Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Virgínia Generoso Peçanha (UFSCAR)

Minicurrículo

    Graduada em História (FH/UFG, 2014), em Relações Internacionais (FCS/UFG, 2019) e mestre em Ciência Política (2021, PPGCPRI/UFG) pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente, é concluinte da graduação em Cinema e Audiovisual na Universidade Estadual de Goiás (UEG), e mestranda no Programa de Pós Graduação em Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos (PPGIS/UFSCar), na linha de pesquisa em História e Políticas do Audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Memória audiovisual: Guaralice Paulista e a produção de memória no cinema goiano

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    A pesquisa investiga a produção fotográfica de Guaralice Paulista como registro das atividades cineclubistas e do fazer cinematográfico em Goiás, evidenciando processos, bastidores e preservação da memória audiovisual. A análise combina história oral e interpretação das imagens como veículos de significados e contextos, contribuindo para uma memória audiovisual mais plural, reconhecendo mulheres como produtoras de memória e sujeitos históricos.

Resumo expandido

    Por que uma fotógrafa mulher, até hoje pouco estudada, pode nos ajudar a compreender a história do cinema goiano? Essa questão é uma das que orienta a presente pesquisa de mestrado, em fase de reconfiguração. Inspirada em Perrot (2005), que propõe “tornar visível o que estava escondido” e desnaturalizar o silêncio historiográfico sobre as mulheres, a investigação elege a atuação e o acervo fotográfico de Guaralice Paulista como seu objeto central. As reflexões de Pedro (2005) sobre gênero como categoria de análise também fundamentam a abordagem, especialmente ao se tratar de uma profissional cuja trajetória permaneceu à margem dos relatos canônicos sobre o audiovisual goiano.

    Guaralice Paulista integrou o Cineclube Antônio das Mortes (CAM), fundado em Goiânia entre 1977 e 1978. O CAM foi um espaço ativo de formação crítica e cultural, promovendo exibições, debates, grupos de estudo, críticas de cinema e produções audiovisuais. No âmbito do cineclube e em outras frentes do cinema goiano, Guaralice não se limitou à função de fotógrafa: atuou também como atriz, diretora de arte, assistente de câmera e operadora de câmera. Essa pluralidade de ofícios evidencia sua participação em diferentes etapas da criação cinematográfica. As imagens que produziu, em particular, não se limitam a documentar as atividades cineclubistas: elas flagram o próprio fazer cinematográfico – as sessões, os debates, os sets de filmagem, os bastidores. Desse modo, o olhar fotográfico de Guaralice torna-se via de acesso privilegiada para a história do cinema goiano, suas dinâmicas de produção e circulação, bem como para os processos de visibilidade e apagamento – especialmente de sujeitos femininos – nesse campo.

    Do ponto de vista metodológico, a pesquisa articula duas vertentes. A primeira é a história oral, nos termos de Meihy (2000), visando reconstituir a trajetória de Guaralice e conectá-la ao contexto mais amplo do cineclubismo goiano. Serão realizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade. A segunda vertente é a análise do acervo fotográfico. As imagens são compreendidas não como reflexos neutros, mas como documentos que carregam significados e contextos implícitos, cuja interpretação se beneficia do cruzamento com entrevistas e observações (Kossoy, 2001). Nessa perspectiva, a fotografia opera como ferramenta de investigação e como suporte material que pode transfigurar o tempo, trazendo à luz experiências subjetivas e momentos do trabalho cinematográfico (Sontag, 2004; Oliveira, 2021). A história oral, simultaneamente, permite acessar vivências mesmo quando afetadas por lapsos ou reelaborações da memória, contribuindo para situar a trajetória individual de Guaralice no interior das práticas de produção audiovisual (Iturmendi, 2008).

    Em síntese provisória, a fotografia de Guaralice Paulista, somada à sua atuação em múltiplos ofícios do fazer cinematográfico, oferece mais do que um registro visual das atividades cineclubistas: ela constitui uma crônica visual do cinema goiano, iluminando agentes e etapas de criação frequentemente negligenciados. Ao conectar imagem, história oral e debates sobre gênero e visibilidade histórica (Perrot, 1995; Pedro, 2005), a pesquisa aponta para a construção de uma memória audiovisual menos excludente. Nela, mulheres como Guaralice, inteiramente omitidas na historiografia habitual ou reduzidas ao papel de coadjuvantes, passam a ser reconhecidas como produtoras de memória e sujeitos da história do cinema em Goiás.

Bibliografia

    CAMPOS, Marina da Costa. O Cineclube Antônio das Mortes: trajetória, exibição e produção (1977-1987). 2014. 282 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Humanas) – UFSCAr, São Carlos,2014.
    DE OLIVEIRA, Aryanne S. Q. Um olhar sobre dois olhares: Perspectivas de Vilém Flusser e Susan Sontag acerca da imagem e do ato de registrá-la. Contexto: Revista de Ciências Humanas da FAFIC/UERN, v. 4, n. 4,2021.
    ITURMENDI, David M. La historia oral como método de investigación histórica. Gerónimo de Uztariz, n. 23/24, p. 227-233,2008.
    KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
    MEIHY, José C. S. B. Manual de História oral. São Paulo: Loyola, 2000.
    PEDRO, Joana M. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História, São Paulo, v. 24, n. 1, p. 77-98, 2005.
    PERROT, Michelle. Escrever uma história das mulheres: relato de uma experiência. Cadernos Pagu, Campinas, p. 9-28, 1995.
    SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004.