Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Carolina Oliva Freire Pereira (UFMG)

Minicurrículo

    Mestranda no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFMG (Linha de pesquisa: Pragmáticas da Imagem). Bolsista CAPES. Bacharela em Som, Imagem e Movimento, com habilitação em Audiovisual (UFSB). Colaboradora no projeto de pesquisa Cinema e Audiovisual das Comunidades (CFAC/UFSB).

Ficha do Trabalho

Título

    “LIBERAR A VIDA LÁ ONDE ELA É PRISIONEIRA”: fabulação e mise-en-scène em Mato seco em chamas

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Este trabalho investiga a fabulação (Bergson, 2005; Deleuze, 2018) no longa-metragem Mato seco em chamas (2022), dirigido por Adirley Queirós e Joana Pimenta, privilegiando as três personagens principais e identificando as formas específicas de sua fabulação e as mise-en-scènes que cada uma delas solicita.

Resumo expandido

    A partir das elaborações sobre a função fabuladora de Bergson e Deleuze, este trabalho investiga a fabulação no filme Mato seco em chamas (2022), de Adirley Queirós e Joana Pimenta, privilegiando as três protagonistas e identificando as formas específicas de sua fabulação e as mise-en-scènes que cada uma delas solicita: Chitara, a rainha da kebrada; Lea, a lendária protetora da gasolina; e Andreia, a liderança do Partido do Povo Preso.
    Nossas análises descrevem como o filme joga com componentes da experiência biográfica das atrizes e procedimentos de invenção cinematográfica. Quanto à mise-en-scène, analisamos a combinação de duas dinâmicas.
    A primeira dinâmica vem da atuação das atrizes e da composição de suas personagens, atentos aos elementos sensíveis dos rostos e a como a trajetória pessoal de cada uma incide em suas atitudes corporais e nas inflexões da voz. Considerando o desenvolvimento da função fabuladora nas sociedades abertas, garantindo-lhe um caráter movente e impulsivo (Bergson, 2005), priorizamos a forma das fabulações em vez de seu conteúdo.
    Visto que o cinema não deve apreender a identidade de suas personagens reais objetiva ou subjetivamente, mas sim o seu devir – quando se põem a inventar personagens que ultrapassam o estado privado daqueles que fabulam – elevando suas fabulações à figura de lendas (Deleuze, 2018), a segunda dinâmica analisada é produzida por escolhas estilísticas dos diretores, como enquadramentos, escala dos planos e sua duração – manejados de modo a acolher os diferentes traços expressivos que as atrizes ganham no seu empenho ao atuar.
    Notamos que o filme propicia o início da fabulação como um primeiro passo, estimulando conversas entre as mulheres e hábitos corriqueiros de suas vidas (o fumo, as canções e idas ao culto), observando-as pacientemente até que a fabulação surja frente à câmera. Com a força da fabulação, as personagens entram no filme, cada uma à sua forma. Os cineastas incorporam as invenções das personagens na obra, mas propõem ações para que a narrativa caminhe – o que não significa que a fabulação pode ser circunscrita a um só momento, já que se incrusta no longa.
    Andreia e Chitara inclinam-se a jogar nas “regras da ficção”, seguindo com os arquétipos ficcionais propostos inicialmente, com atuações constantes; criam personagens sérias, misteriosas e poderosas. Poupam sorrisos e palavras, com maxilares tensos e olhares cerrados. As escolhas estilísticas dos diretores respondem a isso: cenas escuras, nem tudo é mostrado imediatamente. Elas são enquadradas em primeiro plano, espacialmente à frente de outras personagens, e em contra-plongée, denotando sua imponência.
    Lea constrói uma personagem vigilante, sempre à espreita. Sua presença na tela é ostensiva e magnética, mesmo nos planos abertos. Ela impõe respeito. Porém, a atriz apresenta atuação dinâmica, mais liberada da narrativa (mas não alheia). Num instante, tem as sobrancelhas franzidas e olhar fixo, muito atenta; no outro, está atônita, com sobrancelha arqueada e olhos arregalados. Logo o olhar amacia e ela nos oferece seu sorriso tímido quando ouve notícias do filho – revelando que a figura amedrontadora tem mais doçura do que poderíamos imaginar. Os diretores lançam mão, então, de planos longos, com ênfase para seu rosto, dando tempo para que a personagem se torne outra, nos revelando, a cada vez, uma nova faceta.
    Quando estão todas juntas, a presença de Lea parece impulsionar mudanças na atuação das demais gasolineiras, conferindo-lhes dinamismo, olhares e sorrisos que escapam do mote ficcional. Como se sua fabulação pudesse transmitir-lhes algo.
    Enfim, a fabulação dessas atrizes, ex-presidiárias, compartilha a liberação dos “fantasmas” e das percepções do que foram esses momentos na cadeia, “demasiadamente intoleráveis, da luta da vida com o que a ameaça” (Deleuze; Guattari, 2010), para então, livres do modelo de verdade que as penetra, criarem novas formas de vida nas quais não estão mais aprisionadas.

Bibliografia

    BERGSON, Henri. As Duas Fontes da Moral e da Religião. Coimbra: Almedina, 2005.
    DELEUZE, Gilles. As potências do falso. In: _____. Cinema 2: A imagem-tempo. São Paulo: Editora 34, 2018. p. 185-225.
    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Percepto, afecto e conceito. In: _____. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010. p. 193-235.