Ficha do Proponente
Proponente
- Carlos Eduardo Queiroz (UFF)
Minicurrículo
- Mestrando em Cinema e Audiovisual pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine-UFF), no Brasil. Estuda, dentro da linha de pesquisa de Narrativas e Estéticas, os impactos atmosféricos e de ambiência da representação visual do texto escrito.
Ficha do Trabalho
Título
- Obsessão pela intimidade, aversão à promiscuidade: a privacidade no espaço em “O Beijo no Asfalto”
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- O trabalho analisa O Beijo no Asfalto (1960), de Nelson Rodrigues, e sua adaptação por Bruno Barreto (1980), focando a mudança da cena final do espaço íntimo para o público. A pesquisa investiga a micropolítica da promiscuidade e da intimidade, articulando Raquel Rolnik e Richard Sennett, para compreender como a obra revela tensões entre público e privado no urbano e a transformação histórica dessas noções.
Resumo expandido
- No panorama do teatro brasileiro, poucos nomes ressoam tão vigorosamente quanto o de Nelson Rodrigues. Sua dramaturgia, localizada e intrinsecamente ligada ao subúrbio do Rio de Janeiro, é campo fértil para um estudo que pretende compreender a materialidade urbana que experienciamos e as ambiências que dela emergem. O pesquisador de cinema brasileiro João Luiz Vieira, sobre Nelson Rodrigues, diz:
Considerado um dos mais originais autores da moderna dramaturgia brasileira […]. No texto, por exemplo, substituiu uma pesada sintaxe clássica portuguesa pela linguagem mais ágil de um cotidiano (sub)urbano carioca. Na temática, usualmente explorou situações consideradas escandalosas, como incesto e o homossexualismo (sic). (VIEIRA, 2000)
O presente trabalho propõe se debruçar sobre “O beijo no asfalto” (1960), dramaturgia de Nelson Rodrigues posteriormente adaptada para o cinema por Bruno Barreto (1980), em especial a diferença de ambientação espacial da cena final nas duas obras.
O clímax da trama é quando o protagonista Arandir é assassinado por Aprígio, seu sogro, que o revela uma paixão secreta, dispara uma arma de fogo em sua direção e em seguida beija seu cadáver. Na montagem teatral original, a tragédia ocorre dentro da intimidade de um quarto de um “hotel ordinário” (1960). Na adaptação cinematográfica, no entanto, Barreto arranca os personagens da privacidade do espaço reservado e desloca toda a então-percebida promiscuidade do amor homossexual para o céu aberto e o titular “asfalto” da Lapa, bairro central carioca.
O objetivo da pesquisa é compreender a micropolítica espacial da promiscuidade e sua relação com a organização do território familiar íntimo, conforme postulado pela pesquisadora de arquitetura e urbanismo Raquel Rolnik em seu artigo “Lar, doce lar (a história de uma fórmula arquitetônica)” (1985). A autora afirma a existência de “uma nova micropolítica familiar calcada na segregação e na obsessão pela intimidade” onde “nenhuma promiscuidade é permitida” (ROLNIK, 1985).
Em constraste à Rolnik, a revisão bibliográfica aqui proposta elucida o exercício metodológico de analisar os personagens de Rodrigues segundo as noções de “homem público” e “homem privado” de Richard Sennet em sua obra “O declínio do homem público: as tiranias da intimidade” (1977). Sennet examina como a cultura contemporânea promove uma obsessão pela intimidade, levando à falta de fronteiras entre o público e o privado e à perda da noção de discrição, e discute como a erosão do espaço público pode levar à fragmentação da sociedade.
No entrecruzamento dos estudos narrativos com o campo do urbanismo e das ciências sociais, a adaptação de “Beijo No Asfalto” permite concluir que a ficção é campo largo para uma maior compreensão da esfera público-privada do existir urbano. Torna-se possível também concluir que a aversão à promiscuidade – e a própria noção de promiscuidade – se transformou desde a escrita da peça e a publicação dos textos originais de Rolnik e Sennet. Ao utilizar a narrativa ficcional como uma lente para investigar o espaço urbano e as relações sociais que o permeiam, podemos desvelar as complexas interações entre indivíduos e ambiente, revelando tanto os conflitos humanos quanto as dinâmicas sociais que moldam suas vidas.
Bibliografia
- BEIJO no asfalto. 1980. Direção de Bruno Barreto. Brasil. 80 minutos.
RODRIGUES, N. Beijo no asfalto. Editora Nova Fronteira, 1960.
ROLNIK, R. . Lar, doce Lar (a história de uma fórmula arquitetônica). AU. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, v. ano 1, n. 3, 1985.
SENNET, R. Declínio do homem público: as tiranias da intimidade. Alfred A. Knopf, 1977.
VIEIRA, J. L. “RODRIGUES, Nelson” in “Enciclopédia do cinema brasileiro”. Org. RAMOS, F. P., MIRANDA, L. F. Editora Senac SP, 2000.