Ficha do Proponente
Proponente
- PALOMA DE SOUZA BUQUER DOS SANTOS (UFRJ)
Minicurrículo
- Historiadora (UFF) e pós-graduada em Produção Audiovisual (ESPM) e História (UCAM), atua há 18 anos no Departamento de Arte, com experiência em cinema, streaming e publicidade. Destaca-se como produtora de arte (set decorator) de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. No ensino, orientou a disciplina de Direção de Arte na ESPM-RJ por três anos. Atualmente, é mestranda no Programa Artes da Cena (ECO/UFRJ) e assinou recentemente a produção de arte da série “Os Donos do Jogo” (Netflix).
Ficha do Trabalho
Título
- Matihis e vestígios como grafias subjetivas para além das mercadorias.
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- Este trabalho propõe uma reflexão ético-política sobre a produção de arte audiovisual a partir do diálogo epistolar com Davi Kopenawa. Tensiona-se o conceito yanomami de matihi e a noção de “vestígio” como escrita da subjetividade cênica. Através das lentes de Leda Martins e Denise Ferreira da Silva, analisa-se a prática criativa como zona de fricção entre a mercadoria capitalista e o encantamento estético, traçando um paralelo entre as cosmogonias.
Resumo expandido
- Introdução
Este trabalho é fruto de uma proposta teórico-prática desenvolvida na disciplina “Arte e Política” do Mestrado em Artes da Cena (ECO/UFRJ). Estruturado sob a forma de uma carta endereçada ao líder yanomami Davi Kopenawa, o texto busca instigar as semelhanças, disparidades e as implicações estéticas e sensíveis da linguagem da produção de arte desvelada na criação dos vestígios e os diferentes significados que matihi possui no devir dessa existência yanomami.
Referencial Teórico
A fundamentação teórica estabelece uma zona de vizinhança entre saberes heterogêneos. Utiliza-se a epistolaridade como dispositivo de intimidade e urgência, amparada por Gloria Anzaldúa, para romper com a neutralidade acadêmica. A análise da materialidade cênica dialoga com:
• Davi Kopenawa e Bruce Albert: Pela crítica à “paixão pela mercadoria” e ao conceito de matihi.
• Leda Martins: Com a noção de oralitura e performances da memória, deslocando o centro do saber da escrita para o corpo e para a presença dos objetos-ritos.
• Denise Ferreira da Silva: Através da “Leitura Po(ética)”, que propõe o ato de dar imagens como uma prática de justiça e diferenciação.
Desenvolvimento
A Produção de Arte constitui-se como uma linguagem cujas gramática e poética revelam-se na materialidade construída. Por meio de artefatos que articulam cores, formas, texturas, temporalidades e signos visuais, estabelece-se uma correlação direta com o espaço tridimensional da cena. A dinâmica que rege a arte evocada pela encenação possui tamanha potência que, a partir do instante em que objetos, itens ou mercadorias adentram o espaço cênico — território da fabulação e do sensível —, estes transmutam-se em vestígios. Tais vestígios transbordam as subjetividades das personagens e do próprio espaço, superando a condição de mera matéria inanimada.
Nesse contexto, propõe-se a reivindicação do termo “vestígio” em substituição ao conceito de “objeto” na montagem cenográfica. Embora os objetos participem do processo inicial, o termo revela-se limitante no momento em que a imagem inventada se concretiza. O vestígio, por outro lado, ancora uma complexa rede de significados que converge para a proposta comunicacional da produção de arte.
Dessa forma, o que em um primeiro momento apresenta-se como matihi — a mercadoria do branco, sob a ótica yanomami —, desvela-se como vestígio ao ocupar a “aldeia cênica”. Ocorre, então, uma experiência estética e espiritual análoga à descrita por Davi Kopenawa ao referenciar os adornos rituais e os bens pertencentes a Omama e aos xapiri. Ao perderem sua função puramente mercantil para tornarem-se índices de um mundo possível, esses artefatos despertam no espectador reações que aproximam a visualidade cinematográfica do valor de espírito e beleza evocado pelas cosmologias indígenas.
Considerações Finais
O trabalho indica que o encontro da produção de arte com a cosmologia yanomami não oferece conforto, mas um “desassossego” produtivo. A conclusão aponta para a necessidade de uma prática cinematográfica que reforce a vida contida na matéria e que entenda o ambiente cênico como um vestígio pulsante de existências que resistem ao apagamento.
“Quando nos conta que os Xamatari, durante a despedida, os convidados de casas antigas comem um pouco das cinzas dos ossos ainda quentes — quando retiradas do fundo do pilão onde foram moídas, misturam-nas em uma panela de mingau e as consomem até não sobrar uma gota sequer —, sei que a comparação já é imperfeita e desigual. Mas essa ideia de trazer para si o sopro de vida do morto, e ter consigo uma imitação de seu princípio de vida ao consumi-lo, foi a imagem mais potente para dar conta dessa voracidade criativa. O contraponto (lido aqui como metáfora) é, para vocês, representação de finitude; para mim, o princípio de tudo.”
Bibliografia
- ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Tradução de Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte: UFMG, 2000. (Texto fundamental sobre o dispositivo da carta como escrita de resistência e intimidade).
FERREIRA DA SILVA, Denise. A Dívida Impagável. Tradução de Amilcar Packer e Pedro Ferreira. São Paulo: Casa do Povo / Oficina de Imaginação Política, 2019. (Base para a sua discussão sobre a “Leitura Po(ética)”).
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (A fonte principal sobre os conceitos de matihi, xapiri e a crítica à mercadoria).
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021. (Ou o artigo clássico: MARTINS, Leda Maria. “Performance da oralitura: corpo, lugar da memória”. Letras, n. 26, p. 63-81, 2003).