como estes cineastas descreveram a epistemologia da imagem como duplo, simulacro ou versões em épocas diferentes. Implícito nesta análise está um problema de gênero: a existência e controle destes corpos femininos à manipulação masculino para realizar suas fantasias.

Bibliografia

    DEBLASIO, Alyssa. “Choreographing Space, Time and Dikovinki in the Films of Evgenii Bauer” em The Russian Review, No. 4 (2007)

    DOLEZEL, Lubomir. Heterocosmica: Fiction and Possible Worlds. EUA, Baltimore: The John Hopkins University Press, 1998.

    DOMINGUEZ, Juan Manuel. El Director Desnudado por sus Pretendentes: El Cine de Hong Sangsoo. Catálogo do BAFICI, 2015

    KITTLER, Friedrich. A Verdade do Mundo Técnico. Contraponto, 2017

    LEWIS, David. K. On The Plurality of Worlds. Oxford: Wiley-Blackwell, 2001.

    MORLEY, Rachel. “Gender Relations in The Films of Evgenii Bauer” in The Slavonic and East European Review, Vol. 81, No. 1. Janeiro de 2003.

    RODENBACH, Georges. Bruges-la-Morte. Ontario, Canada: Dedalus, 2015.

    RYAN, Marie Laure. Possible Worlds, Artificial Intelligence, and Narrative Theory. Bloomington: Indiana University Press.

    TSIVIAN, Yuri. Early Cinema in Russia and Its Cultural Reception. Routledge, 1991