Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Caroline Monteiro Jacintho de Oliveira (UFBA)

Minicurrículo

    Multiartista, articula corpo, palavra, pensamento e imagem em práticas de arte-vida. Jornalista de formação, transitou para as Artes Visuais, com mestrado (UFPE/UFPB) e doutorado em curso (UFBA). Atua no audiovisual entre pesquisa, roteiro, direção, performance e produção exec., desenvolvendo práticas de deriva, escuta e presença. Sua trajetória, marcada por deslocamentos e pela maternidade, reverbera em práticas sensíveis que tensionam criação, experiência e modos de existência.

Ficha do Trabalho

Título

    Rito como percurso: corpo, arte-vida e fabulação cinematográfica como contra-narrativa capitalista

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Experiências cinematográficas em que corpo e arte-vida se entrelaçam, potencializando ritualísticas de fricção a este capitalismo adoecedor das nossas subjetividades e da terra. A partir de conceitos filosóficos das artes, especialmente no meu filme MiamiCuba (2021-PB), inspiro-me em dispositivos como a “deriva urbana” e o “caminhar como prática estética”, expressando um campo de forças sensíveis do cotidiano urbano enquanto possibilidade de fabulação e resistência nestes tempos apocalípticos.

Resumo expandido

    Este trabalho se constrói a partir de uma prática situada entre cinema, arte e vida, em que o fazer fílmico não se separa da experiência, mas se constitui com ela. Mais do que investigar, trata-se de elaborar, desde o próprio percurso como realizadora, modos de criação que tensionam formas hegemônicas de produzir imagem e conhecimento, afirmando o cinema como prática sensível e modo de estar no mundo.
    Diante de um cenário atravessado por colapsos ambientais, subjetivos e políticos, interessa menos reiterar imagens de fim e mais perceber como, no interior desses esgotamentos, ainda emergem práticas que reabrem o sensível. O corpo desloca-se, então, de uma condição exaurida para um estado de escuta, presença e relação, tornando-se campo de atravessamentos estéticos e políticos.
    É nesse horizonte que o rito aparece como percurso. Não como forma fixa, mas como prática que organiza a experiência no tempo, sustenta a atenção e cria zonas de intensidade onde o cinema deixa de operar apenas como representação. O rito se dá no fazer, no encontro e na duração, instaurando modos de existência que escapam às lógicas produtivistas e aos regimes de captura do capitalismo contemporâneo.
    Essa perspectiva atravessa minha trajetória como realizadora, encontrando no filme Miami–Cuba (2021-PB) um ponto de condensação. Nele, dispositivos oriundos das artes, como a deriva urbana e o caminhar enquanto prática estética, são acionados como motores de criação. Caminhar, nesse contexto, é gesto de inscrição e escuta, capaz de reconfigurar a relação entre corpo, cidade e imagem.
    Nesse campo, a fabulação cinematográfica opera como estratégia de reconfiguração do real, atuando nas frestas entre o visível e o sensível. O trabalho se aproxima de um cinema de fluxo, atento às variações do tempo e às intensidades do vivido, tensionando as fronteiras entre o documental e o ficcional e instaurando zonas híbridas onde experiência e imagem se contaminam.
    Em aproximação com práticas de arte-vida, o cinema assume um caráter processual, relacional e aberto, prolongando-se na percepção, na memória e nos afetos. Pensar o cinema como fruição confronta os regimes de atenção marcados pela aceleração, instaurando outras temporalidades e exigindo presença. Há momentos em que fruir um filme é, em si, ser cinema.
    Perspectivas feministas e decoloniais ampliam esse campo ao deslocar regimes de olhar e propor outras ecologias sensoriais, nas quais corpo, território e memória se articulam de forma indissociável. Nomear, nesse contexto, também é gesto político. Ao evocar a Cidade da Parahyba, reinscrevo a cidade em uma camada histórica e simbólica que resiste às lógicas oficiais e abre espaço para outras cartografias afetivas.
    Essa jornada atravessa práticas de derivar e registrar vivências entre Salvador, Recife e Cidade da Parahyba, tecendo meu próprio capital simbólico em cartografias que se compõem na experiência. O caminhar se afirma como escrita incorporada, onde o gesto de registrar — em fotos e vídeos realizados ao celular — se dá em contiguidade com o viver, como escuta e inscrição sensível do que emerge. São vestígios que se acumulam no corpo da pesquisa e que se desdobram na realização de um filme-ensaio.
    Assim, a fabulação se afirma como força de invenção e contra-narrativa capitalista, não por oposição direta, mas pela abertura de fissuras nos modos hegemônicos de ver, sentir e existir. O percurso se configura como rito: um gesto contínuo de atravessamento em que caminhar, filmar e existir se tornam indissociáveis. Um cinema que não busca capturar o mundo, mas habitá-lo, inventando modos de vida possíveis em meio às urgências do presente.

Bibliografia

    Referências bibliográficas
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    Filmografia
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