Ficha do Proponente
Proponente
- Ernesto David Pari Loaiza (UFF)
Minicurrículo
- Mestrando em Cinema e Audiovisual pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense – PPGCine-UFF, bolsista CAPES. Bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFF. Associado à Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual – SOCINE. Editor-chefe do Observatório de Cinema e Audiovisual da UFF – OCA-UFF e crítico no Club do Filme. Seus temas de interesse são: cinema latino-americano, teoria do cinema e música para cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- Manco Cápac: cinema de fluxo e colonialidade do poder
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- A comunicação investiga o filme Manco Cápac (2020), de Henry Vallejo, com base nos conceitos de cinema de fluxo, discorridos por Luiz Carlos Oliveira Jr., e da colonialidade do poder, desenvolvido por Aníbal Quijano. Discute-se como a mise en scène vagueante e a temporalidade dilatada do filme reiteram a precariedade neoliberal no Peru, cujos marcadores de colonialidade do poder se fazem presentes nas relações de trabalho e na discriminação, e como a cena final rompe com ambas as categorias.
Resumo expandido
- O longa-metragem Manco Cápac (2020), de Henry Vallejo, narra o cotidiano de Elisbán, jovem que chega à cidade do Puno e enfrenta a exclusão sistêmica do mercado de trabalho e da convivência urbana. Vallejo apresenta a racionalidade neoliberal do Peru contemporâneo por meio das categorias de trabalho, da identidade e do tempo. A presente comunicação pretende analisá-lo à luz dos conceitos de cinema de fluxo, discorrido por Luiz Carlos Oliveira Jr. em A mise en scène no cinema, e da colonialidade do poder, desenvolvido por Aníbal Quijano em Colonialidad y modernidade/racionalidad.
De início, utiliza-se o referencial de Oliveira Jr. para analisar o filme no contexto do cinema de fluxo contemporâneo. Argumenta-se que Manco Cápac abdica de elementos dramáticos para dar lugar a uma narrativa vagueante, em que o protagonista percorre a cidade, de um trabalho informal ao outro, com ocasionais paradas para o apreço de manifestações artísticas nas ruas, como danças folclóricas e apresentações de músicos de rua. A duração extensa dos planos, ademais, reforça a passagem do tempo e os deslocamentos espaciais. Sendo assim, o fluxo dilatado do filme reitera o caráter impermanente da precariedade capitalista, bem como trazem, ao migrante, a visibilidade que lhe é negada pela urbe.
Em seguida, amplia-se a debate social do filme com base no conceito de colonialidade do poder, proposto por Quijano. Conforme o sociólogo peruano, as discriminações étnicas são parte fundamental das estruturas coloniais de poder, pois são regidas por repressões sistemáticas a noções outras de mundo. Além disso, tal estrutura exige o desenvolvimento de uma noção sedutora do poder colonial, que as culturas não europeias passam a almejar e adotar em suas sociedades. Assim, ao analisar Manco Cápac por esse viés, é possível ver diversos marcadores da colonialidade do poder, desde o alicerce, as relações de trabalho na sociedade capitalista contemporânea, marcados pela precariedade de mão de obra, até a personificação do “cholo”, identidade étnica característica do povo andino, e a maneira como o protagonista é tratado, marcada pela indiferença e pela discriminação.
Por fim, tendo esses dois conceitos em mente, a comunicação dedica-se à reflexão da cena final, na qual, brevemente, vê-se Elisbán na praça, trabalhando como estátua viva de Manco Cápac, fundador do Império Inca. Esse gesto mostra-se como um rompimento radical tanto do fluxo, pela imobilização do sujeito vagueante, quanto da colonialidade, pois retoma o período histórico anterior à colonização espanhola. Sua figura, feita de sucata, decompõe a imagem do indigente para compor a imagem do imperador. Dessa forma, Manco Cápac se encerra com a ruptura da natureza do cinema de fluxo e destruição da colonialidade do poder mundial, ou seja, com uma verdadeira metamorfose da mise-en-scène, da identidade e do mundo.
Bibliografia
- MORVELI, Jorge Terán. Los Andes en el cine peruano. Una lectura sobre los imaginarios coloniales desde los Estudios Culturales. Lima: Pakarina Ediciones, Fondo Editorial de la Facultad de Letras y Ciencias Humanas de la Universidad Nacional Mayor de San Marcos, 2025.
OLIVEIRA JR., Luiz Carlos. A mise en scène no cinema: Do clássico ao cinema de fluxo. São Paulo: Papirus, 2013.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidade/racionalidad. Lima: Perú Indígena. 13(29): 11-20, 1992.
VICH, Cynthia; BARROW, Sarah (org.). Cine Peruano de inicios del siglo XXI. Dinamismo e incertidumbre. Lima: Universidad de Lima, Fondo Editorial, 2021.