Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Felipe Duarte Carneiro (UFPE)

Minicurrículo

    Felipe Duarte Carneiro é Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco, onde realizou iniciação científica sob a orientação de Tiago Soares. Concluiu a graduação com o trabalho “Contemplações Paralelas”, orientado por Nina Velasco e Cruz e apresentado na edição de 2025 da SOCINE. Além de atuar na realização audiovisual nos departamentos de Direção e Roteiro, é crítico e editor da Revista Nostalgia, onde assina também edições temáticas e a coluna Circulando.

Ficha do Trabalho

Título

    O Dispositivo Infinito: Estratégias Estéticas em Adeus, Dragon Inn à luz da Teoria do Aparelho

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    Em 2003, o cineasta taiwanês Tsai Ming-Liang estreou o filme “Adeus, Dragon Inn”. Sua inserção no panteão da cinefilia o permitiu revisitação por distintas plateias, em diferentes contextos históricos. Este trabalho, denominado “O Dispositivo Infinito: Estratégias Estéticas em Adeus, Dragon Inn à luz da Teoria do Aparelho”, busca utilizar a Teoria do Aparato para articular como a contemporaneidade permite recontextualizações e reforços a um filme que se recusa a dizer “adeus”.

Resumo expandido

    Em 2003, o cineasta taiwanês Tsai Ming-Liang estreou o longa-metragem “Adeus, Dragon Inn” (originalmente intitulado “Bu San”). O filme observa o último dia de funcionamento da quase vazia sala de cinema Fu He Grand Theater, através das perspectivas de seus solitários funcionários, seus antigos frequentadores e um pequeno grupo de homens que elege os banheiros e fundos do estabelecimento como local para encontros sexuais.

    Caracterizado pelo ritmo lento e pela decupagem contemplativa, a obra logrou êxito ao ingressar no léxico da cinefilia global, percebido como um trabalho que se posiciona valorizando os espaços de exibição independentes, em contraste aos multiplexes emergentes no começo dos anos 2000, que ameaçavam salas de cinema menores e mais tradicionais. Esse sucesso garantiu a Adeus, Dragon Inn o privilégio de ser revisitado ao redor do mundo por plateias distintas, várias vezes em salas de rua independentes, e de ser recontextualizado pelas questões que acometem a linguagem cinematográfica ao longo do tempo.

    Desta forma, em 2025, o filme foi exibido na cidade do Recife em sessão única, na sala de exibição do Derby, da Fundação Joaquim Nabuco. A sessão permitiu que os apreciadores do longa o re-encontrassem e que seus desconhecidos (dentre eles, o autor do presente trabalho) o vislumbrassem de maneira inaugural. Mais ainda, permitiu que suas questões temáticas e elaborações estéticas fossem recontextualizadas às luz das conjunturas do audiovisual na atualidade, das quais interessa assinalar um acirramento ainda maior da oposição entre as salas comerciais e os cinemas de rua, acrescidos de uma mutação na espectatorialidade das audiências, especialmente devido a emergência do streaming e ao hiperestímulo cotidiano de mídias online.

    O presente trabalho, “O Dispositivo Infinito: Estratégias Estéticas em Adeus, Dragon Inn à luz da Teoria do Aparelho”, é um exercício que permite ao autor se debruçar sobre essas possíveis recontextualizações, bem como, através delas, acentuar potências das estratégias estéticas concebidas por Ming-Liang e inerentes às intenções do filme. Para fazê-lo, executa-se aqui uma análise crítica do texto fílmico, considerando seus enquadramentos, a duração de seus planos e sua decupagem de som, em associação a um relato das condições e ocorrências no momento da exibição do filme na capital pernambucana, valendo-se dessas nuances como ferramentas que auxiliam a desdobrar o pensamento sobre o filme.

    Para além disso, busca-se operacionalizar aqui também a Teoria do Dispositivo ou Teoria do Aparato, contando com o especial amparo de uma de suas mentes fundadoras, o pensador francês Jean-Louis Baudry, no ensaio “Efeitos Ideológicos No Aparelho Cinematográfico Básico” (1970) . Crítico do dispositivo clássico enquanto aparato ideológico burguês, Baudry contribuiu historicamente para desenhar a natureza da sala de exibição como algo híbrido, no que depende tanto de noções tecnológicas e arquitetônicas quanto de uma predisposição ideológica para se concretizar.

    Em seu pensamento, o intelectual trabalha categorias tais quais “identificação”, “perspectiva” e “continuidade” que serão aqui abordadas para ilustrar, talvez a contragosto do autor francês, a riqueza da linguagem proposta por Tsai Ming-Liang no que consta sua intenção de valorar o espaço clássico de exibição – e quiçá, de promover sua perpetuação inarredável através da própria linguagem a qual ampara. Assim sendo, “O Dispositivo Infinito” busca evidenciar relevância do dispositivo clássico graças à atualização temática de uma obra a qual nunca se diz “adeus”.

Bibliografia

    BAUDRY, Jean-Louis. Efeitos ideológicos do aparelho cinematográfico. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 1983. p. 385-399.

    RAMALHO, Fábio. Corpo e engajamento afetivo em Adeus, Dragon Inn. Esferas, Brasília, v. 3, n. 5, p. 101-111, jul./dez. 2014. Disponível em: https://portalrevistas.ucb.br/index.php/esf/article/view/5302. Acesso em: 26 abr. 2026.

    PINTO, Eduardo Brandão. Encenar as linhas de força: dimensões perceptuais em Adeus, Dragon Inn. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, São Paulo, v. 47, n. 54, p. 102-120, jul./dez. 2020. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2020.166247. Disponível em: https://revistas.usp.br/significacao/article/view/166247. Acesso em: 26 abr. 2026.

    PARENTE, André; CARVALHO, Victa de. Entre cinema e arte contemporânea. Revista Galáxia, São Paulo, n. 17, p. 27-40, jun. 2009