Ficha do Proponente
Proponente
- Graziela Aparecida da Cruz (UFMG)
Minicurrículo
- Graziela Aparecida da Cruz é professora na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, nas áreas de Comunicação e Cinema, e doutoranda no PPG em Artes da UFMG, na linha de pesquisa de Cinema, onde desenvolve pesquisa sobre “A construção de atmosferas fílmicas no cinema de Andrei Tarkovski”. É mestre em Cinema pela UFMG e membro da Signis Brasil, no grupo de “Educomunicação”. Coordena o “Cine-Debate” no Centro Loyola de Cultura, em Belo Horizonte.
Ficha do Trabalho
Título
- Estratégias de construção de atmosferas no filme O Sacrifício, de Andrei Tarkovski
Resumo
- A pesquisa analisa a como se dá a construção da atmosfera fílmica no filme O Sacrifício (Andrei Tarkovski, 1986) a partir de um paradigma atmosférico entendido como campo afetivo-sensorial entre filme e espectador. Argumenta-se que o filme organiza uma parábola de redenção em contexto apocalíptico, construída como um “ciclo atmosférico” de amplitude, compressão e dilatação, no qual escolhas formais e estilísticas modulam a experiência sensível e pré-reflexiva do espectador.
Resumo expandido
- A partir do conceito de atmosfera fílmica, que diz respeito a um campo afetivo e sensorial que emerge da articulação entre os elementos da obra cinematográfica — como imagem, som, luz, espaço, ritmo, duração dos planos e composição, entre outros — e a corporeidade do espectador, esta pesquisa investiga a construção atmosférica no filme O Sacrifício (1986), de Andrei Tarkovski, buscando demonstrar como ela se organiza a partir de um “ciclo atmosférico” estruturado em três momentos: amplitude, compressão e dilatação.
Em O Sacrifício, o cineasta Andrei Tarkovski parece empenhado em imprimir ao filme uma atmosfera muito específica: a de um recolhimento espiritual, marcada por gravidade, contemplação e pressentimento apocalíptico, na qual a fragilidade do mundo humano é confrontada com a necessidade de redenção. Trata-se, como o próprio Tarkovski afirmou, de uma parábola metafísica sobre fé, redenção e a possibilidade de um sacrifício capaz de restaurar sentido diante da ameaça de destruição. O núcleo temático do filme articula-se, assim, em torno da possibilidade de redenção a partir da doação extremada e sacrificial em um mundo atravessado pela iminência da autodestruição.
Nesse horizonte, a atmosfera fílmica não pertence exclusivamente ao sujeito nem ao objeto, mas constitui-se como um “entre” os corpos fílmico e do espectador, um espaço de ressonância afetiva no qual o sujeito é envolvido antes mesmo de qualquer operação interpretativa. Em O Sacrifício, essa atmosfera é atravessada por uma expectativa constante de que algo irá acontecer, ainda que tal acontecimento nunca se apresente de forma direta ou explícita. Em um contexto de guerra — que, paradoxalmente, nunca é mostrada — sua presença se insinua de modo difuso e sensorial: nas luzes piscando nos rostos petrificados dos personagens, na voz calma e distante da televisão, e na progressiva redução das cores até a predominância de tonalidades dessaturadas ou do preto e branco. A guerra, portanto, não se apresenta como representação, mas como uma lógica sígnica que estrutura a própria materialidade atmosférica do filme.
A pesquisa identifica, nesse contexto, que a construção atmosférica em Tarkovski se dá como um processo de modulação contínua do espaço e do tempo, configurando o que denominamos um “ciclo atmosférico” de natureza respiratória. Esse ciclo organiza-se em três movimentos: amplitude, compressão e dilatação. A fase inicial é marcada por espaços abertos e luminosos, associados a uma sensação de expansão sensível; segue-se uma fase de compressão, caracterizada pelo fechamento espacial, pela rarefação da luz e pelo aumento da densidade afetiva; e, por fim, uma fase de dilatação, na qual a tensão acumulada é liberada e o espaço volta a se abrir, na culminância do filme (o longo plano sequência do incêndio da casa) reconfigurando a experiência sensível do espectador. Tudo isso marcado por longos planos e movimentos lentos de câmera, próprios do estilo tarkovskiano.
Esse movimento respiratório da imagem não apenas organiza a espacialidade e a temporalidade do filme, mas também modula a experiência de presença do espectador, afetando-o em sua dimensão corporal e pré-reflexiva. As atmosferas, nesse sentido, não comunicam apenas significados, mas produzem estados sensíveis que se impõem como experiência vivida. O espectador não apenas “assiste” ao filme; ele o habita.
Por fim, o filme se caracteriza pela indeterminação entre realidade, sonho e devaneio, dissolvendo fronteiras narrativas e instaurando uma lógica onírica que reforça seu regime atmosférico. Essa ambiguidade desloca o espectador de uma posição interpretativa estável, inserindo-o em um campo de experiência no qual sentido e presença se entrelaçam continuamente.
Bibliografia
- BÖHME, Gernot. A atmosfera como o conceito fundamental da nova estética. Labemus, 2017 Disponível em https://blogdolabemus.com/2017/09/14/a-atmosfera-como-o-conceito-fundamental-da-nova-estetica-por-gernot-bohme/ Acesso em 23 jan. 2026.
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