Ficha do Proponente
Proponente
- Henrique Rodrigues Marques (UNICAMP)
Minicurrículo
- Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Multimeios, no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, desempenhando pesquisa sobre representações e memória do hiv/aids no cinema brasileiro. Mestre pela mesma instituição. Bacharel em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos. Docente na Universidade São Judas Tadeu. Além de pesquisador, atua como curador, tendo atuado em festivais como a MOSCA e o Festival Internacional de Curtas Metragens (Kinoforum).
Ficha do Trabalho
Título
- “Tem um clima de terror por aí”: a pornografia e o horror nos primeiros filmes sobre aids no Brasil
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- Na peculiar história do cinema brasileiro, a aids surge no momento em que a produção de filmes pornográficos da Boca do Lixo correspondia ao maior percentual de filmes feitos no Brasil no ano de 1985. Analisando os primeiros filmes sobre aids no Brasil, nota-se uma peculiar coexistência entre elementos do cinema pornográfico e códigos do gênero do horror. O presente trabalho propõe uma leitura ancorada nos estudos dos gêneros do corpo e das visualidades hápticas para compreender este fenômeno.
Resumo expandido
- Segundo relata Perlongher, foi em fins do ano de 1982 que os primeiros diagnósticos de aids aconteceram no Brasil, detectados pela dermatologista Valéria Petri (1987). Traçando uma linha do tempo mais extensiva, Trevisan complementa dizendo que em abril de 1984, já se registrava 70 diagnósticos comprovados no Brasil (2018). Perlongher determina como marco de virada a morte do teatrólogo Roberto Galizia, no verão de 1985, dando início a uma segunda onda de pânico: “Os rituais da agonia seriam, doravante, reciclados insistentemente pela mídia” (1987, p. 53).
E foi no mesmo ano da morte de Galizia que o ator e cineasta David Cardoso dirigiu o polêmico ‘Estou com AIDS’ (1985). Em seu cartaz, o filme expunha a taxativa de ser “O primeiro filme realista do mundo a mostrar a doença cuja única saída é a morte.” Como constata Nemi Neto, o próprio pôster de divulgação já propaga, de antemão, o discurso que relaciona inevitavelmente vírus e morte, deixando “claro que não existe esperança para os infectados; a morte é o único resultado” (2022, p. 78).
O cartaz já anuncia também a estrutura narrativa, marcada pela utilização de códigos do gênero horror. Como reconhece Nemi Neto, “Não obstante a perspectiva documental da obra, seus dispositivos formais (como técnicas de montagem e de edição de som) efetivamente se assemelham aos de um filme de horror, substituindo o tom objetivo do documentário por um efeito sensacionalista e amedrontador” (2022, p. 80). Desde a abertura, a trilha sonora já se apresenta como uma presença macabra. Não obstante, nos momentos em que representa os corpos deteriorados pela doença, o filme se aproxima formalmente do subgênero body horror (feridas hiperbólicas, olheiras cadavéricas, vômitos radioativos), e a trilha se torna incômoda, desregulada e espectral.
Também lançados em 1985, outros três filmes pornográficos da Boca do Lixo se apropriam de códigos de horror para abordar o pânico da aids: ‘AIDS – Furor do sexo explícito’ (Fauzi Mansur), ‘Sexo de todas as formas’ (Juan Bajon) e ‘Hospital da corrupção e dos prazeres’ (Rajá de Aragão). Em ‘AIDS – Furor do sexo’, por exemplo, os créditos iniciais nos apresentam a equipe enquanto vemos cenas de atividade sexual, na estética explícita da pornografia, com a imagem em negativo, insinuando uma inversão dos valores do sexo: indo do prazer que gera a vida ao horror que condena à morte. Como define Nemi Neto, “o filme compreende a AIDS como um tipo de vírus zumbi de propagação instantânea” (2022, p. 73).
Todos os três filmes pornográficos, apesar de diferentes abordagens da temática do hiv/aids, compartilham com ‘Estou com AIDS’ a utilização de códigos do cinema de horror de maneira arbitrária e até mesmo deslocada dentro da atmosfera de desbunde cômico, onipresente nos filmes de sexo explícito produzidos na Boca do Lixo. Em outro momento de ‘AIDS – Furor do sexo explícito’, temos uma cena de tortura na qual uma mulher é obrigada a assistir um homem nu e com o rosto coberto por um capuz utilizando o crânio de uma besta para se masturbar. Em estado de frenesi, ele geme de prazer e dor enquanto as presas da fera morta rasgam feridas em seu pênis que começa a sangrar com a violência da fricção. Perto do final, ele força os dentes incisivos do crânio em sua glande peniana, como que querendo executar uma autocastração. Os outros dois filmes também possuem cenas envolvendo cadáveres de animais como elementos catalisadores de erotismo dentro de um cinema pornográfico que, por definição, tem como principal objetivo a excitação sexual da audiência.
Ancorado nos trabalhos de Williams, Cánepa, Leite Jr, Marks e Sobchack, esse trabalho pretende estabelecer uma análise comparativa do horror e do pornográfico enquanto gêneros do corpo, capazes de causar reações corporais no espectador através das visualidades hápticas. Ao abraçar o bizarro, essas produções mesclam códigos da pornografia e do horror, tornando difusa nossa fascinação com o grotesco, mesclando excitação e ojeriza.
Bibliografia
- ABREU, N. Boca do Lixo: cinema e classes populares. Campinas: Editora Unicamp, 2006.
CÁNEPA, L. Pornochanchada do avesso: o caso das mulheres monstruosas em filmes de horror da Boca do Lixo. E-Compós, v. 12, n. 1, p. 1-14, 2009.
LEITE JÚNIOR, J. A pornografia é um morto-vivo?. Crítica Cultural, v. 9, n. 2, p. 179-195, 2014.
MARKS, L. Touch: Sensuous theory and multisensory media. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2002.
MATHIJS, E. AIDS references in the critical reception of David Cronenberg: “it may not be such a bad disease after all”. Cinema Journal, v. 42, n. 4, p. 29-45, 2003.
NEMI NETO, J. Cannibalizing queer: Brazilian cinema from 1970 to 2015. Detroit: Wayne State University Press, 2022.
PARK, K. AIDS, and the plague metaphor. In: GARBER, M.; MATLOCK, J.; WALKOWITZ, R. Media spectacles. Nova Iorque: Routledge, 1993. p. 232-254.
PERLONGHER, N. O que é AIDS. São Paulo: Brasiliense, 1987.
TREVISAN, J. Devassos no Paraíso. São Paulo: Objetiva, 2018.