Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Katharina Cotrim (USP)

Minicurrículo

    Estudante de mestrado em Letras no programa de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Possui graduação em Letras com dupla habilitação em Português e Inglês pela Universidade de São Paulo (2023). Interesses de pesquisa abrangem poesia, literatura norte-americana, literatura e sociedade, crítica materialista e literatura e cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    A relação entre espaço e corpo em “Toni Erdmann”, de Maren Ade

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Esta proposta de comunicação pretende analisar como espaço e corpo se articulam no longa-metragem “Toni Erdmann” (Maren Ade, 2016), operando como categorias estéticas e políticas. A presença perturbadora de Winfried/Toni nos espaços corporativos de Bucareste expõe o corpo disciplinado pelo neoliberalismo, tensionado pela performance como dispositivo crítico. A análise fílmica ancora-se em Harvey, Jameson e Dardot & Laval.

Resumo expandido

    “Toni Erdmann” (Maren Ade, 2016) narra o encontro entre Winfried Conradi, professor de música com inquietações humanistas, e sua filha Ines, consultora responsável por processos de terceirização na indústria petrolífera em Bucareste, Romênia. O conflito entre pai e filha materializa, no espaço fílmico, uma contradição mais ampla: aquela entre o sujeito neoliberal — forjado segundo as categorias de desempenho, competitividade e autogestão descritas por Dardot e Laval (2016) — e a possibilidade de uma experiência corporal e afetiva que o exceda ou o questione. Este trabalho propõe analisar de que forma espaço e corpo se articulam no filme, operando como categorias decisivas tanto para a construção das personagens quanto para a produção de um comentário estético e político sobre a contemporaneidade.
    A análise parte de dois eixos complementares. O primeiro diz respeito ao espaço geográfico e narrativo: o filme se passa entre cidades alemãs (prólogo e epílogo) e Bucareste (desenvolvimento), e essa disposição não é arbitrária. A capital romena é representada como metrópole de negócios — um espaço em que não se está, mas pelo qual se transita com fins produtivos. Restaurantes, hotéis, danceterias e shopping centers configuram ambientes de sociabilidade protocolar, marcados pelo inglês como língua franca e pelo acesso seletivo. Nesse contexto, a presença de Winfried — e depois de seu alter ego, Toni Erdmann — produz um desajuste sistemático: seu corpo não se mescla ao espaço corporativo, mas o perturba, forçando o enquadramento a se ampliar, deslocando o centro da ação.
    O segundo eixo trata da performance como dispositivo de tensionamento desse espaço. A figura de Toni Erdmann, alter ego duplamente encenado, mobiliza recursos da performance enquanto gênero artístico — uso do corpo como sujeito, fusão de linguagens, destruição dos limites do environment e convocação do espectador à participação —, conforme a tradição descrita por Glusberg (2013). Ao infiltrar-se nos espaços de Ines, Toni não apenas denuncia as encenações que constituem o mundo corporativo, mas também expõe o modo como o próprio corpo de Ines é disciplinado por esse espaço: sua gestualidade, sua dicção em inglês, sua mobilidade dependente do automóvel são sintomas de uma subjetividade que o filme submete ao escrutínio.
    A câmera, operada à mão em movimentos sutis, recusa o apagamento do ato de filmar e se insere como agente na cena, contribuindo para a construção de um ponto de vista crítico sobre os espaços retratados. O enquadramento recorrente em plano americano, que pouco revela além das personagens, contrasta com os momentos em que Winfried ou Toni ampliam o quadro pela sua simples presença deslocada. Essa estratégia formal articula o comentário político do filme: a paisagem capitalista, como argumenta Harvey (2005), não é um pano de fundo neutro, mas uma produção que expressa e reproduz as contradições do sistema.
    O trabalho ancora-se nos estudos de Harvey sobre a produção capitalista do espaço e a experiência pós-moderna (1992; 2005), na análise cultural de Jameson (1991) sobre a primazia das categorias espaciais na contemporaneidade, e nas reflexões de Dardot e Laval (2016) sobre o sujeito neoliberal. A metodologia proposta combina a análise fílmica quadro a quadro com o levantamento da fortuna crítica do filme — ainda reduzida no contexto acadêmico brasileiro e internacional.

Bibliografia

    DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
    HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
    HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
    JAMESON, Fredric. Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism. Durham, NC: Duke University Press, 1991.
    JAMESON, Fredric. Pós-modernidade e sociedade de consumo. Novos Estudos. vol. 12, n. 2, pp. 16-26. 1985)
    SOARES, Marcos César de Paula; KRUGER, Patrícia de Almeida. Encenando a modernização europeia: Toni Erdmann, de Maren Ade. Pandaemonium ger. [online]. 2020, vol. 23, n. 39, pp. 86-110. Epub Dec 05, 2019. ISSN 1982-8837.
    WILLIAMS, Raymond. The country and the city. New York: Oxford University Press, 1973.
    XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. 3ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2005.