Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Eduardo Simões dos Santos Mendes (USP)

Minicurrículo

    Professor no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA/USP desde 1990, tendo ministrado aulas nos cursos de graduação ligados a Cinema e Audiovisual. Desde 2009, participa do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais.
    Atua como supervisor de som, tendo participado em mais de 60 filmes de diretores como Carlos Adriano, Carlos Reichenbach, Chico Teixeira, Lina Chamie, Tata Amaral e Walter Hugo Kouri.

Ficha do Trabalho

Título

    Um Céu de Estrelas, um estudo de estereofonia

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    Em 2026, Um Céu de Estrelas completa 30 anos e será relançado.
    Em 1996, o filme foi um grande experimento de uso do som estereofônico, recém-chegado nas produções brasileiras. Era novidade para todos. Havia o conhecimento técnico para sua utilização, mas os limites do quanto as vozes poderiam ser expandidas para as caixas laterais da tela ou mesmo o que fazer com os ruídos quando a câmera invertia o eixo da cena precisavam ser testados.
    É essa experiência que trago para o Encontro Socine 2026.

Resumo expandido

    Há 30 anos, editei, junto com João Godoy, o som do primeiro longa-metragem que me permitiu experimentar o uso e os limites do sistema Dolby-Stereo, Um Céu de Estrelas, dirigido por Tata Amaral. Era minha terceira experiência estereofônica. Antes havia editado um curta, junto com Luiz Adelmo e Michael Ruman (Expresso, direção Michael Ruman) que me permitiu fazer grandes malabarismos sonoros num filme que é uma grande brincadeira de cinéfilos e um longa (O Cego que Gritava Luz, direção: João Batista de Andrade) que era estruturado na fala, deixando pouco espaço para a estereofonia.

    Um Céu de Estrelas apresentava novos e grandes desafios: uma narrativa trágica, onde era importante a verossimilhança; uma trama que se desenvolve quase em tempo real dentro de um único espaço que vai ficando cada vez mais claustrofóbico à medida que o filme se desenvolve; poucos personagens (praticamente 2) sem longas falas e um cerco policial quase 100% acusmático. Tudo isso com um orçamento baixíssimo de, aproximadamente, US$ 380.000.

    Exatamente por ter um baixo orçamento, Tata Amaral sabia da necessidade da trilha sonora para aumentar a tensão dramática. Como era, inicialmente, um filme para televisão, a primeira mixagem foi realizada em sistema monofônico. Não satisfeita com o resultado, Tata conseguiu uma verba extra para reedição e remixagem do filme em Dolby-Stereo.

    As vantagens do sistema estereofônico são muitas. A primeira e mais obvia, a imersão do espectador. Os sons são reproduzidos por 4 canais diferentes, envolvendo a plateia no universo sonoro e aumentando a sensação de verossimilhança. Ainda por causa da distribuição dos sons pelos canais, é possível uma maior separação dos elementos sonoros que podem ocupar espaços diferentes e aumentar a clareza dos diálogos, da música e dos ruídos.

    A ampliação da resposta de frequências também possibilita a reprodução de frequências graves e agudas não existentes num sistema monofônico, fundamental para a construção do cerco policial, com motores de carros e sirenes. O crescimento da faixa dinâmica no sistema estereofônico permitiu uma maior quantidade de sons simultâneos fora uma diferença bem mais acentuada entre momentos sonoros bastante ativos e outros calmos, tendendo ao silêncio.

    Porém, meu grande desafio na edição de som do filme foi entender, especialmente, o uso dos 3 canais de som atrás da tela, tanto na criação dos sons ambientes, quanto dos ruídos ou mesmo das vozes dos personagens. Tinha a vantagem de ter um som direto de altíssima qualidade, captado pelo João Godoy com muita presença da reflexão das vozes nos diferentes espaços da casa e pouquíssimo ruído de fundo que por um lado trazia a sensação acústica de cada um dos recintos da casa enquanto permitia uma grande liberdade de ação na construção dos ambientes sonoros. Tínhamos o conhecimento técnico para sua utilização, mas os limites do quanto as vozes poderiam ser expandidas para as caixas laterais da tela ou mesmo o que fazer com os ruídos quando a câmera invertia o eixo da cena precisavam ser testados.

    A entrega da trilha musical, composta por Livio Tragtenberg e Wilson Sukorski ainda durante o processo de edição de som também possibilitou um ajuste fino entre ruídos e música para que não houvesse encavalamentos nos ataques dos sons e nas questões timbrísticas. Não posso também deixar de citar a mixagem de José Luiz Sasso, fundamental na construção da trilha sonora.

    O processo de criação da trilha sonora e as experiências estereofônicas em Um Céu de Estrelas, neste ano que o filme completa 30 anos, é minha proposta de apresentação para o encontro Socine 2026.

Bibliografia

    ABBATE, Carlos. Como fazer o som de um filme. Ciudad Autonoma de Buenos Aires: Libraria, 2015.
    BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A Arte do Cinema: uma introdução. Campinas / São Paulo: Editora da Unicamp / Edusp, 2013.
    CARREIRO, Rodrigo. A Pós Produção de Som no Audiovisual Brasileiro. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2019.
    CARREIRO, Rodrigo (Org.); OPOLSKI, Débora; SOUZA, João Baptista Godoy de. O som do filme: uma introdução. Curitiba: Ed. UFPR: Ed. UFPE, 2018.
    FLORES, Virginia. O Cinema: uma arte sonora. São Paulo: Annablume, 2013.
    PINTO, P. P. (2018). Narratividade, corporalidade e realismo de choque em Mooca, São Paulo e Um céu de estrelas. Significação: Revista De Cultura Audiovisual, 45(49), 149-166
    SILVA, Marcia Regina Carvalho da. Uma face inquieta no cinema brasileiro: estudo sobre a proposta estética do filme Um Céu de Estrelas de Tata Amaral. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003