Ficha do Proponente
Proponente
- Sofia Lopes Lacerda (UFF)
Minicurrículo
- Sofia Lopes Lacerda é mestranda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF), na linha de pesquisa Narrativas e Estéticas, onde desenvolve investigação sobre arte e ciência no cinema. É licenciada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua profissionalmente como pesquisadora de imagem e conteúdo para projetos audiovisuais.
Ficha do Trabalho
Título
- Filmar a poesia vulcânica das rochas: Werner Herzog e as imagens de Katia e Maurice Krafft
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- A pesquisa investiga a tensão estabelecida entre o conhecimento científico e as práticas do cinema, tendo como estudo de caso o encontro do cineasta Werner Herzog com as imagens dos vulcanólogos Katia e Maurice Krafft. Partindo da discussão sobre as fronteiras entre ciência e ficção e a noção herzogiana de Verdade Extática, analiso como o gesto fílmico de Herzog em O fogo interior (2022) opera como pensamento sobre o mundo, transmutando a noção de objetividade em uma poética do sublime.
Resumo expandido
- O intuito da apresentação será pensar certa tensão estabelecida entre o conhecimento científico e as práticas do cinema, tendo como estudo de caso o encontro do cineasta Werner Herzog com as imagens dos vulcanólogos Katia e Maurice Krafft. Interessa aqui observar como o cinema, ao apropriar-se de registros produzidos sob a prevalência do rigor técnico e da catalogação de fenômenos naturais, tensiona o estatuto dessas imagens. No caso dos Kraffts, registros estes que já apresentam em si uma acentuada dimensão estética e performativa, como apresenta Herzog: “Pouco a pouco, eles se tornaram cineastas: […] são artistas que nos carregam, seus espectadores, através de um reino de estranha beleza”.
Historicamente, a cisão entre arte e ciência é fruto de uma série de mudanças nas nossas formas de estudar e imaginar o mundo, experienciadas ao longo dos séculos XVIII e XIX. Nesse aspecto, a noção de objetividade, que se instalou nos meios científicos em meados do século XIX, foi parte importante do coroamento dessa ruptura, tendo o automatismo do processo fotográfico como uma das grandes promessas (Daston; Galison, 2007). É nesse momento que a subjetividade é banida da pesquisa científica, devendo permanecer apenas no domínio das práticas artísticas. Tal banimento, no entanto, nunca se deu de forma completa, e a fotografia ficou justamente no espaço de tensão entre os dois registros. A relação entre o cinema e a ciência, por sua vez, parece amplificar e realçar essa tensão entre o objetivo e o subjetivo, como demonstra Gaycken (2015) em sua análise do cinema científico das primeiras décadas do século XX. Jean Epstein, por sua vez, defendeu que a singularidade do cinema reside em sua capacidade de sintetizar arte e ciência em uma nova forma de conhecimento, simultaneamente estética e epistemológica (Bezerra, 2020).
Na linha dessas discussões, Herzog apresenta uma postura bastante específica em relação ao papel do cinema frente à objetividade: “Fatos criam normas, e a verdade, esclarecimento. Existem camadas mais profundas da verdade no cinema, e há algo como uma verdade poética, extática. É misteriosa e elusiva, e pode ser alcançada apenas pela imaginação e pela estilização” (Herzog, 1999). Extática, como ressaltam Frazão e Ribeiro (2020), remete ao “êxtase no mesmo sentido da palavra em grego ekstasis (ir para fora de si mesmo)”, distanciando-se de uma noção “objetiva” de verdade para privilegiar formas poéticas de relação com o real.
No entanto, ao mesmo tempo em que se distancia de uma noção de objetividade, a noção de Verdade Extática mantém a ideia de verdade em primeiro plano. O cinema de Herzog aparece comprometido com uma busca de conhecimento pelo mundo, onde haveria uma verdade a ser desvelada. Nesse contexto, as imagens dos Kraffts emergem como uma espécie de ponto de condensação dessas tensões: registros que são simultaneamente científicos e performativos, que testemunham a força incomensurável da Terra ao mesmo tempo em que evidenciam o êxtase em tentar compreendê-la.
Espera-se, enfim, que a pesquisa demonstre como o gesto de remontagem feito por Herzog opera uma transmutação do arquivo, em que a imagem-documento se torna veículo de uma investigação sobre a imagem e o real. Com esse intuito, a apresentação será organizada em três movimentos. No primeiro, contextualizo a relação entre a produção de imagens e o conhecimento científico, delineando o modo como práticas visuais participam da construção de saberes. A partir desse enquadramento, passo, no segundo momento, a examinar a maneira como Herzog se relaciona com a produção de conhecimento em seus filmes – tanto pela presença da ciência como tema e personagem quanto pelo modo como seu próprio gesto fílmico opera como pensamento sobre o mundo, especialmente em diálogo com a noção de Verdade Extática. Por fim, o terceiro momento apresenta uma análise de O fogo interior: um réquiem para Katia e Maurice Krafft (2022), no qual essas questões aparecem de maneira inconteste.
Bibliografia
- BEZERRA, Julio. Antifilosofia: Jean Epstein e realismo especulativo. Intexto, p. 229–245, 2020.
DASTON, Lorraine; GALISON, Peter. Objectivity. New York: Zone Books, 2007.
FRAZÃO, Jéssica Pereira; RIBEIRO, Regiane Regina. O cinema romântico de Werner Herzog: aproximações entre o Romantismo Alemão e o conceito de Verdade Extática. Intexto, p. 246–263, 2020.
GAYCKEN, Oliver. Devices of Curiosity: Early Cinema and Popular Science. Nova Iorque: Oxford University Press, 2015.
HERZOG, Werner. Werner Herzog reads his Minnesota Declaration: truth and fact in documentary cinema. Walker. Disponível em: https://walkerart.org/magazine/minnesota-declaration-truth-documentary-cinema-1999. Acesso em: 25 mar. 2026.