Ficha do Proponente
Proponente
- Gabriela Lopes Vasconcellos de Andrade (UFS)
Minicurrículo
- Professora de Literatura da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisadora do grupo Rede de Pesquisa em Arquivos Literários, do GeFeLit – Grupo de estudos em Filosofia e Literatura e Tecletras – Laboratório de Técnicas e Usos da Linguagem. Possui doutorado em Literatura e Cultura (UFBA). Foi Visiting Graduate Researcher na Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) pela Fulbright e realizou pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários (UFMG).
Ficha do Trabalho
Título
- A PERDA COMO HIPÉRBOLE E ENGENHARIA DE APREENSÃO: DO PÓS-HORROR DA A24 AO BODY HORROR DA NEON
Resumo
- O trabalho investiga a perda como eixo estético do horror contemporâneo, da A24 à NEON. Questiona o “pós-horror” como categoria hierarquizante e analisa como luto, melancolia e trauma se deslocam para o body horror, no qual o corpo torna-se matéria de crise, abjeção, performance e crítica à normatividade, articulando estética e materialidade corporal em cena.
Resumo expandido
- O presente trabalho propõe uma reflexão sobre o modo como o horror contemporâneo tem convertido a perda, o luto e a decomposição do sujeito em formas estéticas e mercadológicas de apreensão do espectador. A partir de um percurso que vai do chamado “pós-horror” associado à A24 ao posicionamento da NEON como distribuidora vinculada a novas tendências do body horror, buscar-se-á questionar a própria validade do termo “pós-horror”, entendido não como categoria estável, mas como construção marcada por uma hierarquização posterior do gênero e por uma tentativa de distinção cultural entre um horror “elevado” e art-house.
Nesse sentido, o “pós-horror” é tratado como uma falácia classificatória como uma legitimação estética do gênero. A investigação parte da hipótese de que, nos filmes da A24, a perda opera como engenharia de apreensão, conceito central para a ideia de pós-horror de David Church (2021). Obras como The Witch (2015), Hereditário (2018), Midsommar (2019), A Ghost Story (2017), Talk to Me (2022) e Bring Her Back (2025) mobilizam o luto, a melancolia, a crise familiar e a desintegração subjetiva como dispositivos centrais de produção do medo. A perda, assim, é lida como uma forma de engenharia de apreensão. Mobiliza-se, assim, Sigmund Freud (2010) em Luto e melancolia, para distinguir o luto como processo de elaboração da perda e a melancolia como incorporação fantasmática do objeto perdido.
O referencial teórico articula Aristóteles (2007), Georges Bataille (2015) e Noël Carroll (1999). Em A arte poética, Aristóteles fornece a base para pensar a tragédia como forma que suscita horror e piedade, como efeito estético e pedagógico da catarse. Já Bataille, em A literatura e o mal, ao definir o mal como experiência do excesso, da transgressão, do interdito e da dissolução dos limites, permite pensar o horror e a morte como antieconomia. Noël Carroll discorre sobre o horror como paradoxo estético e epistemológico: somos atraídos por aquilo que causa repulsa porque desejamos compreender a violação das categorias que organizam o mundo. Assim, trata-se da perda de inteligibilidade e de estabilidade ontológica – o capital joga com o estético possibilitando regimes de sentido.
Em um segundo momento, o trabalho desloca o foco para o body horror e para o papel da NEON, em seu trabalho como distribuidora e como formadora de gosto, que transforma distribuir em curadoria e autoria. A NEON consolidou-se como uma distribuidora associada ao cinema autoral o e a filmes de forte circulação crítica, muitos deles reconhecidos em grandes premiações internacionais, principalmente desde o Oscar de Parasite (2019). Nesse sentido, partindo da premissa que a A24 consolidou um imaginário autoral em torno da perda como engenharia, a NEON passa a ocupar um lugar de destaque na circulação de filmes que exploram a perda como materialidade corporal,. Obras como Titane (2021), Crimes do Futuro (2022), Sick of Myself (2022) indicam uma crise dos limites do humano. Xavier Aldana Reyes (2024) é central nessa etapa ao definir o body horror como subgênero voltado à transformação ou exagero grotesco do corpo como a abjeção e hipérbole do medo.
Para pensar como a tendência do body horror nos possibilita compreender, ainda que a partir do capital simbólico da curadoria da NEON, uma inclinação a questionar a normatividade do corpo na contemporaneidade, serão utilizados Michel Foucault (2010) e Donna Haraway (2003). Em Os anormais, Foucault discute o monstro como construção jurídico-biológica e dispositivo histórico de poder que tensiona a norma e o interdito. O corpo monstruoso revela a falha dos sistemas classificatórios do que é ser humano. Haraway desloca a discussão para o pós-humanismo, compreendendo o corpo como território híbrido, tecnicamente mediado e incompatível com a ideia de autonomia, origem ou identidade fixa. Desse modo, o body horror torna pensar questionar, ontologicamente, a categoria de humano, a partir da possibilidade disruptiva do gênero.
Bibliografia
- ALDANA REYES, Xavier. Contemporary Body Horror. Cambridge: Cambridge University Press, 2024.
ARISTÓTELES. A arte poética. São Paulo: Martin Claret, 2007.
BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999.
CHURCH, David. Post-Horror: Art, Genre and Cultural Elevation. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2021.
FOUCAULT, Michel. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). São Paulo : Companhia das Letras, 2010, p. 170-194.
HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: HARAWAY, Donna.; KUNZRU, Hari.; TADEU, Tomaz (orgs). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p. 33-118.