Ficha do Proponente
Proponente
- JOÃO MIGUEL VALENCISE (PPGIS)
Minicurrículo
- João Miguel Valencise é doutor em Comunicação Audiovisual pela Universidade Anhembi Morumbi. Professor e pesquisador na área de cinema, com atuação em direção, som e formação audiovisual. Desenvolve pesquisas sobre história do som no cinema brasileiro, com ênfase na atuação de técnicos pioneiros e nas relações entre tecnologia, prática profissional e linguagem cinematográfica.
Ficha do Trabalho
Título
- Moacyr Fenelon e a emergência do técnico de som no cinema brasileiro (1929)
Seminário
- Histórias e tecnologias do som no audiovisual
Resumo
- O trabalho analisa a emergência do técnico de som no cinema brasileiro a partir da trajetória de Moacyr Fenelon, no contexto da chegada do cinema sonoro em São Paulo em 1929. Propõe-se compreender o som não como mera inovação tecnológica, mas como resultado da articulação entre rádio, fonografia e exibição cinematográfica, destacando o papel dos agentes técnicos na consolidação das práticas sonoras no país.
Resumo expandido
- Este trabalho se insere no campo da historiografia do cinema brasileiro ao investigar a emergência do técnico de som a partir da trajetória de Moacyr Fenelon, no contexto da introdução do cinema sonoro em São Paulo, em 1929. Ao deslocar o foco das narrativas tradicionais — centradas na incorporação de tecnologias estrangeiras —, propõe-se uma reavaliação crítica desse processo, compreendendo o som como resultado de articulações locais entre diferentes campos técnicos e práticas culturais.
Parte-se da hipótese de que a consolidação do cinema falado no Brasil não pode ser explicada apenas pela difusão de sistemas como Vitaphone ou Movietone, mas deve ser entendida como um processo histórico situado, no qual agentes técnicos desempenham papel estruturante. Nesse sentido, a trajetória de Fenelon permite evidenciar como saberes oriundos da radiodifusão, da indústria fonográfica e da eletrônica foram mobilizados para viabilizar, na prática, a adaptação e a operação dos primeiros sistemas sonoros no país.
A pesquisa fundamenta-se em fontes primárias, com destaque para periódicos, anúncios publicitários e notas da imprensa da época, que permitem reconstruir o ambiente urbano e midiático da cidade de São Paulo no final da década de 1920. A inauguração do Cine Paramount, em abril de 1929, é analisada como marco simbólico da chegada do cinema falado ao Brasil, evidenciando o papel da exibição na constituição de uma demanda técnica e cultural que antecede a produção nacional.
Nesse cenário, argumenta-se que a introdução do som no cinema brasileiro se organiza inicialmente a partir do circuito exibidor, deslocando o eixo da inovação para fora do campo estritamente produtivo. É nesse contexto que Fenelon atua na realização de Acabaram-se os otários (1929), participando da elaboração de soluções técnicas baseadas em sistemas de som em disco, em um ambiente caracterizado pela ausência de padronização industrial. Sua atuação revela não apenas a circulação de conhecimentos técnicos, mas também a capacidade de adaptação e experimentação que marcou os primeiros anos do cinema sonoro no Brasil.
Ao privilegiar a análise de um agente técnico, este trabalho propõe uma inflexão na historiografia do cinema brasileiro, tradicionalmente centrada em diretores, produtores e obras. Defende-se que a emergência do técnico de som não constitui um efeito secundário da introdução do cinema falado, mas um elemento estruturante desse processo histórico. Dessa forma, busca-se contribuir para uma compreensão mais ampla das relações entre tecnologia, prática profissional e modernidade urbana, reposicionando o papel dos trabalhadores do som na formação do cinema brasileiro nas primeiras décadas do século XX.
Bibliografia
- BENJAMIN, Walter. A modernidade e os modernos. São Paulo: Tempo Brasileiro, 1991.
CHION, Michel. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1996.
GOMERY, Douglas. The coming of sound. In: WEIS, Elisabeth; BELTON, John (org.). Film Sound. New York: Columbia University Press, 1985.
STERN, Jonathan. The audible past. Durham: Duke University Press, 2003.
KITTLER, Friedrich. Gramophone, film, typewriter. Stanford: Stanford University Press, 1999.
VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Alhambra, 1958.