Ficha do Proponente
Proponente
- Clarisse Maria Castro de Alvarenga (UFMG)
Minicurrículo
- É professora na Faculdade de Educação na UFMG, onde atua como docente do Curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas (FIEI). Coordena a Casa de Cinema. Suas pesquisas situam-se na interface entre cinema, antropologia e educação, com ênfase em processos de criação e aprendizagem com imagens. Desenvolve investigações sobre cinema ameríndio, cinema amazônico, arquivos e acervos audiovisuais, práticas curatoriais, educação indígena e relações entre cinema e educação.
Ficha do Trabalho
Título
- Os mundos sem fim e o sem fim da imagem no Igarapé Omerê, em Corumbiara (RO)
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- Neste trabalho pretendo aproximar os filmes Corumbiara (2009) e Isolados de Corumbiara (2021) da série Arquivo aberto (2025), dirigidos pelo cineasta Vincent Carelli, sendo Arquivo aberto em parceria com a cineasta Ana Carvalho. Tanto os filmes quanto a série são ambientados no Igarapé Omerê, na Amazônia brasileira, envolvendo os povos Kanoê e Akuntsu. A proposta é especular possibilidades analíticas que o cinema feito por meio do encontro e reencontro com as imagens pode sugerir.
Resumo expandido
- Ao longo de 40 anos (1986-2026), Vincent Carelli realizou gravações no Igarapé Omerê, afluente da margem esquerda do rio Corumbiara, localizado na gleba de terra Corumbiara, no Sul de Rondônia, na Amazônia. Nesse mesmo período em que se inicia a narrativa de Corumbiara, em 1986, teve início o projeto Vídeo nas Aldeias que este ano completa 40 anos de (r)existência.
Em Corumbiara (2009), primeiro filmes realizado na região, o contato com os Kanoê e com os Akuntsu é tomado como fio condutor para contar a história das tentativas dos indígenas de sobreviver a investidas de fazendeiros que buscavam exterminá-los. Não por outro motivo, eles viviam em situação de isolamento nas terras que habitam originariamente, mas que tentaram sistematicamente destruir ao longo do tempo em função do interesse econômico desses mesmos empresários.
No conjunto, as filmagens compõem um arquivo constituído por 66 horas de gravações realizadas em diversos formatos (VHS, Hi-8, S-VHS, MiniDV e Betacam). Esse material, como seria de se esperar, apresenta inúmeras circunstâncias que, apesar de registradas, não entraram na edição final do primeiro filme, tendo sido preservadas sem circulação.
Entre as situações filmadas está aquela que posteiormente permitiu a realização de Isolados de Corumbiara (2021).
Isolados de Corumbiara apresenta montagem de quase uma hora de duração de um trecho específico do arquivo de Corumbiara, filmado em duas horas seguidas e de um ponto fixo com a câmera Hi-8 na mão: a sessão xamânica conduzida por Tiramantu a partir da inalação da semente de angico. Ao serem retiradas do arquivo e colocadas em relevo, as imagens vêm complexificar ainda mais o intrincado campo de visualidade que Corumbiara produzira. O trecho do segundo filme é citado em uma sequência de cerca de 5 minutos do primeiro filme. No entanto, na sequência que compõe Isolados de Corumbiara, a sessão xamânica é apresentada de forma ampliada, em sua duração.
Assim como o filme de 2009 passou por uma série de transformações ao longo do processo de realização, a existência da sessão xamânica de Tiramantu modifica o seu sentido e o campo de visualidade por ele criado. Seu interesse decorre de nos mostrar as relações entre a semente de angico, Tiramantu e o xamanismo feminino como aspectos fundamentais do contato entre povos e da resistência que fazem aos processos de extermínio, em diversos níveis.
Recentemtente, Vincent e seus parceiros, retornam a Corumbiara para devolver as imagens aos Kanoê e aos Akuntsu. A importância dos arquivos nessa cinematografia se deve a inúmeros fatores, entre eles o fato de possibilitarem ao cineasta restituir aos povos filmados suas imagens para que eles próprios possam tomar contato com suas imagens, rememorar e contar suas histórias. A obra de Vincent Carelli pode ser entendida como um conjunto de filmes mas também como um extenso arquivo, onde a relação entre filmes e arquivos é tornada visível de maneiras diferentes ao longo do tempo a partir de cada nova retomada das imagens .
A proposta deste trabalho é especular possibilidades analíticas que o cinema feito por meio do encontro e reencontro com as imagens no Igarapé Omerê pode sugerir no sentido de, por meio dos filmes, apontar para outras relações dos seres com as imgens.
Bibliografia
- Alvarenga, Clarisse. Contact Cinema and Female Shamanism at Igarapé Omerê: The Archive of Corumbiara (2009) and Isolados de Corumbiara (2021). In: Furtado, Gustavo; Conde, Maitê. The Handbook of Brazilian Cinema. Oxford University Press, 2026.
Alvarenga, Clarisse; Belisário, Bernard. O cinema-processo de Vincent Carelli em Corumbiara. In: Veiga, Roberta et ali. Limiar e partilha: uma experiência com filmes brasileiros. Belo Horizonte: PPGCOM UFMG, 2015.
Brasil, André. Mirada do invisível. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2025.
Felipe, Marcos Aurélio. Outras fronteiras do cinema. Colonialidade, contracolonização e cosmofilmias histórias nas cinematografias indígenas. Porto Alegre: Sulina, 2024.
Gonçalves, Marco Antônio. O sorriso de Nanook. Ensaios de antropologia e cinema. Rio de Janeiro: Mauad X, Faperj, 2022.