Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Danilo Marques Sacaldaferri (UFRB)

Minicurrículo

    Professor associado do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Graduação em Comunicação pela UFBA (1998). Mestrado (2010) e Doutorado (2014) pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação da UFBA. Especialmente interessado nas “aparências” das obras audiovisuais. Diretor de Fotografia e Montador. Atua no campo do audiovisual desde os anos 90, quando ainda se usava a palavra videomaker.

Ficha do Trabalho

Título

    Cidade de Deus – a luta não para, 20 anos de distância (e aproximações): entre o filme e a série.

Resumo

    O objeto catalisador deste estudo é a série Cidade de Deus – a luta não para (2024). A ideia central é olhar para série, mas, também, revisitar o filme (2002). O foco principal da proposta é apresentar os resultados da análise estilística dos episódios da primeira temporada, deslindando os mecanismos de construção da narrativa da série em diálogo com o filme e a nova postura adotada pela instância autoral diante dos temas “retratados”.

Resumo expandido

    A obra que mobiliza a comunicação aqui proposta é a série Cidade de Deus – a luta não para, lançada em 2024, cujos seis episódios da primeira temporada foram veiculados pelo canal de streaming Max e pela HBO. A ideia central é olhar para série, mas, simultaneamente, pelo retrovisor, rever o filme (2002), buscando entender através de quais estratégias a nova equipe de realizadores operou essa “passagem de bastão”: daquela obra seminal para este novo produto, antenado às questões “do agora”. “Como dar conta, analiticamente, desse audiovisual que escorre por múltiplas plataformas, agrega e constitui nossas bolhas, pressupõe partilhas e dissonâncias afetivas e identitárias?” (GUTMANN, 2021, p.17).
    O “estrondoso” sucesso de Cidade de Deus e a dimensão do seu impacto mobilizaram discussões, críticas e distintos afetos. Em torno da obra, montaram-se trincheiras nas quais embates intensos foram travados. “Cidade de Deus pode ser, assim, considerado como um filme-acontecimento: sua inclusão na agenda pública do país explicita a ideia de filme como fato social total” (CÉSAR, 2008, p.72).
    Àquela época, quando ainda se podiam ouvir reverberações dos tiros que mataram Zé Pequeno no final do filme, havia, no campo da crítica, um caro território em disputa. Pablo Villaça, por exemplo, em 2002, escreveu: “dirigido de forma magistral por Fernando Meirelles. (…) Cidade de Deus é o filme certo no momento certo. A produção retrata de forma realista – e, consequentemente, chocante – o terrível universo do tráfico”. O crítico Carlos Alberto Mattos (2002) disparou, “Cidade de Deus, está deixando muita gente despida no meio da rua, tendo que enfrentar uma visão do inferno sem anteparos”.
    Do outro lado do “front”, Ivana Bentes manifestou-se contundentemente, “Cidade de Deus é um filme-sintoma da reiteração de um prognóstico social sinistro: o espetáculo consumível dos pobres se matando entre si” (2007, p. 252). A pesquisadora ocupou, certamente, papel de destaque naquela trincheira de onde saíram os ataques mais enfáticos ao filme de Meirelles e cia. “As cenas de violência são espetaculares e siderantes. A favela é mostrada de forma totalmente isolada do resto da cidade, como um território autônomo” (BENTES, 2007, p. 252).
    Já um tanto distante do ápice daquele enfrentamento, a série Cidade de Deus chega às novas telas certamente ciente de toda fortuna crítica e capital simbólico do filme; com uma predisposição declarada de desviar dos mais graves problemas já apontados, mas sem querer perder a posse dos territórios já conquistados.
    A nova obra assume uma mudança de ponto de vista em relação àquele do filme. Na ficção seriada, as fronteiras da violência são ampliadas, o lado de fora da favela entra na equação, o morador ganha destaque na luta pela resistência e sobrevivência. Muito do que estava ausente no filme encontra lugar nos episódios da primeira temporada. As personagens femininas, por exemplo, que praticamente não têm vez nem voz no longa-metragem, conquistam o protagonismo na série.
    Para se ter uma ideia da “virada” movida pela nova equipe de realizadores, o site ADOROCINEMA reúne 40 críticas dos usuários a respeito da série, entre elogios e manifestações genéricas, chamam a atenção a recorrência de comentários que explicitam uma percepção bem diferente daquela que movia debates em torno do filme: “História fraca, cheia de lacração”. “A cultura woke destruiu mais um”. “Total lacração voltada pra falida luta de classes”. “A lacração consegue estragar tudo”. “100% ideologia marxista”.
    O foco principal dessa proposta é apresentar os resultados da análise estilística dos episódios da primeira temporada, deslindando os mecanismos de construção da narrativa da série em dinâmicas dialéticas com o filme e a nova postura adotada pela instância autoral diante dos temas “retratados”. Este estudo é um dos resultados no meu Estágio Pós-Doutoral no Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, na FACOM/UFBA, realizado em 2025.

Bibliografia

    ADOROCINEMA. Cidade de Deus – a luta não para. Críticas dos usuários. Disponível em www.adorocinema.com/series/serie-33421/criticas/
    BENTES, Ivana. Sertões e favelas no cinema brasileiro contemporâneo: estética e cosmética da fome. ALCEU, Revista de Comunicação Cultura e Política, N15, 2007.
    Disponível em revistaalceu-acervo.com.puc-rio.br/media/Alceu_n15_Bentes.pdf
    CÉSAR, Amaranta. La fabulation et la figuration de l’altérité dans le cinéma brésilien contemporain: Cidade de Deus, du livre au film. Université Sorbonne Nouvelle – PARIS 3, França: 2008.
    GUTMANN, Juliana Freire. Audiovisual em rede [livro eletrônico]: derivas conceituais. Belo Horizonte, MG: Fafich/Selo PPGCOM/UFMG, 2021.
    MATTOS, Carlos Alberto. Em defesa de um filme indesejável. Críticos. 09 set. 2002. Disponível em criticos.com.br/?p=84&cat=3
    VILLAÇA, Pablo. Crítica de Cidade de Deus. Cinema em Cena. Disponível em cinemaemcena.com.br/criticas/cidade-de-deus