Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Henrique Nogueira Neme (PUC-SP)

Minicurrículo

    Henrique Nogueira Neme (1992) é assistente de direção, continuista e montador graduado em Cinema e vídeo (FAAP). É mestre e doutorando (PPGCOS/PUC-SP) com pesquisa financiada por bolsa CNPq. Integra o Grupo de Pesquisa eXtremidades: redes audiovisuais, cinema, performance e arte contemporânea (www.extremidades.art).

Ficha do Trabalho

Título

    Corpos nas extremidades: ressignificações do cinema e outras imagens de mundo

Mesa

    Corpos nas extremidades: ressignificações do cinema e outras imagens de mundo

Resumo

    A partir da “abordagem das extremidades” (Mello, 2017), a presente mesa busca analisar três práticas audiovisuais: uma videoinstalação que tensiona processos de invisibilidade indígena em São Paulo, um videoclipe de funk constituído como manifesto antirracista e um filme cambojano que explora os efeitos de presença do corpo enquanto guardião da memória. Discute-se como as extremidades que atravessam corpos, mundos e linguagens ressignificam o cinema e abrem brechas para os “mundos sem fim”.

Resumo expandido

    Esta mesa parte da “abordagem das extremidades” (Mello, 2017), como instrumental de leitura, na análise do signo das extremidades entre corpos, mundos e linguagens, destacando seus processos de descentralização, suas zonas limítrofes e tensionadas. Este tipo de abordagem considera que habitar as extremidades exige ao leitor crítico estar implicado com o que está em análise, exige ter que situar o que se observa de um outro lugar. Tem como objetivo enfatizar, nas análises, os procedimentos das extremidades, no caso, as operações de desconstrução, contaminação e compartilhamento, que produzem tais desestabilizações bem como o lugar dos extremos.

    1. Os passos semeiam o caminho (2026) de Cristiana Miranda (Rio de Janeiro, 1966) – (Apresentação de Cristiana Miranda) – O trabalho propõe uma videoinstalação imersiva na Casa da Imagem, integrante do Museu da Cidade de São Paulo, justapondo imagens botânicas da Mata Atlântica à presença do ancestral Caminho de Peabiru no mapa contemporâneo da capital, especificamente nas proximidades do Pateo do Collegio. Por meio de procedimentos desconstrutivos e de uma cartografia sensível, a obra tensiona o apagamento da topografia natural e indígena da cidade. Aqui, o corpo da floresta – processado botanicamente – soma-se à narrativa urbana, revelando a natureza como parte de uma arqueologia da memória. Discute-se como o cinema expandido pode potencializar um dissenso em relação à história oficial, transformando o espaço urbano em um espaço comunicacional de múltiplas camadas, onde o percurso do corpo é um ato político de reinvenção das formas de presença na cidade.

    2. Desabafo 2 (2025) de MC Poze do Rodo (Rio de Janeiro, 1999) – (Apresentação de Christine Mello e Lindolfo Roberto Nascimento) – O videoclipe é analisado como um manifesto contra o racismo institucional, algorítmico, midiático. Partindo da “abordagem das extremidades”, destacamos que a obra emerge em um “fim de mundo”, instaurado pela criminalização racializada do funk e de seus corpos periféricos. Ao rearticular imagens de sua própria prisão e soltura (amplamente difundidas pelas redes) sob um regime de urgência, Poze do Rodo tenciona os regimes de visibilidade que produzem o funkeiro como figura criminosa. Dialogando com Achille Mbembe (racismo como produção de simulacros), o videoclipe ativa, através de sons e imagens, contranarrativas que reconstroem o sujeito negro em sua dimensão coletiva e humana. É um gesto de reinvenção de mundo que emerge nas brechas dos compartilhamentos existentes nas plataformas digitais em rede, onde corpos negros assumem o controle dos discursos sobre si e criam suas próprias narrativas.

    3. White Building (2021) de Kavich Neang (Phnom Penh, 1987) – (Apresentação de Henrique Nogueira Neme) – Partindo da extremidade entre corpo do filme, corpo no filme e corpo do observador, propomos uma reflexão da “temporalidade espiralar” (Leda Maria Martins, 2021) como operadora de presença no filme de Kavich Neang. O filme acompanha moradores de um edifício prestes a ser demolido em Phnom Penh, e seus corpos enquanto “guardiões da memória” (Martins, 2021). Ao entrecruzar passado (a ditadura do Khmer Vermelho), presente (a luta contra o despejo) e futuro (o progresso neoliberal que os exclui), White Building desordena perspectivas fundadas na branquitude. De que maneira essa temporalidade espiralar produz imagens de vida, que contaminam as imagens de morte correlacionadas com a condenação do prédio, recusando a obsolescência acelerada propagada pelo progresso neoliberal?

    Com a “abordagem das extremidades”, as três reflexões propõem modos de compreender rupturas com os regimes de representação das imagens, que estão prestes a ruir. É nesse movimento que compreendemos que “fins de mundo” se transmutam em “mundos sem fim” – não pela negação da violência, mas por sua torção estética e política. A mesa convida o público a habitar essas outras imagens de mundo (Mello, 2024).

Bibliografia

    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021b.

    MELLO, Christine. Extremidades: experimentos críticos. In: MELLO, Christine (org.). Extremidades: experimentos críticos: redes audiovisuais, cinema, performance, arte contemporânea. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2017. p. 12-18.

    MELLO, Christine. Por outras imagens do mundo: arte, mídia, política. In: CYPRIANO, Fabio; ARANTES, Priscila (org.). Artes e práticas culturais. São Paulo: Educ, 2024. p. 175-194

    SILVA, Tarcízio. Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais. São Paulo: Editorial Medusa, 2022.

    VIEIRA JÚNIOR, Erly. Realismo sensório no cinema contemporâneo. Vitória: EDUFES, 2022.