Ficha do Proponente
Proponente
- Bruno Gavranic Zaniolo (USP)
Minicurrículo
- Bruno Gavranic Zaniolo é ator, autor, e doutorando pelo Departamento de Letras Modernas da USP, orientado pelo Prof. Marcos César de Paula Soares. Suas produções incluem “Sindicato de Ladrões”: o Método como um campo de disputa em Hollywood (Editora Pimenta Cultural), além de artigos e cursos. Venceu os prêmios APCA de melhor adaptação de teatro infantojuvenil em 2023 e Prêmio FEMSA de melhor autor em 2012. É professor substituto de Letras no Instituto Federal de São Paulo, campus Sorocaba.
Ficha do Trabalho
Título
- Tensionamento das convenções narrativas e sociais em Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes
Resumo
- Esse trabalho propõe uma leitura de Uma Mulher Sob Influência (1974), de John Cassavetes, como um balanço da experiência de busca por novas formas de organização e expressão que marcou os anos 1960, agora em um período de reorganização do aparato repressivo. Através do desajuste entre uma dona de casa e as expectativas projetadas por sua família, o filme faz uma reflexão sobre a persistência das convenções sociais e narrativas como forma de compreender as contradições de seu contexto histórico.
Resumo expandido
- Essa proposta constitui a segunda parte de uma pesquisa sobre o diretor John Cassavetes por meio da análise de três filmes: Faces (1968), Uma Mulher Sob Influência (1974) e Noite de Estreia (1978). Mais do que realizar uma discussão comparativa, o objetivo é abordar o percurso do trabalho de Cassavetes, tentando perceber as marcas de elaboração de um projeto de cinema radicalmente independente diante dos esquemas de produção e crítica montada sob a égide dos estúdios de Hollywood. Da mesma forma, compreender as conexões dessa experiência tanto com a manifestação de uma cultura alternativa, quanto com os caminhos de reorganização da política dos EUA em meio às crises agudas que foram sentidas ao longo da década de 1970.
O trabalho de Cassavetes surge dentro de uma “cultura da espontaneidade” (BELGRAD, 1998) que marcou os mais diversos meios de expressão artística no país, tendo como foco a tentativa de resistência à padronização dos gostos e valores que orientaram a dinâmica social em meio ao acirramento da chamada sociedade industrial avançada durante a Guerra Fria (MARCUSE, 2021). Tal estado de coisas foi responsável por um processo de massificação do comportamento que se utilizou do desenvolvimento da estrutura da cultura do entretenimento como veículo de divulgação e formatação da experiência social, capaz de atingir a organização da sociedade em sua base: a formulação dos modos de construção da experiência subjetiva e o espaço da vida doméstica.
Ao mesmo tempo, o estado avançado dos meios de circulação de produtos culturais possibilitou o acesso a novas formas de criação de imagens, narrativas e modos de representação da experiência social que foram utilizados como canal para os novos conteúdos que procuravam uma forma de expressão. Esse contexto gerou, por exemplo, o surgimento do cinema independente nos EUA, acompanhando as novas ondas de cinema ao redor do mundo, e legou, depois, o repertório de formas e assuntos que, posteriormente, foram incorporados pela indústria no processo de modernização que ficou conhecido como o momento da Nova Hollywood.
Realizado em 1974, Uma Mulher Sob Influência pode ser visto como um balanço lúcido das experiências da década anterior. O ponto de partida do filme é o desajuste de Mabel, uma jovem dona de casa com as expectativas projetadas por sua família reproduzindo padrões que confirmam os modos tradicionais de orientação da vida doméstica e parecendo ignorar as conquistas sentidas, nos anos 1960, na esfera dos costumes – mobilizados pela formação de movimentos como dos direitos civis e da segunda onda do feminismo.
O impulso de readequação agressiva do comportamento de Mabel às normas, por parte de sua família, promove uma narrativa de crise causada pela resistência da personagem em se encaixar nesses moldes. Tendo sua espontaneidade reprimida, ela então busca inserir, no cotidiano, uma interação baseada na proposição de pequenos jogos que criam um estado de performatividade que se aproveita de outras linguagens , como a dança e a comédia física, causando um estranhamento da convenção realista. Como contrapartida, o filme produz uma desorientação das expectativas do cinema Hollywoodiano através de um choque entre as ferramentas surgidas no teatro e no cinema independente – como as práticas de improviso e de trabalho colaborativo – com as referências que serviram de modelo para a tradição do cinema narrativo – como o drama burguês e o Método de interpretação – cuja influência foi reatualizada na obra dos novos cineastas responsáveis pela reformulação da estética Hollywoodiana.
Assim, mais do que criar novas soluções, o filme propõe uma reflexão sobre a relação que conecta a persistência das convenções sociais (como a família e o casamento) às convenções narrativas (como o cinema de origem dramática), abrindo uma janela para compreender as contradições desse período de “ilusões perdidas” (COOK, 1990), responsável por um realinhamento da cultura e da política nacional.
Bibliografia
- BELGRAD, Daniel. The Culture of Spontaneity – Improvisation and the Arts in Postwar America. Chicago: The University of Chicago Press. 1998
CARNEY, Ray. Cassavetes On Cassavetes. Nova Iorque: Faber and Faber. 2001
COOK, David. Lost Illusions: American cinema in the shadow of Watergate and Vietnam 1970-1979. Nova Iorque: Charles Scribner’s Sons. 2000
MARCUSE, Herbert. O Homem Unidimensional: estudos da ideologia da sociedade industrial avançada. São Paulo e Bauru: Edipro, 2021.
MULVEY, Laura. “Notes on Sirk and Melodrama” e “Melodrama Inside and Outside the Home”. In: Visual and Other Pleasures. Nova Iorque: Palgrave. 1989. pp. 39-44 e 63-77
SOARES, Marcos César de Paula. “Cinema e Dramaturgia: a renascença de Hollywood dos anos 1960”. Dramaturgia em Foco, Vale do São Francisco, vol. 2, nº 1, pp. 45-63, 2018.
WILLIAMS, Raymond. “A Defence of Realism”. In: What I Came To Say. Londres: Hutchinson Radius. 1989. pp. 226-239