Ficha do Proponente
Proponente
- Nicole Mendes (USP)
Minicurrículo
- Mestranda em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Bacharela em Direito pela Faculdade de Direito (FD) da Universidade de São Paulo (USP) e intercâmbio em Direito pela Queen Mary University of London (QMUL). Tem experiência acadêmica e profissional em Cinema e Audiovisual, com ênfase nos estudos dos cinemas negros.
Coautores
- Yan Victor Barros Altino (UESB)
Carlos Bruno Churuska de Oliveira (UNIASSELVI)
Ficha do Trabalho
Título
- A troca como método e o arquivo sensível como ímpeto: feitura do filme “Diálogo Bulbul”
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- Essa comunicação visa investigar o processo de feitura do curta-metragem experimental “Diálogo Bulbul” (2025), de Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos, realizado em um contexto remoto e educacional. Buscando refletir questões éticas e estéticas do cinema negro contemporâneo, exploramos nesse fazer temas como coletividade, troca, descentralização, contra-arquivo e sensorialidade para compor esse caminho de composição da obra.
Resumo expandido
- A troca como método. Esta proposição volta-se para um relato de experiência que reflete acerca do processo criativo do curta-metragem “Diálogo Bulbul” (2025), realizado em co-direção por Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos.
A obra nasce no 10° Festival Internacional de Cinema de Arquivo — Arquivo em Cartaz, através da Oficina de Criação de Filmes Lanterna Mágica, uma atividade formativa do festival que visa idealizar obras sobre os documentos do Arquivo Nacional, incentivando o uso destes materiais como fonte de inspiração para novas produções audiovisuais.
Os processos de desenvolvimento da obra se deram remotamente, a partir de encontros periódicos de pessoas de diferentes localidades do Brasil. Foi imprescindível a promoção do diálogo para sua concretização técnica, devido a alguns desafios como a distância física, ruídos de comunicação e confluência criativa. Exercitando o respeito e a escuta, os co-diretores colaboraram em todas as áreas do projeto, não escolhendo a via de hierarquizações – pelo contrário, o contexto exigiu uma criatividade metodológica que durante o desenvolvimento, resultou também em uma ética de trabalho e gerou perspectivas de “um modelo que possa ser incorporado pelo cinema independente de forma mais duradoura, ampliando acessos e possibilidades da produção cinematográfica” (PESSOTO; CARVALHO, 2020, p. 97).
Do ponto de vista imagético, o filme pensa o seu arquivo a partir de diferentes nuances: parte tanto do arquivo institucional, pessoal e da internet. Estes diferentes tipos de arquivo servem um propósito de contra-arquivar, isto é, inserir-se no arquivo – na linguagem derridiana – e abrí-lo “à crítica e à transformação” (CVETKOVICH apud AZEVEDO, 2016, p. 79), produzindo novos sentidos e novos imaginários políticos por detrás deste material. Com isso, o processo do filme buscou dotar de ritmo esses materiais diversos, operando numa lógica musical e de agitação e propondo uma articulação dos sons com os materiais de arquivo – não presos a uma narratividade ou ética educativa (DIAS, 2009, p. 5), mas sim à sensorialidade.
A esta comunicação, focada no relato de concepção da obra, interessa pensar, a partir de “Diálogo Bulbul”, processos coletivos e remotos de realização de filmes e processos formativos de ensino e prática de cinema e audiovisual, tendo como eixos as palavras-chave: coletividade, troca, descentralização, contra-arquivo e sensorialidade. Isto porque o processo criativo de confluência de diferentes ideias, sem uma “direção” única (haja vista ser um projeto codirigido) e sem etapas fixas de pré e pós-produção, abre caminhos rumo a um cinema negro mais afeito a valores descolonizantes, ou seja, que tenham a comunitariedade (DE SOUSA, 2018, p. 446) como aspecto central: rejeição da figura do autor individual como lócus do criar; centralidade da coletividade; valorização da sensorialidade e da oralidade; e a afirmação de que a história do negro deve ser contada, em primeira voz, pelo negro, quebrando uma tradição representacional.
Deste modo, a criação do curta-metragem “Diálogo Bulbul” torna-se potencializada por um processo formativo composto por pessoas negras distantes geograficamente, mas que se aproximaram em torno de um propósito criativo permeado por escolhas ético-estéticas e de comunicação, calcadas na lógica do pensamento negro descolonial.
Refletir sobre “Diálogo Bulbul” é compreender que, a partir desses arquivos — que em tese pertencem a um passado paralisado — e da agitação proposta por meio do remix audiovisual guiado pelo sensível, é possível imaginar novos caminhos de liberdade e autonomia para evocar nossos próprios horizontes de existência, da nossa própria leitura da história e de seus documentos e da nossa própria linguagem e método no fazer cinematográfico — visionando novos mundos perante um mundo que acaba, mas que, segundo Grace Passô em República (2020), para nós, mal começou. Trata-se da inventividade negra.
Bibliografia
- DE SOUSA, Ana Lúcia Nunes. Metodologías para la escucha en el audiovisual popular. Imagofagia, n. 17, p. 425-448, 2018.
DIAS, Rodrigo Francisco. Em Busca Da Definição: Mas Afinal… O Que É Mesmo Documentário? De Fernão Pessoa Ramos. Fênix-Revista de História e Estudos Culturais, v. 6, n. 2, p. 1-11, 2009.
DOS REIS, Fracis Vogner. Soberania Imaginativa. In: UNIVERSO PRODUÇÃO. 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes: catálogo oficial. Tiradentes, MG: Universo Produção, 2026.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PESSOTTO, Ana Heloíza Vita; CARVALHO, Juliano Maurício de. Audiovisual na pandemia: desafios, estratégias e criatividade. 2020.
SILVINO, Ana Júlia. O cine-sample de Lincoln Péricles – Revista Cinética.
STEYERL, Hito. In Defense of the Poor Image.