Ficha do Proponente
Proponente
- Marcus Vinícius Maello (USP)
Minicurrículo
- Professor de Sociologia no Senac Santo Amaro. Bacharel em Ciência Política e Sociologia (UNILA) e licenciado em Ciências Sociais, com mobilidade acadêmica na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). Mestrando no PROLAM-USP, sob orientação de Alexandre Ganan de Brites Figueiredo. Pesquisa Pensamento Político e Social Latino-americano, com ênfase na Teoria Marxista da Dependência e no conceito superexploração da força de trabalho, articulando Sociologia Visual e do Trabalho.
Ficha do Trabalho
Título
- Entre a exaustão e a euforia: cinema e superexploração na América Latina
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O trabalho analisa o documentário “Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar” (2019), como forma estética que expressa contradições do capitalismo dependente. Articulam-se os conceitos de superexploração do trabalho de Marini (1973), colonialismo interno de Casanova (1969) e a leitura sobre as Festas Populares no Brasil (1987) de Gonzalez, para apreender a dialética entre trabalho e festa como forma contraditória de reprodução e suspensão da superexploração na América Latina.
Resumo expandido
- Este trabalho propõe uma leitura teórico-analítica do documentário “Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar” (2019), dirigido por Marcelo Gomes, articulando-o ao campo da teoria social latino-americana e às discussões contemporâneas sobre estética e política no audiovisual. Parte-se da hipótese de que o filme não apenas representa a realidade social de Toritama (PE), mas opera como forma estética capaz de condensar determinações estruturais do capitalismo dependente latino-americano, tornando visíveis suas mediações históricas, políticas, econômicas e sociais.
A análise se ancora no conceito de superexploração da força de trabalho, formulado por Ruy Mauro Marini no âmbito da Teoria Marxista da Dependência, em seu livro “Dialética da Dependência” (1973). Tal conceito permite compreender o tipo específico de exploração que ocorre na América Latina, onde se incorpora a expropriação das condições de vida dos e das trabalhadoras, dilatando de forma extrema a jornada de trabalho. Isso, ao final, implica na violação sistemática do valor da força de trabalho. No filme, essa dinâmica se manifesta na lógica do trabalho por peça e na aparente autonomização dos trabalhadores, que internalizam a racionalidade do capital sob a forma do empreendedorismo precário, proporcionando que a dinâmica de subsunção real da vida ao capital se concretize. Logo, a distinção entre tempo de trabalho e tempo de não trabalho tende a colapsar. Por fim, a mise-en-scène reiterativa, marcada pela repetição de gestos e ritmos produtivos, produz uma experiência sensível da exaustão, convertendo a forma fílmica em mediação crítica.
Em diálogo com essa abordagem, mobiliza-se a noção de colonialismo interno de Pablo González Casanova (1969), que permite deslocar a análise do plano estritamente econômico para a persistência de hierarquias coloniais no interior do Estado-nação. A cidade de Toritama (PE) surge, nesse sentido, como espaço de inscrição de uma geopolítica da dependência, no qual a integração subordinada ao mercado global reproduz formas históricas de expropriação do trabalho, tensionando as dinâmicas entre países centrais e dependentes. O filme, ao evitar uma narração explicativa e privilegiar a observação prolongada, explicita tais assimetrias por meio de uma estética da duração e da acumulação, aproximando-se de uma crítica imanente. Isso pode ser percebido na recusa da narração em off — na qual as próprias contradições se apresentam na materialidade das imagens.
Outra dimensão importante a ser analisada é a cultural, a partir das contribuições de Lélia Gonzalez, principalmente em seu livro “Festas Populares no Brasil (1987), sobretudo no que se refere à centralidade das manifestações populares na interpretação da formação social brasileira. Ao deslocar o olhar para o Carnaval, o documentário introduz uma ruptura na lógica produtiva, configurando-o simultaneamente como suspensão e continuidade. Para a autora, manifestações como o Carnaval não devem ser reduzidas a momentos de alienação, mas compreendidas como espaços ambíguos de reprodução e contestação das estruturas sociais. Longe de uma leitura funcionalista, as festas são apreendidas como espaços de ambivalência, no qual se articulam reprodução social e potência de negação. No documentário, o Carnaval aparece como ruptura temporária com a lógica produtivista, mas também como expressão de uma cultura profundamente enraizada nas experiências populares.
Assim, o trabalho busca contribuir para o campo do cinema e audiovisual na América Latina ao articular dimensões epistêmicas, estéticas e geopolíticas. Ao mobilizar categorias da teoria social latino-americana, propõe-se uma leitura situada do filme, evidenciando como o audiovisual pode funcionar como ferramenta crítica para a compreensão das contradições do desenvolvimento dependente e das formas de resistência cultural no continente.
Bibliografia
- AMARAL, Marisa. S.; CARCANHOLO, Marcelo. D. “A superexploração do trabalho em economias periféricas dependentes”. Revista Katálysis. 2009. V. 12. p. 216–225. Dez. 2009.
BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Trad. Fernando Correa Prado; Marina Machado Gouvêa. 2.ed. Florianópolis: Insular, 2013.
BARRETO, Raquel. Introdução: Lélia Gonzalez, uma intérprete do Brasil. In: GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. São Paulo: Diáspora Africana, 2018.
GONZÁLEZ CASANOVA, Pablo. “El colonialismo interno”. Sociología de la explotación. Buenos Aires: CLACSO, 2006 (1969).
GONZALEZ, Lélia. Festas Populares no Brasil. 1ed.São Paulo: Boitempo, 2024 (1987).
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. 1973. Disponível em: https://marxists.architexturez.net/portugues/marini/1973/mes/dialetica.htm.
VANOYE, Francis. Ensaio sobre a análise fílmica. Papirus Editora, 2006.