Ficha do Proponente
Proponente
- Michael Abrantes Kerr (UFPEL)
Minicurrículo
- Professor Associado dos cursos de Cinema da Universidade Federal de Pelotas e Chefe do Núcleo de Difusão Cultural (UFPel). Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela UNISINOS na linha Mídias e Processos Audiovisuais. Graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Pelotas. Desenvolve o projeto de pesquisa “Imagem, Montagem e Memória”, que investiga modos de constituição da imagem audiovisual contemporânea a partir da relação entre montagem e memória em diferentes meios.
Ficha do Trabalho
Título
- Rastros, cicatrizes e sintomas: os limites da IA na montagem documental como ato político
Seminário
- Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas
Resumo
- Em um contexto de avanço da IA na montagem audiovisual, este artigo defende a relação entre montador e imagem como eixo definidor do processo criativo. Tendo como ponto de partida o documentário “8 de janeiro: memória, restauração e democracia” (2025), a partir de teorias baseadas em autores como Didi-Huberman, Eisenstein e Benjamin, pensa-se a edição como ato político, explorando ausências e imagens-sintoma para revelar a violência e a resistência cultural, algo ainda não replicável pela IA.
Resumo expandido
- O documentário contemporâneo, especialmente quando aborda eventos traumáticos como os atos de 8 de janeiro de 2023, coloca em evidência a montagem como um gesto político e poético, no qual a relação entre montador e imagem define não apenas a narrativa, mas também a construção da memória e da história. O filme “8 de janeiro: memória, restauração e democracia” (2025), realizado em parceria com o IPHAN e a Universidade Federal de Pelotas, exemplifica como a edição pode operar como um campo de confronto entre passado e presente, restituindo simbolicamente o que foi apagado pela violência, sem, no entanto, apagar as lacunas deixadas pela destruição. Ao explorar a restauração de obras vandalizadas no Palácio do Planalto, o documentário utiliza a montagem dialética, inspirada em teóricos como Didi-Huberman, Eisenstein e Benjamin, para criar relações entre imagens-sintoma, depoimentos e arquivos, revelando as fissuras da história e a potência das ausências.
Esse processo criativo, no entanto, não é exclusivo do documentário sobre o 8 de janeiro. Obras como “Edifício Master” (2002), de Eduardo Coutinho, “Democracia em Vertigem” (2019), de Petra Costa e “A Cidade é uma Só” (2011), de Adirley Queirós também demonstram como a montagem, entendida como um diálogo sensível entre o montador e o material bruto, é capaz de transformar imagens em atos de resistência, desconstrução e reconstrução da história oficial. Em todos esses casos, a edição não se limita a ilustrar discursos, mas atua como um gesto de interpretação, no qual a escolha de planos, ritmos e silêncios revelam camadas de significado que transcendem a literalidade. Como afirma Tarkovsky, montar é “esculpir o tempo”: um processo subjetivo, intuitivo e profundamente humano, no qual o cineasta (muitas vezes montador e diretor ao mesmo tempo) seleciona, corta e justapõe não apenas com base em critérios técnicos, mas a partir de uma sensibilidade que permite às imagens “olharem de volta” e dialogarem com quem as manipula.
Nesse sentido, a montagem tradicional se afirma como um ato de autoria, no qual a liberdade poética e a intencionalidade política se entrelaçam. A decisão de preservar planos longos, explorar pausas ou inserir ausências intencionais não responde a algoritmos, mas a uma compreensão profunda dos eventos e das emoções que eles evocam. Essas escolhas, como demonstram os documentários citados, são capazes de sugerir ao espectador o que não se vê, mas se sente. Tal dimensão a inteligência artificial ainda não consegue replicar. Enquanto a Inteligência Artificial opera a partir de padrões pré-programados e dados quantificáveis, a montagem humana lida com o imponderável: o ritmo interno das imagens, a sobrevivência dos sintomas históricos (como propõe Warburg com o conceito de “Nachleben”), e a capacidade de transformar arquivos em pensamento crítico, como sugere Bergson.
Diante do avanço da IA na edição audiovisual, o documentário como “8 de janeiro”, assim como os demais exemplos, levanta questões urgentes: como garantir autoria em um processo mediado por algoritmos? Que critérios um software adotaria para selecionar imagens ou trechos de entrevistas que vão além da literalidade, captando nuances emocionais e políticas? Como um sistema automatizado compreenderia a necessidade de agir no presente, reconstruindo memórias a partir de lacunas e silêncios? Essas perguntas não visam descartar o uso de ferramentas tecnológicas, mas sim destacar que a potência do documentário como ato político reside justamente na subjetividade humana, numa capacidade de sentir, intuir e reinventar a realidade a cada corte, a cada escolha. Em um mundo onde a IA promete eficiência, a montagem tradicional reafirma seu valor como espaço de experimentação, resistência e criação de sentidos que transcendem a mera reprodução do visível.
Bibliografia
- BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
BENJAMIN, Walter. Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984
BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
EISENSTEIN, Sergei. O Sentido do Filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002
DIDI-HUBERMAN, Geroges. A imagem sobrevivente: história da arte e do tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013a.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante da imagem. São Paulo: Editora 34, 2013b.
DIDI-HUBERMAN, Geroges. Quando as imagens tomam posição. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2021.
DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. Cosac Naify, São Paulo: 2004.
LEONE, Eduardo. Reflexões sobre a montagem cinematográfica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.
MANOVICH, L. Cultural Analytics. Cambridge: MIT Press, 2020.
MURCH, Walter. Num piscar de olhos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
TARKOVSKY, Andrei. Esculpir o Tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.