Ficha do Proponente
Proponente
- Giulianna Nogueira Ronna (PUCRS)
Minicurrículo
- Doutora e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), respectivamente. Pesquisadora com atuação na área de cinema e audiovisual. Participa do grupo de estudos Kinepoliticom/ PUCRS
Ficha do Trabalho
Título
- Inscrições da imagem e da palavra: exílio e deslocamento no cinema documental brasileiro
Seminário
- Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas
Resumo
- O trabalho investiga como os exílios subjetivos, entendidos como deslocamentos identitários, instaurados durante a Ditadura Civil-Militar (1964–1985), são elaborados pelo cinema documental contemporâneo brasileiro. Diante dos impactos cumulativos da violência e da persistência de dinâmicas autoritárias, a temática do desterro emerge não apenas como uma condição contemporânea (Matos), mas também na forma como os filmes abordam sujeitos historicamente marginalizados, como mulheres e populações ind
Resumo expandido
- Deslocamentos e diferentes formas de exílio tornaram-se uma condição estruturante da experiência contemporânea, não apenas enquanto formas de desterro, mas enquanto modos de desenraizamento identitário e subjetivo, conforme propõe Olgária Matos (2020), ao pensar o presente a partir da errância e da ausência de pertencimento; em um tempo atravessado pela aceleração histórica, pela fragilização da memória e pela disputa narrativa e imagética. Nesse cenário, é possível deslocar a noção de exílio de um enfoque puramente geográfico, aproximando-a de experiências de apagamento simbólico e de rupturas identitárias. Uma perspectiva que se afasta, sem excluir, de outras formulações do exílio, como aquelas associadas à língua e à escritura em Derrida, ou ainda, às formas clássicas de deslocamento físico. Em vez de substituí-las, esta abordagem evidencia a coexistência de múltiplos regimes de exílio, que se sobrepõem e se reconfiguram no presente, afetando sujeitos e coletividades mesmo dentro de seus próprios territórios. Dito de outra forma, a experiência do exílio, instaurada durante a Ditadura Civil-Militar (1964–1985), assim configurada, ressoa diante dos impactos cumulativos da violência contemporânea e da persistência de dinâmicas autoritárias, evidenciando a fragilidade da memória democrática e a continuidade de processos de exclusão e silenciamento, seja na marginalização contínua de determinados grupos, seja na dificuldade de elaboração coletiva do passado. Diante desse cenário, torna-se necessário interrogar como essas experiências de desenraizamento e apagamento são elaboradas e passam a agir enquanto disputas em torno da memória, da história e do pertencimento. Um horizonte em que o cinema documentário brasileiro contemporâneo se apresenta como um campo privilegiado de investigação e reescrita histórica, na medida em que mobiliza a articulação entre testemunho e arquivo, não apenas revisitando a violência histórica, mas reinscrevendo suas reverberações no presente.
Esse trabalho analisa como os documentários GRIN (2016) dos diretores Sueli Maxakali, Isael Maxakali e Roney Freitas e Reformatório Krenak (2016) de Rogério Corrêa, a partir da sobreposição de arquivos, relatos orais e materiais gráficos, articulam uma narrativa sensível ao trauma, ao silêncio e às rupturas identitárias. Os documentários são analisados a partir das tensões entre imagem e palavra, concebidas como operadores estéticos e narrativos; especificamente na fricção entre testemunho e arquivo. Nesse processo, o testemunho emerge como rastro e fragmento ( Seligmann-Silva, 2023) de uma experiência que escapa à totalização, enquanto o arquivo configura-se como campo de disputas, lacunas e reinscrições (Derrida, 2001). Sustenta-se, assim, que a tensão entre palavra e imagem, nesses filmes, não apenas evidencia os limites do testemunho, mas constrói narrativas marcadas por descontinuidades, silêncios e sobreposições, tornando visíveis as fraturas identitárias e os modos pelos quais o exílio persiste como condição histórica e subjetiva.
Bibliografia
- DERRIDA, J. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de janeiro, RJ: Relume Dumará, 2001.
DERRIDA, J. Da Hospitalidade. São Paulo: Escuta, 2003.
MATOS, Olgária C. F.; AMADEO, Javier (org.). O estranho e o estrangeiro: ensaios sobre a contemporaneidade. São Paulo: Editora Unifesp, 2020.
MATOS, Olgária. O mal-estar na contemporaneidade: performance e tempo
ComCiência n.101 Campinas 2008. Disponível em: https://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-76542008000400008&lng=pt&nrm=iso
SELIGMANN-SILVA, M. Testemunho e a política da memória: o tempo depois das catástrofes. Projeto História : Revista Do Programa De Estudos Pós-Graduados De História. 2009. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/2255. Acesso:ago. 2023.