Ficha do Proponente
Proponente
- Daniela Pereira Strack (UFRGS)
Minicurrículo
- Doutoranda e mestre em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS (com bolsa Capes), graduada em Produção Audiovisual – Cinema e Vídeo pela PUCRS (2014). Sua dissertação de mestrado “A sobrevivência de imagens da Belair na obra da cineasta Helena Ignez” recebeu menção honrosa no prêmio Socine de Teses e Dissertações (2023). Integra o Grupo de Pesquisa em Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC), linha “Agenciamentos da Imagem”. É professora do Curso de Realização Audiovisual da Unisinos.
Ficha do Trabalho
Título
- Três vezes uma imagem: estética do reemprego no cinema de Júlio Bressane
Resumo
- Esta comunicação tem como objetivo analisar o reemprego de uma mesma imagem em três filmes do cineasta Júlio Bressane: A família do barulho (1970), Memórias de um estrangulador de loiras (1971) e Garoto (2015), investigando de que modo as estratégias de apropriação de imagens preexistentes dialogam ou tensionam o que compreendemos como uma estética do reemprego no cinema.
Resumo expandido
- A produção contemporânea de Júlio Bressane, em especial sua colaboração com o diretor e montador Rodrigo Lima, caracteriza-se pelo uso recorrente de práticas de reemprego cinematográfico. Seus dois últimos longas-metragens, A longa viagem do ônibus amarelo (2023) e Relâmpagos de críticas murmúrios de metafísicas (2024), são filmes feitos de filmes, o que significa dizer que eles são realizados inteiramente a partir da apropriação de imagens preexistentes. O primeiro propõe uma viagem com mais de sete horas de duração pela filmografia de Bressane, reorganizando trechos de seus filmes precedentes a partir de motivos sonoros e visuais. O segundo, por sua vez, propõe um novo olhar sobre a história do cinema brasileiro ao entrelaçar cenas de 48 filmes, de diferentes cineastas, realizados entre 1898 e 2022.
Para Nicole Brenez (2021), experiências como essas tem fortes raízes nos movimentos artísticos das vanguardas europeias do início do século XX, nas quais os artistas assumem uma posição analítico-reflexiva diante dos fatos visuais e da elaboração da história, sedimentando uma cultura do reemprego de intenção crítica. A partir daí, o próprio cinema passa a investigar suas imagens e sons de maneira endógena, mobilizando estratégias de reemprego que vão da intertextualidade à reciclagem de materiais preexistentes (Brenez; Chodorov, 2014), até assumir a sua dimensão mais radical no cinema experimental de Found Footage.
A filmografia recente de Júlio Bressane e Rodrigo Lima parece beber nessa tradição. Ambos os filmes engendram um pensamento crítico visual sobre o próprio cinema a partir de procedimentos formais de montagem, em suas dimensões técnicas e intelectuais, fazendo uso de materiais preexistentes. Essa centralidade da montagem no que diz respeito às práticas de reemprego é desenvolvida de modo mais explícito por Christa Blümlinger (2013). Para a autora, o cinema possui uma especificidade em relação às outras artes porque sempre portou nele mesmo, seja em termos culturais, seja em termos técnicos, a possibilidade de suscitar reproduções e novas constelações. Para além de uma prática pontual, há uma estética do reemprego inscrita nas imagens em movimento, relacionada tanto à sua possibilidade de reprodução técnica quanto aos procedimentos de montagem fílmica. Assim, o ato de “incorporação e repetição por meio da citação ‘direta’, no cinema, representa em dada medida uma tautologia, já que um filme, materialmente falando, constitui sempre uma cópia.” (Blümlinger, 2013, p. 11, tradução nossa).
Se a estética do reemprego pode ser pensada em uma dimensão tautológica no cinema, isso nos leva a observar mais atentamente outras manifestações possíveis desses procedimentos no cinema de Júlio Bressane, com especial atenção aos seus filmes de ficção. A família do barulho (1970), por exemplo, incorpora imagens de arquivo pessoais da família do realizador em sua sequência de abertura (Foster, 2020), mas é uma imagem que integra os minutos finais do filme que será o centro da nossa análise. Na penúltima sequência do filme, há um momento em que Helena Ignez encara a câmera em um close-up e, após alguns segundos, começa a expelir uma baba escura e espessa dos seus lábios.
Esta mesma imagem será retomada por Júlio Bressane em dois de seus filmes de ficção, Memórias de um estrangulador de loiras (1971) e Garoto (2015). No filme de 1971, o mesmo plano de Helena Ignez é incorporado na montagem, mas assumindo uma função narrativa distinta, sem relação evidente com o filme de origem. Já em 2015, a mesma imagem reaparece, mas agora pela via da reencenação, quando Marjorie Estiano repete as mesmas ações de Helena Ignez em um contexto bastante diferente. Assim, nossa comunicação objetiva analisar o reemprego de uma mesma imagem em três filmes distintos de Júlio Bressane, investigando de que modo os diferentes procedimentos dialogam ou tensionam o que compreendemos como uma estética do reemprego no cinema.
Bibliografia
- BLÜMLINGER, Christa. Cinéma de seconde main : esthétique du remploi dans l’art du film et des nouveaux médias. Paris : Klincksieck, 2013.
BRENEZ, Nicole. “Montage intertextuel et formes contemporaines du remploi dans le cinéma experimental”. Cinémas: revue d’études cinématographiques/ Cinémas: Journal of Film Studies, vol. 13, n° 1-2, 2002.
BRENEZ, Nicole. O homem dotado de imagem: reempregos críticos segundo Peter Tscherkassky, Jean-Luc Godard, Andrei Ujică e Marylène Negro. Revista Laika, v. 4, n. 7, 2021, p. 1-20.
BRENEZ Nicole, CHODOROV Pip. Cartografia do Found Footage, Revista Laika, S. l., v. 3, n. 5, 2014, p 1-11.
FOSTER, Lila. O gesto amador no cinema de Julio Bressane. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, 2020, p. 311-333.