Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Giovanna Mont’Mor da Cruz (UFMG)

Minicurrículo

    Mestranda em Comunicação Social (PPGCOM/UFMG), na linha Pragmáticas da Imagem, e graduada em Publicidade e Propaganda pela Ufes (2024). Integra o grupo Poéticas da Experiência (UFMG). Pesquisa cinemas indígenas, com foco nas relações de parentesco e suas reconfigurações diante das violências coloniais. Atuou no Cineclube Aldeia (Ufes) e na programação do Cine Metrópolis (Vitória, ES), incluindo a mostra “Constelações Indígenas”.

Ficha do Trabalho

Título

    “Essa é a minha família”: A câmera como convocação de parentesco em Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Este trabalho analisa a cena de abertura de Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá (2025), que narra a busca de Sueli e Maiza Maxakali pelo pai, afastado forçosamente durante a ditadura. Investigamos como a câmera opera como um gesto de convocação de parentesco. Propõe-se que a linguagem fílmica não apenas registra o reencontro, mas reinstaura redes relacionais cindidas, transformando a tecnologia em ferramenta de recomposição de vínculos.

Resumo expandido

    Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá (2025), produção documental mais recente dos cineastas Sueli Maxakali e Isael Maxakali, em codireção com Roberto Romero e Luisa Lanna, apresenta a busca de Sueli e sua irmã, Maiza Maxakali, por seu pai, Luis Kaiowá. Indígena do povo Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul, Luis chegou às terras dos Tikmũ’ũn, no nordeste de Minas Gerais, deslocado forçosamente pelos administradores da Fundação Nacional do Índio (Funai) durante a ditadura militar brasileira. Ainda na década de 1970, dois meses após o nascimento de sua filha Sueli, Luis foi reconduzido ao Mato Grosso do Sul, onde acabou permanecendo. Como narrado pelo filme, a trajetória de Luis se cruza com um processo secular de expropriação e recomposição forçada de vínculos familiares e comunitários, expondo as consequências das políticas estatais de assimilação cultural no Brasil.
    Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá tem, em sua primeira sequência, uma tentativa de apresentação (para as pessoas que assistem ao filme, mas também entre os próprios personagens), na forma de uma mensagem filmada pela família de Sueli e Maiza e destinada ao pai ausente. Com a câmera posicionada diante da casa, vemos atender ao chamado de Sueli e se colocarem dentro do enquadramento: filhas, cunhados, netos, bisnetos, sobrinhos. Assim, o gradual reencontro, registrado pelo filme, entre Sueli, Maiza e o pai, acontece, ao menos a princípio, pela mediação da câmera — um vídeo será compartilhado com as primas Kaiowá para que seja mostrado a Luis.
    Propomos, a partir de uma análise da cena de abertura, uma investigação de como a presença da câmera instaura um gesto inicial de convocação de parentesco que se adensa ao longo do filme. Partimos da compreensão de “parentesco” como uma rede de vínculos espirituais, territoriais e políticos multiespecíficos, que integra humanos e não-humanos, vivos e ancestrais. Ou, como apontou Viveiros de Castro, o processo de parentesco “é para os povos ameríndios em geral uma ação deliberada de extrair consanguinidade da afinidade” (apud Vianna, 2019, p. 151).
    Ao inscrever a câmera como gesto de convocação de parentesco, nos questionamos como Yõg Ãtak repensa e reinstaura redes relacionais anteriormente cindidas, então atualizadas e reconfiguradas através da produção fílmica e da própria linguagem cinematográfica. Aqui, a câmera participa do trabalho de recomposição desses vínculos ao estabelecer uma dimensão em que a ausência é confrontada por uma presença mediada — que não é menos real por ser tecnológica —, e que não se limita a registrar, mas se propõe a convocar, organizar e colocar em relação as pessoas que entram em cena. Uma presença orientada por uma ideia de extracampo (Brasil, 2016) como aquilo que excede o visível em campo mas que nele incide: a ausência do pai que se inscreve enquanto força estruturadora da cena. A história ausente que organiza a cena presente.

Bibliografia

    BRASIL, André. O cinema-lagarta dos Tikmu’un: teoria-prática das imagens xamânicas. Intexto, Porto Alegre, n. 48, p. 157-175, 2020.
    BRASIL, André. Ver por meio do invisível: o cinema como tradução xamânica. Revista Novos Estudos. v. 35.03. São Paulo, 2016.
    BRASIL, André; BELISÁRIO, Bernard. Desmanchar o cinema: variações do fora-de-campo em filmes indígenas. Revista Sociologia & Antropologia, v. 6, p. 601-634, 2016.
    MAXAKALI, Isael. Sem terra não tem cinema. Belo Horizonte: NPGAU, 2024.
    TUGNY, Rosângela. Filhos-imagens: cinema e ritual entre os Tikmu’un. Devires: Cinema e Humanidades, Belo Horizonte, v. 11, n. 2, p. 154-179, jul./dez. 2014.
    VIANNA, João. Fazendo parentes entre os Baniwa: reflexões sobre as relações em campo. Campos: Revista de Antropologia, v. 20, n. 1, p. 134-154, 2019.
    VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Atualização e contra-efetuação do virtual na socialidade amazônica: o processo de parentesco. Ilha: Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 2, n. 1.