Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Carlos Eduardo Queiroz (UFF)

Minicurrículo

    Mestrando em Cinema e Audiovisual pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine-UFF), no Brasil. Estuda, dentro da linha de pesquisa de Narrativas e Estéticas, os impactos atmosféricos e de ambiência da representação visual do texto escrito.

Ficha do Trabalho

Título

    Obsessão pela intimidade, aversão à promiscuidade: a privacidade no espaço em “O Beijo no Asfalto”

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    O trabalho analisa O Beijo no Asfalto (1960), de Nelson Rodrigues, e sua adaptação por Bruno Barreto (1980), focando a mudança da cena final do espaço íntimo para o público. A pesquisa investiga a micropolítica da promiscuidade e da intimidade, articulando Raquel Rolnik e Richard Sennett, para compreender como a obra revela tensões entre público e privado no urbano e a transformação histórica dessas noções.

Resumo expandido

    No panorama do teatro brasileiro, poucos nomes ressoam tão vigorosamente quanto o de Nelson Rodrigues. Sua dramaturgia, localizada e intrinsecamente ligada ao subúrbio do Rio de Janeiro, é campo fértil para um estudo que pretende compreender a materialidade urbana que experienciamos e as ambiências que dela emergem. O pesquisador de cinema brasileiro João Luiz Vieira, sobre Nelson Rodrigues, diz:

    Considerado um dos mais originais autores da moderna dramaturgia brasileira […]. No texto, por exemplo, substituiu uma pesada sintaxe clássica portuguesa pela linguagem mais ágil de um cotidiano (sub)urbano carioca. Na temática, usualmente explorou situações consideradas escandalosas, como incesto e o homossexualismo (sic). (VIEIRA, 2000)

    O presente trabalho propõe se debruçar sobre “O beijo no asfalto” (1960), dramaturgia de Nelson Rodrigues posteriormente adaptada para o cinema por Bruno Barreto (1980), em especial a diferença de ambientação espacial da cena final nas duas obras.
    O clímax da trama é quando o protagonista Arandir é assassinado por Aprígio, seu sogro, que o revela uma paixão secreta, dispara uma arma de fogo em sua direção e em seguida beija seu cadáver. Na montagem teatral original, a tragédia ocorre dentro da intimidade de um quarto de um “hotel ordinário” (1960). Na adaptação cinematográfica, no entanto, Barreto arranca os personagens da privacidade do espaço reservado e desloca toda a então-percebida promiscuidade do amor homossexual para o céu aberto e o titular “asfalto” da Lapa, bairro central carioca. 
    O objetivo da pesquisa é compreender a micropolítica espacial da promiscuidade e sua relação com a organização do território familiar íntimo, conforme postulado pela pesquisadora de arquitetura e urbanismo Raquel Rolnik em seu artigo “Lar, doce lar (a história de uma fórmula arquitetônica)” (1985). A autora afirma a existência de “uma nova micropolítica familiar calcada na segregação e na obsessão pela intimidade” onde “nenhuma promiscuidade é permitida” (ROLNIK, 1985).
    Em constraste à Rolnik, a revisão bibliográfica aqui proposta elucida o exercício metodológico de analisar os personagens de Rodrigues segundo as noções de “homem público” e “homem privado” de Richard Sennet em sua obra “O declínio do homem público: as tiranias da intimidade” (1977). Sennet examina como a cultura contemporânea promove uma obsessão pela intimidade, levando à falta de fronteiras entre o público e o privado e à perda da noção de discrição, e discute como a erosão do espaço público pode levar à fragmentação da sociedade.
    No entrecruzamento dos estudos narrativos com o campo do urbanismo e das ciências sociais, a adaptação de “Beijo No Asfalto” permite concluir que a ficção é campo largo para uma maior compreensão da esfera público-privada do existir urbano. Torna-se possível também concluir que a aversão à promiscuidade – e a própria noção de promiscuidade – se transformou desde a escrita da peça e a publicação dos textos originais de Rolnik e Sennet. Ao utilizar a narrativa ficcional como uma lente para investigar o espaço urbano e as relações sociais que o permeiam, podemos desvelar as complexas interações entre indivíduos e ambiente, revelando tanto os conflitos humanos quanto as dinâmicas sociais que moldam suas vidas.

Bibliografia

    BEIJO no asfalto. 1980. Direção de Bruno Barreto. Brasil. 80 minutos.
    RODRIGUES, N. Beijo no asfalto. Editora Nova Fronteira, 1960.
    ROLNIK, R. . Lar, doce Lar (a história de uma fórmula arquitetônica). AU. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, v. ano 1, n. 3, 1985.
    SENNET, R. Declínio do homem público: as tiranias da intimidade. Alfred A. Knopf, 1977.
    VIEIRA, J. L. “RODRIGUES, Nelson” in “Enciclopédia do cinema brasileiro”. Org. RAMOS, F. P., MIRANDA, L. F. Editora Senac SP, 2000.