Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    SENARIA OLIVEIRA DA SILVA SANTANA (UNEB)

Minicurrículo

    Senaria Santana é doutoranda em Crítica Cultural e mestra em Educação e Diversidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde também se licenciou em Letras – Língua Inglesa e Literaturas. Integra os grupos de pesquisa Volta (UFBA) e LEFOR (UNEB). Com experiência na formação de leitores, leciona na Educação Básica no CETI Berilo Vilas Boas e media o Clube Deleit(ura).

Ficha do Trabalho

Título

    DO VERBO AO CORPO: ESTUDO COMPARATIVO DA TRANSPOSIÇÃO DA SUBJETIVIDADE EM O MILAGRE

Resumo

    O presente trabalho investiga os processos de transposição intermediática entre a literatura e o cinema, elegendo como objeto de estudo o romance O Milagre (The Wonder, 2018), de Emma Donoghue, e sua adaptação homônima dirigida por Sebastián Lelio (2022). O objetivo central é analisar as estratégias de mise-en-scène e construção sensorial que reconfiguram a introspecção narrativa em linguagem visual. Buscamos especificamente compreender como os elementos do fluxo de consciência das personagens s

Resumo expandido

    INTRODUÇÃO

    No campo dos estudos comparativos, o paradigma da fidelidade nas adaptações às obras literárias vem sendo amplamente problematizado. O reconhecimento das adaptações como obras autônomas retira a premissa de fidelidade do campo de relevância. Nesse viés, o estudo comparativo busca aprofundar-se não em uma métrica de similaridade, mas na compreensão de como histórias são reescritas em outras linguagens, analisando limites e potencialidades na recriação estética para o público. No caso de O Milagre, ambientado na Irlanda pós-fome do século XIX, o desafio da transposição reside na natureza da obra original. É um romance psicológico que lida com a fé, o jejum de Anna O’Donnell e a subjetividade da enfermeira Lib Wright . A adaptação cinematográfica dirigida por Sebastián Lelio não busca apenas ilustrar a trama, mas sim construir um equivalente sensível para a experiência do corpo. Assim, este estudo propõe que o filme opera uma “remediação” da subjetividade, transformando o “verbo” literário em “carne” audiovisual por meio de uma narrativa cinematográfica.

    METODOLOGIA

    Para realizarmos este estudo, tomaremos como base a abordagem comparativista, estabelecendo uma análise contrastiva. O corpus do estudo é constituído pelo romance O Milagre (2018), da escritora irlandesa Emma Donoghue, e pelo filme homônimo de 2022. Assim, seguiremos o procedimento investigativo em três etapas. Uma leitura narratológica do romance, compreendendo os elementos constituintes do texto literário. Em seguida, haverá a observação e descrição dos componentes da linguagem cinematográfica. Por fim, realizaremos um cruzamento entre esses elementos, buscando contrastar como o filme substitui a introspecção textual das personagens por dispositivos visuais e sonoros.

    FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

    Recorremos a Robert Stam (2000), para quem a adaptação deve ser compreendida sob o prisma do dialogismo. Nessa perspectiva, o filme não busca uma “fidelidade” ao original, mas estabelece uma conversa entre textos onde o ponto central é a recriação estética. Para isso, a narratologia de Mieke Bal (2009) permite analisar tais estruturas independentemente de sua manifestação mediática. Complementarmente, Brian McFarlane (1996) fornece a distinção entre elementos de transferência e elementos de adaptação, que exigem uma substituição criativa por recursos específicos da linguagem cinematográfica. Por fim, as premissas de George Bluestone (1957) contribuem com este estudo ao abordar as estratégias de mise-en-scène e construção sensorial que reconfiguram os elementos do romance em linguagem visual no processo de transposição.

    ANÁLISE E DISCUSSÃO

    A obra O Milagre (2018) estrutura-se em cinco capítulos. Neles, o leitor é conduzido por uma narrativa em terceira pessoa, com foco narrativo onisciente e diálogos diretos que conduzem a progressão narrativa sobre uma menina de onze anos, no interior da Irlanda, que alega não comer nada além de “maná do céu”. Na transposição, Lelio se apropria de elementos como a paisagem sonora e a iluminação para criar uma sensação de mistério que se torna parte integrante da narrativa. Esse papel é assumido no livro pelos diálogos e pensamentos da enfermeira. As ações descritas são reconstruídas a partir do jogo de ângulos entre planos abertos da paisagem e da fotografia com composições angustiantes no interior da casa da menina, que prenunciam o desfecho do enredo.

    CONCLUSÃO

    O que podemos concluir a partir dessa análise é que a transposição de O Milagre evidencia o potencial do cinema enquanto linguagem autônoma ao adaptar uma obra literária. A obra de Lelio demonstra que a subjetividade se constrói além do verbal, utilizando o corpo e o espaço como territórios de significação. A obra de Lelio demonstra que a subjetividade se constrói além do verbal, utilizando o corpo e o espaço como territórios de significação. Essa transição do “verbo ao corpo” reafirma a autonomia estética do cinema na tradução intersemiótica.

Bibliografia

    ANDREW, James Dudley. As principais teorias do cinema: uma introdução. Rio de Janeiro. Zahar, 2002.
    BAL, Mieke. Narratology: Introduction to the Theory of Narrative . University of Toronto Press. Edição do Kindle. 2009
    FELIX, José Carlos. Caos controlado: a tensão entre controle técnico e liberdade criativa em Mistérios e paixões e Cidade de Deus. Orientador: Fabio Akcelrud Durão. 2013. 291 p. il. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2013.
    FELIX, J. C.―Literature and the realm of adaptaion‖. In Língua & Letras: Dossiê:
    linguagem, literatura e cinema. Volume 6, número 11, 2º. Semestre 2005. P. 73-88.
    HUTCHEON, Linda; O’FLYNN, Siobhan. A Theory of Adaptation. 2. ed. London; New York: Routledge, 2013.
    MCFARLANE, B. Novel to film an introduction to the theory of adaptation. Oxford:
    Clarendon Press, 1996
    DONOGHUE, Emma. O milagre. 1. ed. – Campinas [SP] : Verus, Edição do Kin