Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bernardo Tavares e Silva Costa (UFRJ)

Minicurrículo

    Bernardo Tavares é doutorando em Comunicação e mestre em Artes Cênicas, ambos pela UFRJ, e bacharel em Cinema pela PUC-Rio. É pesquisador de imagens e participou de filmes como “3 obás de Xangô” (Sérgio Machado, 2025), “Ainda Estou Aqui” (Walter Salles, 2024), “Apocalipse nos Trópicos” (Petra Costa, 2024) e “Black Rio! Black Power!” (Emílio Domingos, 2023). Seu primeiro curta, “O céu de lá”, foi exibido em dez festivais pelo país, e seu segundo, “Rita longe do chão”, estreou no 34º Curta Cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Desejo nas fachadas: cinemas-pornô nas imagens do subúrbio carioca

Seminário

    Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens

Resumo

    A pesquisa em desenvolvimento propõe uma cartografia do público de cinemas-pornô de rua em bairros da zona norte do Rio de Janeiro entre os anos 80 e 90, apoiada sobretudo por fotografias desses locais. Aliando uma análise minuciosa dos elementos visuais que compõem esses arquivos com o cruzamento de outras fontes históricas e depoimentos orais (Machado, 2024), pretende-se construir uma “memória utópica queer” (Muñoz, 2009) dos espaços que acolhiam sexualidades dissidentes no subúrbio carioca.

Resumo expandido

    A pesquisa em desenvolvimento propõe um resgate fotográfico de três cinemas-pornô de rua localizados no subúrbio carioca, registrados na segunda metade do século XX: o Astor (Madureira), o Regência (Cascadura) e o São Geraldo (Olaria). O projeto parte da localização de uma lacuna: enquanto salas similares do Centro, como o Íris ou o Orly, possuem acervos imagéticos robustos em acervos públicos, como o do Instituto Moreira Salles, os três cinemas suburbanos deixaram rastros visuais escassos. Até o momento, foram encontradas fotografias pontuais preservadas no acervo do jornal O Globo, que mostram fachadas, transeuntes discretos e letreiros com títulos sugestivos.
    Tal escassez não é interpretada aqui como uma ausência neutra de impactos políticos, mas como um sintoma. Apoiada na noção de heterotopia de Foucault, a análise entende esses espaços como “utopias efetivamente realizadas” no tecido social urbano — lugares que abrigavam sexualidades dissidentes, em especial de homens gays e travestis, numa tensão permanente entre confinamento e libertação. Essa ambiguidade é ilustrada pela autoficção Cinema Orly (1999), de Luis Capucho, em que o autor narra encontros casuais e práticas de prostituição na sala homônima da Cinelândia, reconhecendo que o ambiente funcionava como uma espécie de gueto: um espaço onde o desejo podia circular livremente, mas somente por estar contido, longe do olhar de uma cidade normativa.
    Com o declínio dos cinemas de rua, motivado por fatores como a violência urbana e a especulação imobiliária (Ferraz, 2009), obras como a de Capucho passam a operar o que José Esteban Muñoz chamou de “memória utópica queer” (2009): ao fabularem não só sobre o que existiu, mas também sobre o que poderia ter sido, constroem uma crítica ao presente e testam os limites do contemporâneo. É nesse movimento que a pesquisa pretende se inserir, deslocando a análise de um funcionamento heterotópico para a construção ativa de uma memória utópica queer centrada na periferia carioca.
    A abordagem teórico-metodológica combina diferentes frentes. Inspirada por Derrida, a pesquisa reconhece que os arquivos disponíveis são “assombrados” por um aspecto fantasmal: revelam não apenas o registro do passado, mas os próprios mecanismos de apagamento desse registro (Margel, 2017). O fato de as fotografias existentes terem sido produzidas para um veículo de grande circulação como O Globo — consumido por uma maioria conservadora — implica que o olhar que as criou já carregava o pudor diante dessas salas. Seguindo, ademais, a metodologia de Sylvie Lindeperg, propõe-se uma dissecação dos elementos visuais dessas imagens, permitindo que novas camadas de sentido emerjam com o tempo (apud Machado, 2024). Esse trabalho visual será cruzado com outras fontes: jornais independentes voltados à comunicação queer em regiões periféricas, como O Vagalume e Subúrbio À Noite, e depoimentos orais de frequentadores ou conhecedores dos estabelecimentos.
    Ao articular arquivo, cartografia e memória, a pesquisa pretende não apenas a recolher fragmentos das experiências vividas no Astor, no Regência e no São Geraldo, mas abrir novas perguntas: quais outros espaços do subúrbio carioca acolhiam encontros dissidentes? Quais desejos e afetos circulavam nesses lugares? São questões que permanecem em destaque nos letreiros fotografados em Madureira, Cascadura e Olaria.

Bibliografia

    CAPUCHO, Luis. Cinema Orly. São Paulo: Carambaia, 1999.
    FERRAZ, Thalita Gomes. O cinema sai da rua para o último piso: sociabilidade, exibição e espectação cinematográficas no espaço urbano da Tijuca. Lumina, Juiz de Fora, v. 3, n.2, p. 1 – 18, dez. 2009.
    FOUCAULT, M. “De espaços outros”. Estudos avançados, 27 (79), 2013.
    MACHADO, Patrícia. Cinema de arquivo: imagens e memória da ditadura militar. Rio de Janeiro: Sagarana; Faperj, 2024.
    MARGEL, Serge. Os arquivos, no limite entre escrita e saber. In: Arqueologias do fantasma: técnica, cinema, etnografia, arquivo. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2017.
    MUÑOZ, José Esteban. Cruising utopia: the then and there of queer futurity. Nova Iorque: New York University Press, 2009.