Ficha do Proponente
Proponente
- Damyler Ferreira Cunha (PPGCINE-UFS)
Minicurrículo
- Doutora e mestra em Meios e Processos Audiovisuais (ECA-USP), atuou como produtora no Coletivo Teatro Dodecafônico (2010-2013), na Fundação Padre Anchieta/TV Cultura de São Paulo (2013) e como técnica de som e produtora na VIATV Produção (2010-2014). Pós-doutoramento no PPGCINE-UFF (2025-2026), pesquisando as interações entre imagem, som e música em filmes experimentais contemporâneos. É membra do Observatório Audiovisual da UFS e docente efetiva do curso de Cinema e Audiovisual e PPGCINE-UFS.
Ficha do Trabalho
Título
- A paisagem sonora extremista no documentário experimental O Avesso do Céu (2023), de Dias & Riedweg
Seminário
- Histórias e tecnologias do som no audiovisual
Resumo
- Essa comunicação discute as relações entre som, política e territorialidade no documentário experimental O Avesso do Céu (2023). No design de som deste filme há a onipresença e permutação entre os sons da serra elétrica, o toque cíclico do pilão e os cânticos neopentecostais cantados pelos povos indígenas da região do Vale do Javari. Sua paisagem sonora denota uma relação violenta entre religião, madeireiras e o cotidiano daquele território fronteiriço.
Resumo expandido
- O Avesso do Céu, documentário experimental realizado em 2023 pela dupla de artistas Maurício Dias e Walter Riedweg se deteve sobre mesmo tema e região explorada por outro documentário Ex-Pajé, dirigido por Luis Bolognesi em 2018. No extremo oeste da região amazônica brasileira, desde muitos séculos a presença de evangelizadores dos povos indígenas tem se intensificado e promovido um apagamento dos rituais e a dominação corporal e territorial destes povos. No artigo “Cinema enquadra impacto da evangelização dos povos indígenas” (2024), escrito por Anabela Roque é destacado a importância da cidade de Atalaia do Norte neste cenário de disputa da conversão de indígenas em contexto urbano. Segundo Roque (2024), para tratar do tema da proliferação evangélica O Avesso do Céu tem Atalaia do Norte como principal ponto de acesso à Terra Indígena do Vale do Javari, destacando a existência de mais de sessenta igrejas evangélicas distintas na cidade. Numa das sequências de cenas no interior de uma igreja destacada pela jornalista, a ficcionalização deste cotidiano de escassez se faz presente a partir do uso da ironia na montagem: um pastor menciona que a terra será transformada em belíssimo paraíso e que possivelmente será em Atalaia do Norte. Essas promessas do pastor e outras falas de sua pregação são associadas no filme a partir de uma montagem paralela entre a pregação do pastor no interior da igreja, uma gravura de folheto religioso no qual aparece uma família branca e feliz vivendo no paraíso e planos de ruas alagadas de água suja nos bairros de palafitas da cidade.
A sobreposição entre os ruídos urbanos e a pregação do pastor neste tipo de sequência com montagem paralela se repete no filme e, geralmente é atravessada por um ruído de baixa frequência forte e constante, que provém dos sons da motosserra sendo afiada ou de motores de barcos abafados pela movimentação das águas rasas dos rios. Uma ruidagem que inicia de sons mais agudos e estridentes para se transformar em um drone (zumbido) de baixa frequência que contamina o desenrolar da cena. Nestes momentos, a organização estilística dos sons da trilha sonora subverte a precisão refinada do som digital para deixar restar imperfeições sonoras deliberadas (sons abafados da Gopro, ruídos do contato do microfone com o vento), utilizando o ruído para destacar uma onipresença perturbadora, com drones (zumbidos) esteticamente carregados (Coulthard, 2013) para enfatizar a destruição e o extremismo deste território fronteiriço povoado de disputas .
Um dos pontos destacados por Anabela Roque (2024) em seu artigo é que a cidade de Atalaia do Norte se tornou um pólo de migração para os jovens indígenas do Vale do Javari, que ao frequentar a cidade acabam tendo contato com os missionários e sendo inseridos em suas atividades religiosas na cidade, o que abre caminho para o esvaziamento das terras indígenas e facilita a ocupação do território por madeireiros e garimpeiros da região. O ruído estridente, insistente e intenso da motosserra acaba adquirindo novos significados com a posterior sequência de imagens de grandes troncos de árvores cortados e sendo transportados às margens dos rios. Em sequências anteriores, a presença da motosserra era dada pelo seu som acusmático (Chion, 2010) que posteriormente é visualizado no plano em um superclose de suas lâminas sendo afiadas. Na sequência em que vemos as madeiras sendo retiradas da floresta e transportadas pelo rio, o ruído da motosserra é musicalizado (Rogers, 2020,2021) e acompanha as imagens da devastação na floresta em movimento de aproximação, um zoom in que se alonga por alguns minutos. Sua paisagem sonora extremista denota uma relação violenta entre religião, madeireiras e o cotidiano daquele território fronteiriço. Mesmo assim, sons dos rituais ancestrais e de profunda conexão com a natureza dos primeiros povos daquele local tentam resistir, ainda que soterrados por outros sons da violência urbana e messiânica da região.
Bibliografia
- Bruno, Giuliana. Atmospheres of Projection: Environmentality in Art and Screen Media. Chicago: University of Chicago Press, 2022.
Coulthard, Lisa. Dirty Sound: Haptic Noise in New Extremism. The Oxford Handbook of Sound and Image in Digital Media. Edited by Carol Vernallis, Amy Herzog and John Richardson. The Oxford University Press, 2013, p.115-126.
Vergara, Guilherme; Dias & Riedweg. Esconderijos e Janelas – Olhares periféricos: Entrevista com Maurício Dias e Walter Riedweg. Revista MESA, n. 6, Março 2021. ISSN: 2319-0264
Rogers, Holly. 2020. Sonic Elongation: Creative Audition in Documentary Film. JCMS: Journal of Cinema and Media Studies, 59(2), pp. 88-113. ISSN 0009-7101 [Article] Roque, Anabela. Cinema enquadra impacto da evangelização dos povos indígenas. Revisão Glauce Monteiro. Revista Digital Amazônia Latitude. ISSN 2692-7462 (online)