Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Arthur Versiani de Azevedo (UFMG)

Minicurrículo

    Arthur Versiani é artista sonoro e pesquisador de Belo Horizonte. Graduado em Música (Composição), é mestrando pelo PPGMUS/UFMG e orientando de Marco Scarassatti. Pesquisa som e música no cinema. Participou de oficinas sobre o tema com O Grivo, Flora Guerra e Marcos Souza (Mostra Tiradentes). Realizou a trilha sonora original para um trabalho final do Núcleo de Pesquisa em Realização Audiovisual (2024, Galpão Cine Horto) e foi selecionado para a oficina Corpo Crítico do FestCurtasBH 2025.

Ficha do Trabalho

Título

    Voz sem corpo, corpo sem voz: desenho de som e espacialidade em dois filmes mineiros contemporâneos

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O trabalho busca analisar a utilização da chamada voz-off em duas cenas dos filmes mineiros Arábia (2017) e Vaga Carne (2019). Tensionando o ilusionismo cinematográfico que procura esconder sua natureza heterogênea, refletimos sobre a voz enquanto agente de acusmatização e corporificação. A partir de escolhas criativas do desenho de som, analisamos as implicações políticas da relação entre os corpos dos personagens com os espaços da diegese e da própria sala de cinema para o audioespectador.

Resumo expandido

    Essa pesquisa analisa comparativamente duas cenas em que se utiliza a chamada voz-off nos filmes mineiros Arábia (Uchôa e Dumans, 2017) e Vaga Carne (Passô e Alves Jr., 2019), investigando as escolhas criativas do sound designer dos dois projetos, Pedro Durães. Conforme a perspectiva de Rick Altman (1992), a abordagem analítica pensa o cinema enquanto um macroevento, evidenciando a abrangência dos impactos da banda sonora e suas relações espaciais com a banda visual.
    Foram selecionadas cenas de cerca de seis minutos, em que a construção sonora, para além de uma escuta semântica (Chion, 2011), assume maior importância narrativa do que as imagens. Em Arábia se trata de uma cena próxima ao final do filme, em que ouvimos a voz do protagonista em completo silêncio – a cenografia sonora (Flôres, 2013) da fábrica, constante durante todo o filme, se cala – e fluem na tela imagens de seu ambiente de trabalho. Em Vaga Carne, produção derivada da peça de teatro homônima de Grace Passô, nos minutos iniciais, a voz reverbera, em tela preta, com o enunciado da existência de vozes que invadem a matéria de diferentes corpos. Após alguns minutos acusmáticos, o filme introduz a banda visual ao espectador.
    Partindo da ideia de Mary Ann Doane (in Weis; Belton, 1985) em abordar o cinema enquanto uma prática significante que une espaços distintos, buscamos analisar o desenho de som. Para a autora, a voz no cinema articula o corpo fantasmático dos personagens mostrados na tela, com uma topologia de espaços heterogêneos e hierarquizados que se unem na sala de exibição. A autora critica a ideologia do visível, conceito desenvolvido por Jean-Louis Comolli, que no cinema narrativo se expressa, dentre outras maneiras, pela homogeneização do discurso fílmico e pelo domínio do espaço diegético sobre os demais – o espaço visível da tela e o acústico da sala (ibid.). Com base nesse aparato teórico, buscamos entender como se dá essa dinâmica espacial nas cenas analisadas por meio da voz.
    Para isso, procuramos situar os trechos analisados nas narrativas dos filmes, tendo como material complementar o roteiro de Arábia (Uchôa; Dumans, 2024) e a dramaturgia de Vaga Carne (Passô, 2018); decupar os elementos sonoros e visuais de cada cena e seu entorno, procurando entender as escolhas criativas de desenho de som, possivelmente nos correspondendo com Pedro Durães; analisar qualitativamente as relações entre voz, corpo e espaço nas cenas, a partir das ideias de Doane (in Weis; Belton, 1985) e Chion (1999, 2011); comparar o uso da voz-off e suas diferenças de enunciação nos dois filmes, tanto internamente às cenas quanto no contexto narrativo na qual se inserem; analisar os impactos perceptivos sobre o audioespectador (Chion, 2011) e as dimensões políticas dessas vozes nas cenas.
    Como implicações iniciais de análise, o trecho escolhido de Arábia pode ser entendido como um ápice dramático do filme, justamente pelo efeito que a voz do protagonista desacompanhada de um som ambiente causa. Podemos associar à ideia de lógica externa no fluxo sonoro, introduzida por Chion, e refletir sobre a posição social do personagem, um operário e trabalhador, historicamente silenciado. Em Vaga Carne, com a utopia de uma voz imaterial, presenciamos o caminho inverso, em que o sonoro ganha dimensão audiovisual e com esse artifício, no contexto do filme, elabora sobre a racialização e questões de gênero.
    A pesquisa contribui para pensar o potencial do desenho de som como um trabalho criativo que, em diálogo com a direção e mesmo no cinema narrativo de ficção, pode tensionar a centralidade do espaço diegético, da imagem visual e os ideais homogeneizadores e realistas do cinema clássico. Em diálogo com diversos teóricos do som cinematográfico, buscamos compreender como a voz enquanto um dos elementos da trilha sonora corporifica e descorporifica personagens em uma dinâmica espacial intrinsecamente heterogênea e como essa relação pode ter implicações políticas importantes.

Bibliografia

    ALTMAN, Rick (Org.). Sound theory, sound practice. New York: Routledge, 1992.

    CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Trad.: Pedro Duarte. Lisboa: Edições Texto e Grafia, Lda., 2011.

    CHION, Michel. The voice in cinema. Trad.: Claudia Gorbman. New York: Columbia University Press, 1999.

    FLÔRES, Virgínia. O cinema, uma arte sonora. São Paulo: Annablume, 2013.

    PASSÔ, Grace. Vaga carne. Belo Horizonte: Javali, 2018.

    UCHÔA, Affonso; DUMANS, João. Arábia: caminhos da escrita de um filme. Belo Horizonte: Editora Javali, 2024.

    WEIS, Elisabeth; BELTON, John (org.). Film Sound: Theory and Practice. New York: Columbia University Press, 1985.