Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ricardo Cruz Moraes Martins (UFMT)

Minicurrículo

    Mestrando em Estudos de Cultura Contemporânea (FCA-UFMT). Graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Mato Grosso. Atua como montador e colorista na pós-produção. Pesquisa arqueologia das mídias e estética da imagem, com foco nas poéticas da obsolescência e nas relações entre técnica, memória e regimes de imagem no audiovisual contemporâneo.

Ficha do Trabalho

Título

    Exterioridades de acidentes: arqueologia e o viés do trauma em Hiroshima, Mon Amour (1959)

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    O trabalho analisa Hiroshima, Mon Amour (1959) a partir da arqueologia das mídias, articulando a noção de “exterioridades de acidentes” com o trauma (Parikka, 2021). O filme organiza a memória como fragmentos, enquanto a investigação midiática opera por vestígios e mediações indiretas. A análise aproxima experiência histórica, regimes técnicos e metodologia, destacando o trauma nas rupturas e nas marcas que persistem nas ruínas do progresso.

Resumo expandido

    Em Hiroshima, Mon Amour (1959), o primeiro longa-metragem de Alain Resnais, dois amantes revisitam traumas pós-guerra. O espectador observa o erotismo de um envolvimento amoroso, enquanto a contextualização do pós-guerra em Hiroshima forma um enredo paradoxal entre passado e presente. O filme organiza o trauma como fragmentos de ruptura sob condições de memória e esquecimento. Nesse sentido, o cineasta Glauber Rocha reconhece a obra como um ensaio dramático fundamental que inaugura o cinema moderno, como processo de investigação das relações humanas e instrumento do estudo metafísico (Silva, 2020). Essa colocação permite aproximar o filme da arqueologia das mídias, ao tratar de exterioridades de acidentes (Parikka, 2021). A narrativa e a forma cinematográfica atravessam os sentidos das rupturas nas grandes crises para além da linearidade histórica. Investigar o passado no cinema a partir da arqueologia das mídias é atravessar experiências “pós-traumáticas”, movimento que a obra Hiroshima Mon Amour explicita ao reunir e reinterpretar evidências ainda ativas em um local de ruína, nas quais o esquecimento não se completa e as rupturas permanecem como vestígios (Parikka, 2021). A personagem estrangeira, que foi até Hiroshima para atuar num filme sobre os efeitos da guerra, narra seu entendimento sobre a bomba atômica como um texto em prosa, expondo imagens de arquivo e artefatos dos museus locais. O personagem que habita a cidade insiste: “Você não viu nada em Hiroshima”, enquanto a personagem relata ter se aprofundado e simpatizado com o sofrimento daquela cidade. No processo de desprendimento de um amor que seria fugaz, ele passa a desejá-la por mais tempo. Há restrições para ela, ligadas ao trauma da morte de seu primeiro amor em sua cidade natal, também em consequência da guerra. O personagem que habita Hiroshima se interessa pelo trauma vivido em Nevers e passa a escutar. A personagem retorna à memória aos poucos, fala, interrompe e retoma. Há um movimento de reaproximação que altera seu posicionamento diante do trauma compartilhado. Ao mesmo tempo, Hiroshima se apresenta como uma cidade reconstruída e habitada, deslocando a percepção que se fixaria apenas na destruição.Tal relação pode ser articulada com a arqueologia das mídias quando o objeto de estudo não pertence à experiência vivida. Um exemplo aparece no interesse pelo suposto fim da película por alguém que já nasce na era digital, estabelecido por materiais indiretos: emulações, descrições técnicas e relatos, bem como pelo acesso direto à película. Em certos casos, esse acesso equivale ao distanciamento da personagem ao ir à Hiroshima para tentar compreender o que foi Hiroshima. Mesmo com a possibilidade de acessar diretamente o regime fotoquímico, a experiência diante do trauma ocasionado pela revolução técnico-científico-informacional (Santos, 1994) permanece como coleta de fragmentos, confrontando a amnésia estratégica industrial: “é para descobrir que a verdade ou o ser repousa não na raiz do que sabemos e do que somos, mas na exterioridade de acidentes”. A noção de exterioridades de acidentes permite pensar em Hiroshima e as transformações técnicas como eventos que escapam à lógica linear de progresso. As “perversões epistemológicas” indicam a necessidade de métodos que lidam com fragmentos e reconfigurações (Parikka, 2021). O interesse no sentimento pós-guerra desloca-se para episódios de transgressão na história das mídias, associados às recorrentes “mortes” do cinema. Nesse sentido, a arqueologia das mídias também expõe como a investigação se dá atravessada pelos traumas gerados pelo progresso técnico. Nessa direção, aproxima-se do que Walter Benjamin propõe como atitude revolucionária, ao desmistificar o progresso e fixar o olhar na dor e na revolta moral nas ruínas que ele produz (Löwy, 2005). O trauma passa a atravessar os métodos, permanecendo ativo na forma como se lê e se organiza a experiência do pesquisador, produzindo sentido enquanto permanência.

Bibliografia

    LÖWY, Michael. Walter Benjamin: Aviso de incêndio: Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Tradução Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005. 160 p. Tradução de: Walter Benjamin: avertissement d’incendie:une lecture des thèses “Sur le concept d’histoire”

    PARIKKA, Jussi. O que é arqueologia das mídias. Tradução Maria Alice G.. 1 ed. Rio de janeiro: EdUREJ, 2021. 274 p. Tradução de: What is media archaeology?.

    SANTOS, Milton. Técnica, Espaço, Tempo: Globalização e Meio Técnico-Científico-Informacional. São Paulo: Hucitec, 1994.

    SILVA, Mateus Araújo. Glauber Rocha e Hiroshima mon amour: notas sobre um amor eclipsado. Literatura e Sociedade, São Paulo, Brasil, v. 25, n. 31, p. 113–132, 2020. DOI: 10.11606/issn.2237-1184.v0i31p113-132. Disponível em: https://revistas.usp.br/ls/article/view/177039. Acesso em: 26 abr. 2026.