Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rafaela Maciel Barreto Soares (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Mestranda na PUC-Rio, pesquisa filme-ensaio e novas tendências do documentário contemporâneo no grupo de estudos IMADIS coordenado por Andréa França. É também professora de audiovisual nos projetos sócio-educativos do NEAM PUC-Rio e do Núcleo de Memória da PUC-Rio.

Ficha do Trabalho

Título

    Desktop documentary como uma pesquisa performática audiovisual

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    O seminário analisa os desktop documentaries de Lého Galibert-Laîné como prática de pesquisa performática e filme-ensaio. Seus trabalhos exploram a experiência espectatorial diante da tela digital, deslocando o cinema da representação para um espaço onde ver, pesquisar e criar se entrelaçam, articulando cinefilia contemporânea, afetos do espectador e novas formas de produção de conhecimento audiovisual.

Resumo expandido

    O objeto central deste seminário é o trabalho do cineasta e pesquisador Lého Galibert-Laîné, cuja produção se insere no campo dos desktop documentaries. O termo designa uma forma emergente de produção audiovisual que apresenta o mundo tal como é experienciado através de telas de computador e interfaces digitais. Nesse contexto, a tela do computador funciona simultaneamente como lente e superfície cinematográfica, concretizando seu potencial como meio artístico.

    Galibert-Laîné trabalha diretamente com filmes de outros realizadores, exibindo-os, pausando-os e decupando-os não com o intuito de desvendar significados ocultos, mas de explorar a experiência espectatorial que essas obras provocam. Seus trabalhos deslocam o foco da análise objetiva para a investigação das relações afetivas, cognitivas e sensoriais entre espectador e filme.

    Uma vez que Galibert-Laîné está no contexto acadêmico, suas produções podem ser compreendidas à luz do conceito de “pesquisa performática”, formulado por Bradley Haseman (2006) e posteriormente aplicado aos estudos fílmicos por Catherine Grant (2016). Nesse sentido, o fazer cinematográfico constitui simultaneamente método de investigação e forma de produção de conhecimento. O objetivo deste seminário é analisar como os filmes de Galibert-Laîné operam a partir dessa perspectiva, realizando não apenas vídeo-críticas, mas ensaios audiovisuais sobre a experiência pessoal do pesquisador-espectador, alinhados a um movimento contemporâneo de cinefilia e de investigação dos afetos no cinema.
    O ato de refletir e pesquisar sobre um filme, para um pesquisador contemporâneo habituado a esse mundo digital, se dá em grande parte em frente a tela; ensaiamos nossos pensamentos e percepções durante nossa pesquisa, em leituras que muitas vezes se dão em arquivos no computador, em filmes repetidamente assistidos e pausados em nossas pequenas telas. Produzimos nosso ensaio durante o processo- o resultado é a escrita. Por isso o termo essay (ensaio) é aqui tão precioso: apesar de utilizar filmes já existentes, esses vídeos não são apenas análises explicativas, mas são uma vertente de filme-ensaio. Timothy Corrigan irá chamá-los de “cinema refrativo”, e diz que a potência desse tipo de filme está justamente em investigar “para onde e como o cinematográfico pode nos forçar para além de suas fronteiras e nossas fronteiras, forçar-nos a pensar sobre um mundo e sobre nós mesmos, que necessária e crucialmente existem fora dos limites do cinema” (p. 191). Há ainda nesses filmes uma característica marcante do “gênero” filme-ensaio: uma reflexividade notadamente personificada na figura do realizador (ALMEIDA; DE MELLO, 2012), portanto, sua experiência com o filme.

    Em experimentos marcantes a serem destacados nesse seminário, o desktop cinema não apenas retrata a experiência na tela, mas também reflete criticamente sobre ela. Se o gênero documentário se destina a capturar a realidade da vida, o desktop documentary reconhece que as telas de computador são agora um modo primário de experiência diária preenchida por dados audiovisuais. E a experiência desktop é profundamente individual: ao conduzir o espectador por sua área de trabalho, o realizador expõe simultaneamente sua intimidade virtual e seu olhar sobre um espaço compartilhado por todos nós.
    Pretende-se, ao analisar a obra e metodologia deste cineasta, deslocar o cinema enquanto dispositivo de representação para um campo híbrido onde ver, pesquisar e criar se contaminam mutuamente. Os filmes de Galibert-Laîné não se limitam à crítica audiovisual das obras analisadas, mas configuram ensaios sobre a própria experiência da cinefilia, evidenciando novas formas de pensar o cinema, a pesquisa e a espectatorialidade na cultura digital contemporânea.

Bibliografia

    ALMEIDA, Gabriela Machado Ramos de; DE MELLO, Jamer Guterres. O ensaísmo no cinema: notas sobre abordagens teóricas possíveis. Revista Nexi, n. 2, 2012.

    Brad Haseman, “A Manifesto for Performative Research,” Media International Australia incorporating Culture and Policy 118, no. 1. Páginas 98–106. 2006.

    GRANT, C. “The audiovisual essay as performative research,” NECSUS European Journal of Media Studies 5, nº 2. 2016.

    CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio: Desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.

    GALIBERT-LAÎNÉ, L. What Scholarly Video Essays Feel Like. The Cine-files, v. 15, 2020.

    SCOTT, J. A invisibilidade da experiência. Projeto História, São Paulo, nº 16, p. 303-304, 1998.

    TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). O ensaio no cinema: Formação de um quarto domínio das imagens na cultura. São Paulo: Hucitec Editora, 2015.

    XAVIER, Ismail (org.) A experiência do cinema. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2018.